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terça-feira, 12 de maio de 2009

Terreiro abaixo

Infelizmente Portugal sofre de um lamentável síndrome de novo-riquismo. Por cá a história é mal tratada e vilipendiada, a língua é abastardada, o património é deixado ao Deus dará. Desconheço qual a raiz do problema (se ela for diagnosticável ou identificável), mas sei que isso me irrita absoluta e infinitamente. No campo do património essa tendência é mais notória, mais facilmente identificável, e, se quisermos, mais irritante ainda. Nunca um monumento está em paz em Portugal: ou é deixado à sua triste ruína, ou é "atacado" por enxames de arquitectos e outros que tais que, desrespeitando na maior parte das vezes o que está, querem sempre deixar uma marca, fazer um contraste, realçar um aspecto, ou seja: marcar território como os animais (e ainda há-de aparecer algum que marque efectivamente território como os animais e ainda lhe chame intervenção urbana e arte contemporânea! Garanto que ainda há-de aparecer!). Se isto foi apanágio na nossa história arquitectónica, tornou-se mais grave no século XX com as noções de "património" e de "conservação" do mesmo. Dos conceitos puristas da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais do Estado Novo, aos dislates do "poder autárquico" analfabeto da Terceira República, os casos são (infelizmente, também) quase infinitos. Aliás, estou convencido que, fôssemos um país rico, e já havíamos arrasado grande parte do nosso património para dar lugar a "conceitos contemporâneos"… O que me parece que esta gente não entende é que não vão inventar o mundo: para o bem e para o mal ele já cá está e aquilo que eles podem fazer é reinventá-lo – quando for caso disso, quando houver necessidade disso, quando isso for necessário. Mas não: as cabecinhas pequeninas não sabem o que é "restaurar", "renovar", "reabilitar" sem meterem o bedelho, que é como quem diz, sem darem a mijadela no canto!


Graças a isto temos praças e ruas com meia dúzia de nomes (variam consoante as épocas, os regimes ou os gostos dos fregueses…), temos praças e ruas que de tão incaracterísticas já ninguém sabe quando apareceram, como apareceram e qual o seu uso. Ao longo dos tempos vamos acumulando estilos e gostos e, no fim, o que resta, é uma confusão que ninguém percebe muito bem, mas a que se chama sempre "moderno" ou "contemporâneo"…




Deu-lhes agora para atacar o Terreiro do Paço / Praça do Comércio (lá está!). Não contentes com, ainda há uma dúzia de anos, a remodelação que lá foi feita haver devolvido a placa central aos peões (com a feliz retirada do parque de estacionamento novo-rico que por lá havia), eis que é preciso (de novo) devolver a praça aos peões! E, aproveitando umas obras necessárias que já deviam ter sido feitas por altura de outras igualmente necessárias (um dia saberemos quanto nos custam estas brincadeiras), lá apareceu o inefável e corriqueiro projecto para "revitalizar a praça". A proposta (daquelas propostas que, à portuguesa, são quase imposições e pontos de honra dos democratas cá do burgo) é, no mínimo, um crime de lesa património. No máximo, uma anedota. Eis que as alminhas que a conceberam, no fundo das suas cabecinhas iluminadas pela modernidade vanguardista, lá resolveram desencantar o piso que deu nome ao lugar (terreiro), propondo pois que a placa central seja coberta com "um conglomerado de saibro ou gravilha com resina". Hã? Não contentes, e já deslumbrados com os seus conhecimentos de história, propõem que, nos passeios junto às arcadas (agora já não se dizem "Ministérios" porque as cabecinhas até isso querem expurgar do lugar) sejam desenhadas linhas citadoras das linhas das cartas de marear quinhentistas. Hã? Para além disso, e porque somos todos atrasados mentais, propõem que seja construída uma espécie de passarela (o que eles precisavam era da passarola de Frei Bartolomeu para desandarem daqui para fora!) a ligar o Arco da Rua Augusta à Estátua Equestre de D. José I e desta ao Cais das Colunas (neste novo projecto transformado num apêndice circular), a fim de marcar um percurso até ao rio. Hã? Ao que parece também querem subir ligeiramente a cota da placa central para que a vista do rio se afirme (porque o Tejo é um "ribeirito" que quase ninguém nota por aquelas bandas, claro está!). Hã? E nas "arcadas", libertas do peso levemente maçador dos Ministérios, querem esplanadas e hotéis e outros que tais.




Podeis apreciar aqui a dimensão da tragédia:




Terreiro do Paço: História, Presente e Futuro




Frente Tejo assume opção pela redução «drástica» de trânsito




Novas imagens do futuro Terreiro do Paço já foram apresentadas




Opinião: Terreiro do Paço - Que futuro?




