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sexta-feira, 13 de março de 2009

Noite escura

horas em que fico exausto, triste, exaurido, aborrecido, exangue… Canso-me da incessante construção de pontes, da tecelagem infinita de fios que nos unam. Que nos aproximem. Canso-me e chego a julgar não valer a pena. Somos Penélope e Ulisses. Canso-me dos teus estranhamentos e partidas, canso-me dos teus silêncios, canso-me da tua recusa em partilhar o que te atormenta, o que te entristece, o que te magoa. Canso-me de estar sempre em festa, do riso e do siso. Tomo todas as dores de todas as tuas desfeitas, de todas as tuas ingratidões, atolo-me no teu lodo e irrito-me comigo e contigo. Enfastio-me de nós até à náusea.

Há horas assim. Horas em que vivemos uma noite escura. Horas em que nos invade um mar de tristeza. Sem luar nem maresia, só água e solidão. O fastio é tão grande, a noite tão escura, que nem as lágrimas encontram o caminho. Só uma falta de ar, como se toda a tua solidão fosse enxofre e me sufocasse lentamente. Como se toda a tristeza que carregas em silêncio me pesasse no peito até eu não ser capaz de a suportar mais.

Há horas em que me apetece gritar. Contigo e comigo, e ah, dizer tudo o que nunca disse! Tudo o que tenho teimado em deixar por dizer. Chego a achar que o que balbuciasse faria sentido, que a tudo daria forma, que a tudo nomearia exactamente. Horas em que roo a jaula, rosno ao redor e sinto o fio da lâmina nos dentes. Horas do diabo. Horas em que me apetece espantar todos os demónios e corrê-los a todos com um arraial de pancada!



Irra que é demais! Xô mafarricos dum raio que vos parta a todos! Xô! Grandes coiros!!!



© Edvard Munch, Puberty, 1894-1895

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

De mãos sobre os olhos caminho


De mãos sobre os olhos caminho
de estrelas enfeito os teus cabelos
no tapete de corda
nossos pés bailam nus,
os teus sobre os meus
por entre migalhas de romãs,
os teus sobre os meus
aprendem o cheiro do pão quente,
os teus sobre os meus


De mãos sobre os olhos escuto
os círculos da tua voz
na água do cântaro de folha
os teus sobre os meus
bebendo a frescura do jasmim
os teus sobre os meus
no riso dos teus olhos
a dança dos girassóis
os teus sobre os meus


à sombra da tua pele de Verão
respiro o sal e o fruto


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De mãos sobre os olhos
caminho
À sombra da tua pele de verão
respiro o sal e o fruto