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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Restauração


Parabéns aos bravos Heróis que às primeiras horas da madrugada restauraram a legalidade! Viva o Rei! Viva Portugal!

terça-feira, 5 de maio de 2009

Por São Nuno! *

A Igreja Católica Romana tem um novo Santo: São Nuno de Santa Maria (Nuno Álvares Pereira, o Condestável, de sua graça civil). Alegremo-nos! Aleluia! Aleluia!



Desde sempre esta figura esteve presente por . A figura do Condestável do Reino era uma figura amada pelos meus. Uma figura admirada. Tendo nascido aqui próximo, em Cernache do Bonjardim, sempre que lá nos deslocávamos encontrávamos a sua estátua e sempre me lembro de haver alguma referência à sua figura e à sua naturalidade beirã (mais a mais a estátua fica mesmo ao lado da casa de uma prima que visitávamos). Para mais, uma das freguesias que deu origem ao concelho de Ferreira do Zêzere – Águas Belas – foi um morgadio do irmão de D. Nuno e permaneceu na família Pereira até quase ao final do Antigo Regime (um descendente, Duarte Sodré Pereira, seria também Morgado de Águas Belas e estaria na origem de um dos lugares mais conhecidos da capital – o Cais do Sodré), e ainda hoje, diariamente passo junto ao antigo pelourinho que ostenta as armas dessa nobre família. À qual muito devemos, nós, portugueses!


A figura de D. Nuno é admirável. Homem de fé arrebatadora e profunda, combatente vitorioso (mas justo para com os seus inimigos, como ouvi algures, "combatendo sem ódio"), génio militar e político (não terá perdido uma única batalha), herói maior do panteão dos heróis portugueses, ascendeu pelo seu valor, pelo seu mérito, à mais alta posição na nobreza de então. Não é por acaso, certamente, que a sua filha está na origem da mais importante casa da nobreza portuguesa – a Casa de Bragança. Com ele, Portugal iniciou um dos seus períodos mais fantásticos, mais grandiosos, mais admiráveis. Há até quem o veja como sendo o pai do patriotismo, da própria noção de ser português. O que é certo é que, com ele, Portugal separou-se definitivamente de Castela. Sem retorno nem volta a dar-lhe. Nesse sentido é engraçado verificar que ele santificou Portugal (na origem e no sentido de "santo" está a "separação", o viver "separado", ou seja, o santo é o separado). Depois, quando tinha todas as honras e riquezas, fez partilhas com os filhos, desfez-se de tudo o que era seu, deixou a alta posição que ocupava e dedicou-se aos pobres, aos humilhados, aos indigentes. A eles doou os bens e o tempo. Foi um caso raro, ou seja, um caso santo. E fê-lo não tendo sequer professado religiosamente por não se considerar suficientemente digno para ser frade. Fê-lo fazendo os votos, mas não professando. Dando-se por inteiro – pondo-se por inteiro, como diria Ricardo Reis – aos outros, entregando-se, como o fez em tudo o que fez na vida. Ensinou-nos a todos que a vida é para ser vivida intensa e honradamente. Para ser vivida por inteiro, por completo, tomando partido sempre que isso seja necessário! Em tempos de politicamente correcto, indefinições, neutralidades e outras formas de abstenção, o exemplo de São Nuno de Santa Maria é cada vez mais vivo e mais actual – compromete-te sempre e fá-lo sem esquecer os teus irmãos que sofrem, poderia ser um lema a retirar dos seus ensinamentos! E já é tanto e às vezes tão difícil!...




* Citação do antigo grito de guerra português – Por São Jorge! – agora homenageando a figura de São Nuno de Santa Maria, conhecido entre os homens por D. Nuno Álvares Pereira, Condestável do Reino de Portugal, Defensor do Mestre de Aviz.

sábado, 25 de abril de 2009

Deserdados


Por nunca esta foi a madrugada esperada, inteira e limpa. Por nunca esta foi a manhã da liberdade. Foi-o sim, é bom recordá-lo, a manhã da tirania. A manhã do medo. A manhã do terror. Uma simples manhã, levemente apercebida, sem real noção do que se passava. Muito menos do que a tarde reservava. Era ainda a alvorada, na primeira estação do tempo. Era ainda a estação das cantigas e das palavras permitidas. O céu só começava a escurecer, mas era, julgava-se, mais uma trovoada. Cedo passaria, como de resto a memória dizia que todas as anteriores haviam passado. E haviam sido muitas!