Losangos para o Terreiro do Paço pouco consensuais mas calçada não é obrigatória


Do Terreiro do Paço (porque we'll always have paris, mas quem nos tira a luz de Lisboa e o Tejo tira-nos tudo, não é Pedro?)




Hã???




Sinceramente não sei se chore, se ria, com tanto disparate junto. O Terreiro do Paço (eu prefiro o nome antigo porque é mais emblemático do que sempre por ali se passou, desde D. Manuel I) é a grande praça lisboeta. Minto: é a grande praça de Portugal! Goste-se ou não, foi para isso que foi concebido, primeiro no tempo da Carreira das Índias, depois, no tempo da Carreira do Brasil e da reconstrução "pombalina" (o nome Praça do Comércio é, em si, todo um programa político do desenvolvimento mercantilista do Reino e do entendimento que então se fazia do que eram os negócios do Reino). É então, desde sempre, desde o seu nascimento como grande praça de poder (na transição do século XV para o século XVI), a grande sala de visitas de Portugal. Lá se fez a história dos últimos 500 anos lusitanos. A partir de lá se ergueu um Império e (curiosamente!) lá também esse Império se desfez! ("É só fumaça") Na reconstrução da Baixa posterior ao Terramoto de 1755 é curioso verificar que, não só a memória do antigo Terreiro do Paço foi mantida, como foi engrandecida com as linhas que – então – gizaram uma cidade moderna e cosmopolita. Desde então, aquela é a grande praça da encenação do Poder em Portugal (e, concomitantemente, em tudo o que foi o Mundo Português). Aquele é o grande palco da Política e do Poder lusófonos! E não perceber isto é não perceber nada do que foi Portugal, pelo menos, na última metade de milénio!




Ora, é precisamente isso que este projecto põe em causa. A dignidade do grande palco do Poder lusitano (e um dos raros exemplos no mundo com a dimensão, o equilíbrio, a magnitude e a beleza do nosso Terreiro do Paço).




Concebido para ser uma grande e gigantesca "praça real" (por oposição às mais pequenas e mais populares Praça do Rossio/D. Pedro IV e Praça da Figueira/D. João I), dominado pela figura do monarca absoluto (naquele absolutismo à portuguesa tão diferente do restante europeu), D. José I, a cavalo, em traje de gala, pisando as "víboras" que atacam o seu prestígio (pelos vistos não calcou tantas quantas seriam necessárias!), o Terreiro do Paço foi concebido a pensar na materialização do Poder na arquitectura. E foi concebido para encenar a ligação de Lisboa ao Tejo e de Portugal aos Oceanos (tal como, noutra escala e noutro "mundo", a Praça de S. Marcos de Veneza foi concebida para projectar o poderio da grande cidade-estado sobre o Adriático). Não se compreende, portanto, porque é que, ao invés de encontrar uma simbiose entre a "calçada portuguesa" (que Portugal legou ao mundo, do Rio de Janeiro a Macau) e o lioz característico da região (e dos pisos) de Lisboa (julgo até que era o que lá estava), a opção arquitectónica – discutível como todas, ao invés do que parece perpassar do discurso vitimizante dos arquitectos – tenha apostado no incaracterístico e de mau gosto "composto de saibro ou gravilha". É que se é para citar o tempo do terreiro também podem começar a organizar uns autos de fé (contemporâneos do piso!) e umas touradas, ou a espalhar sacos de pimenta e bostas de cavalo para dar maior realismo à coisa… Quanto às "linhas cartográficas" nos passeios laterais também não julgo que se enquadrem minimamente no perfil iluministo-racionalisto-burguês que presidiu ao desenho da praça e da restante Baixa lisboeta. Que isso seja feito no Parque das Nações estou totalmente de acordo e até acho valorizador – no Terreiro do Paço acho uma idiotice pindérica. Tão-somente. Já no caso da "passarela" ou da alteração da forma do Cais da Colunas acho que são propostas tão inimagináveis que nem merecem referência mais aprofundada; e por um simples motivo programático: se há coisa que a "arquitectura pombalina" ensina é a não haver desperdício, não haver barroquismos e a tudo ser útil e racional – essas alterações não são!




