É curioso como não me lembro de contigo me ter cruzado no atalho que segui. Não me lembro de te ter vislumbrado na vereda do caminho. E, no entanto, eu caminhei para ti. E tu caminhaste para mim.
Bolas! Estamos no ponto de fuga um do outro. Que havemos de fazer?
Há horas em que sinto que falhei. Pior: sinto que falhei contigo, a última pessoa com quem queria ou podia falhar neste mundo. Falhei e falho – a todas todas e tantas tantas horas. Porque não consigo ser o escudo que te proteja de todo o mal do mundo. Porque te feres e te cortas nos fios da vida, e eu nada consigo para arredondar todas as esquinas, algodoar todos os chãos, derreter todas as lâminas. Quando sinto que te feriste, que choras por dentro e por fora, emudeço de aborrecimento, sinto-me morrer aos poucos, caio aos pedaços enquanto as lágrimas do teu sorriso forram o lençol. Não consigo saber-te triste. Nunca consegui. Nunca conseguirei. Porque isso vai contra a verdade em que acredito, a verdade que professo, a verdade que me alimenta a respiração: tu, tu muito muito muito especialmente, tu nunca, mas mesmo nunca deverias experimentar o gosto azedo da tristeza!
Mandasse eu no mundo, tivesse eu o poder de Deus e tu nunca sofrias. Tu nunca te magoavas. Tu nunca caías no teu caminho. Só flores e risos. Só flores e risos. E beijos na testa e no queixo - como eu gosto e como tu gostas.
Dirás que deliro, que isso é e será sempre impossível, que é com esses solavancos que cresces e te conheces mais profundamente e melhor. Pois sim, acredito nisso tudo. Mas também no mundo sem dor e sem mortes e sem feridas a sangrar-sem-sangrar, sem dores a doer-sem-doer. Foste tu que me ensinaste isso e jamais o esquecerei. E jamais deixarei que o esqueças. Se mais nada puder ou souber fazer, estarei sempre aí para to dizer. Para te enxugar as lágrimas e te abraçar. Para te agarrar e lamber as feridas. Em silêncio, mas cheio de palavras que te encham o coração de sol e te devolvam o sorriso. Em silêncio, mas cheio de sorrisos para deixar na tua boca, e risos para encher os teus sonhos. Em silêncio velarei os teus sonhos e expulsarei os monstros do teu sono. Em silêncio varrerei a tua casa e deixá-la-ei a brilhar por dentro e por fora.
E há horas em que sinto que esperas por mim para te salvar. Que a todas todas todas as horas esperas que eu te salve. Que eu alumie o teu caminho e te pegue ao colo. Que te dê o paraíso na terra. Que cultive um jardim secreto e te leve para lá. Onde te dê a beber a água nascente com as minhas mãos. Onde te banhe os pés amassados e perfume os teus cabelos com jasmim. Onde o meu corpo seja uma concha para te deitares na relva húmida debaixo de uma coberta de estrelas. Onde sossegues.
E há horas e horas e horas que sei que o farei. Que o serei. Dar-te-ei a eternidade. Tu nunca morrerás! Nunca acabarás porque te amo. Porque te protejo e te trans-porto em mim, comigo, para cima e para baixo, de um lado para o outro do mundo, através de todos os tempos, em todas todas as horas. Guardo-te no fundo de mim porque lá construí um mundo de fadas e duendes e castelos mágicos e chupa-chupas coloridos e perfumados para habitares. Lá nenhum mal chega. Lá nenhum vilão te procurará. Lá estarás a salvo.