Depois as horas passaram e o medo chegou. Um medo nunca antes visto, nunca antes apercebido - sequer como possível - instalou-se frio e triste. Chegou a tirania mais tirana do que a anterior. Chegaram os insultos, as ameaças, os planos de fuga e os planos de resistência. À medida que os carrascos afiavam as facas, construíam as forcas, elaboravam as listas de alvos, por serravam-se as portas, blindavam-se os corações, entreabriam-se levemente as janelas. A sombra da tempestade, negra e carregada, aproximava-se de mansinho; umas vezes parecia cavalgar montanhas; outras ficava a rondar, à distância, como um predador que apenas espera o momento de avançar.

À medida que o dia cresceu, cresceu o medo e o terror. Limparam-se as armas, cavaram-se as trincheiras, recolheram-se as flores, limparam-se as mocas. Tudo com um sorriso, tudo com a fria dissimulação da aparente normalidade. Os nossos choravam, corriam aflitos e avisavam da retirada. As notícias que chegavam eram terríveis: por toda a parte lágrimas e grades; por toda a parte escravidão e miséria. As trevas vieram e pressentiu-se o cheiro a enxofre e pólvora. O combate estava prestes a começar…




Hoje, depois de um outro 25 mais inteiro e limpo, urge lembrar a memória dos deserdados. Dos dois grandes traídos deste 25: Marcello José das Neves Alves Caetano. Fernando José Salgueiro Maia. Estes dois homens cruzaram-se há 35 anos atrás num dos dias mais inesquecíveis para os dois. Um estava de saída. O outro estava de chegada. Ambos cumpriram o seu papel com honra e dignidade. Ambos lamentaram o seu destino. É engraçado como duas pessoas se podem cruzar uma única vez na vida e, apesar dessa brevidade, ficarem unidas para sempre.


Marcello Caetano chegou quando tinha de chegar ao lugar para o qual se tinha preparado toda uma vida. Académico brilhante e reconhecido, emprestou a sua inteligência ao serviço das ideias em que acreditava e que procurou defender sempre. Foi um homem impoluto e honrado, e um grande professor, "o professor mais completo" (no dizer de Marcelo Rebelo de Sousa). Defendia uma solução transitória para a questão do Ultramar que passava por um período federalista que preparasse para uma descolonização à brasileira. Não conseguiu impor a sua visão em tempo útil. Foi traído por aqueles em quem mais depositava esperanças. Cumpriu o papel que a história lhe tinha reservado até ao fim, até à rendição, com uma única preocupação: que o poder não caísse na rua e que o Ultramar não fosse abandonado à sua sorte. Perdeu e nenhuma das suas preocupações foram atendidas! (Quero aqui contar um episódio que julgo que demonstra bem o carácter deste homem: aquando da Crise Académica de 62, Caetano era professor do curso de Direito na FDUL. Era professor de um primo meu. Um dia, em plena greve estudantil, chega à aula e vê o meu primo à espera – era um estudante bolseiro, com grande dificuldade dos pais e como tal não se podia dar aos luxos dos seus colegas esquerdo-burgueses. Marcello Caetano olhou para ele e perguntou-lhe o que fazia ele ali; ele respondeu-lhe que estava à espera da aula, ao que o [então também Reitor] Professor retorquiu: "Vá-se embora e vá ter com os seus colegas. O seu lugar é lá. O meu aqui." Ou seja: tudo tem o seu lugar e é preciso saber cumpri-lo e honrá-lo até ao fim!]



Salgueiro Maia saiu da EPC de Santarém para acabar com "o estado a que isto chegou!". Soube comandar e fazer-se obedecer. Mais: soube fazer-se respeitar e honrar. Dirigiu as operações do golpe militar que depôs Caetano do Poder. Conseguiu-o quase sem derramamento de sangue (graças a si e às ordens de Caetano que, podendo resistir, não o fez, preservando até ao último momento o sangue português que jurou defender). Quando entrou no Quartel do Carmo, para exigir a rendição de Caetano, portou-se como um militar e como homem honrado! Cumpriu as suas promessas e o seu dever (fiel ao que defendia e ao que acreditava). Mais tarde, participou no outro
25. Depois recolheu-se ao seu lugar, recusando as honrarias e as recompensas do parte e reparte que os novos donos do Poder (muitos seus antigos camaradas) lhe propuseram. Foi o único herói dos vencedores, porque foi o único que se manteve impoluto (como o escândalo que a recente promoção de Otelo Saraiva de Carvalho – terrorista condenado e politicamente absolvido – comprova!) e fiel aos seus princípios. Dele, um camarada dizia há poucos dias: "(…) se soubesse ao que isto chegava, não tinha saído de Santarém".




© Marcello Caetano, Maluda, 1970.

© Salgueiro Maia, Henrique Tigo.