Já na questão do alargamento dos passeios laterais acho que deve haver alguma ponderação. Sendo eu absolutamente favorável a uma redução do tráfego automóvel no Terreiro, não sou de todo favorável àquilo que é proposto (se acho bem que a Rua do Arsenal fique reservada aos trasportes públicos, a ideia de haver apenas duas faixas de atravessamento marginal parece-me outro disparate lírico que, ademais, provocará um estrangulamento nessa importante via de comunicação da cidade - o mínimo aceitável são duas faixas para cada sentido). Isto porque, ou as imagens virtuais falham muito, ou os passeios vão ficar absolutamente desalinhados com as ruas da Baixa (do Ouro e da Prata) e isso parece-me mais um aborto geométrico numa zona onde a geometria é tudo! Para além disso ouço há muito esta ideia do Terreiro do Paço como uma "praça popular", fruída por imensa gente por lá abancada em esplanadas e afins… Se não julgo que aquela seja a praça mais indicada para isso (o seu tamanho é impeditivo desse ambiente de proximidade familiar), julgo também que, a não ser que a abandalhem com pára-ventos altamente duvidosos, dificilmente o seus passeios serão agradáveis para a fruição diletante urbana. E até penso que não é desejável: para isso existe o Rossio, existe a Praça da Figueira (se bem que os tristes ventos da modernidade saloia também aí tenham relegado a Estátua Equestre do Mestre de Aviz para um canto subalterno), e poderia existir a Praça do Município (fosse ela viva), ou o Campo das Cebolas.




Sou, por isso, favorável à manutenção do Terreiro do Paço como grande praça histórica e cénica de Lisboa e de Portugal. Com fachadas amarelas e lioz e calçada portuguesa no chão. Com alguns bancos discretos e sóbrios. Sem árvores (se bem que goste das imagens que mostram uma praça orlada com árvores, julgo que o seu projecto arquitectónico recusa a sua existência: para isso existem o Rossio e a Figueira, insisto!), mas podendo muito bem receber uns vasos discretos com arbustos bem cortados. Com esplanadas nas arcadas, se isso não implicar grandes adereços (se há coisa que acho que deve ser apreciado é o despojamento, e ainda assim extraordinária beleza, daquela praça!). Com os ministérios no sítio que foi criado para eles (se compreendo que alguns terão de sair porque as instituições mudam, julgo que pelo menos dois, por aquilo que representam, lá devem permanecer: O Ministério das Finanças e o Ministério da Justiça), e a sede do Supremo Tribunal, ou seja, a sede absoluta (e já não absolutista) do Poder em Portugal. Pelo menos isto. E se querem mais gente a "fruir" a praça, experimentem reabilitar a Baixa, atrair gente para lá viver e talvez tenham surpresas. E sem insufláveis publicitários, "jardins portáteis" e outras parvoeiras: o Terreiro do Paço não tem de ser animado como uma feira permanente - um dos seus encantos, volto a repeti-lo, é o despojamento, é o espaço, é a luz, é a abertura de horizontes...




E a propósito: que é feito de um projecto que todos pagámos (e pagamos sempre todos, dislates ou não), apresentado pouco antes da partida do Sr. Barroso para Bruxelas onde, a par da reabilitação da Baixa, previa a reabilitação do eixo Santa Apolónia – Cais do Sodré com a ideia (magnífica, parece-me!) de, na Ribeira das Naus, criar uma zona de exposição (citação do antigo Arsenal da Marinha) com réplicas dos navios dos Descobrimentos visitáveis pelos turistas – e, o que é melhor – no preciso local de onde eles partiam e onde chegavam das carreiras imperiais? Local para onde iria a (triste) Fragata D. Fernando e Glória, recuperada para a Expo 98 e novamente votada ao apodrecimento inglório da Nação que lhe coube procurar enriquecer?




E já que falamos nisso, que tal montarem umas carreiras de barcaças turísticas que partindo (do Cais do Sodré, de Santa Apolónia, de Belém, do Parque das Nações ou de outro lugar qualquer) aportem os turistas ao Cais da Colunas, dando-lhes a "visão dos reis" de verem crescer diante dos seus olhos a beleza do Terreiro do Paço sem "travestismos", mas apenas ele, simbólico e belo, austero e imperial, doce e sereno, no permanente enamoramento de Lisboa com o Tejo? Isso, sim, era moderno! E catita!









© Estátua Equestre de D. José I.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

São Domingos

A tarde estava luminosa, com aquela luz-branca-reflectida-no-azul que só Lisboa e o Tejo nos conseguem dar. Um cheirinho do Verão acariciava já a pele e despertava os sentidos. Ao passar por São Domingos resolvi entrar…

(Desta magnífica igreja da Baixa alfacinha apenas conhecia a fachada e alguma história. Sabia-a mais antiga do que o traço pombalino dos edifícios circundantes; sabia-a palco do início do Massacre de Lisboa de 1506, o dia em que o fanatismo abalou a convivência pacífica secular e os judeus e cristãos-novos da cidade foram barbaramente perseguidos e assassinados – o começo dos autos de fé, ainda assim, antes dos autos de fé; sabia-a palco dos últimos casamentos reais a que os portugueses tiveram a graça de assistir na Monarquia Constitucional; sabia-a consumida por um incêndio (na década de 50 do século passado pelo que apurei); sabia-a bela e majestosa, com uma belíssima fachada (agora sei que o seu portal e a varanda que o encima são memória sobrevivente da antiga capela do Paço da Ribeira). Não sabia mais.)


Entrei.


A princípio impressiona o tamanho: é uma grande igreja salão, mais alta e mais larga do que a maioria a que estamos habituados, ampla e funda. Depois impressiona(-me) o kitsch característico de uma igreja eminentemente popular (portanto, pop): as inefáveis e superabundantes flores de pano e plástico; os mantos das santas em cetim branco de marcha popular; os potes e jarras das lojas chinesas, imitação de dinastias perdidas; a mesa e cadeirão do altar em imitação de talha dourada… Mas nada disso interessa em face do que presenciamos. Do que realmente, ali, presenciamos – a presença de Deus! É extraordinária a presença do Altíssimo que lá se sente, que nos envolve, que nos fascina, que nos toca o coração – um lugar santo na sua máxima definição. Acompanhado pelo campo gregoriano que, baixinho, embala os corações dos crentes, percorri aquele chão secular, admirando alguns dos extraordinários exemplos de arte sacra. De tudo, fica-me a lembrança – impressa na alma – de como a Igreja de São Domingos, apesar de consumida por um incêndio (e nunca restaurada no seu anterior esplendor), apesar dos rebocos caídos e estalados, apesar das paredes ainda chamuscadas (às quais o fumo das velas acesas – sim, ali ainda há velas a sério e não aquelas coisas irritantes que piscam por uma moedinha! – apesar das enormes colunas estaladas e esventradas, apesar das portas em madeira tosca, apesar dos púlpitos destruídos… resiste. O essencial, o que interessa, resiste. E não há terramotos, não há incêndios, não há acessórios que o perturbem: a casa do Senhor é-o sempre, seja em São Pedro do Vaticano, seja numa cabana africana, seja em São Domingos em Lisboa – Deus é sempre lá! De São Domingos trago a impressão de ser uma das mais belas igrejas que tenho memória de haver visitado: não pelo estético, mas sim pelo ético – não é Heraclito quem diz Ηθος Ανθρωπος Δαιμων (Fragmento 119)?





©Imagem aqui .

domingo, 5 de abril de 2009

Cliché

Dois programas de televisão provocaram-me hoje uma incrível sensação de fastio. Foram, ambos, mais do mesmo, e mais do mesmo, mesmo! Falo do Conta-me Como Foi na RTP1 e do Câmara Clara na 2:.

O Conta-me Como Foi fez um episódio especial no qual a família Lopes visitou a aldeia onde têm as suas raízes. Como sempre nesta série, gosto da recriação de um tempo no qual não vivi, mas do qual conheci ainda as franjas. Gosto da recriação dos objectos, das roupas (hoje até as roupas dos "aldeões" falharam redondamente), dos pequenos nadas do quotidiano, dos costumes e dos hábitos das gerações que nos precederam. Como sempre (infelizmente, diga-se de passagem), acho a abordagem política tonta, desfasada, tendenciosa e infiel à realidade. Aliás, quem vir a série dificilmente compreende como se aguentou a mais longa ditadura do ocidente europeu durante tanto tempo, quando (supostamente) não havia praticamente ninguém a defendê-la. Com a (des)honrosa excepção da atroz figura do "Engenheiro" que julgo pretender caracterizar uma classe média-alta apoiante do regime. Fica-se pela pretensão: a tonteira com que a personagem foi pensada (e todo o mundo em que se move) tem mais semelhanças com a classe média aburguesada e "pato-bravia" que tomou conta do país nos tempos imediatos à queda do regime (e que muito prosperou com essa mesma queda), do que com as classes médias antigas-apoiantes do Estado Novo ("antigas-apoiantes" porque em Portugal, todos são pela"situação" num dia, e no seguinte já todos são pela "revolução", coisa que se repete e verifica em todas as ditas "revoluções", pelo menos desde 1910, embora desconfie que o mal e a cobardia já vêm de longe!). Alicerçada na visão marxista do mundo (a suposta luta de classes como motor do mundo, os patrões sempre vistos como bichos piores do que o Adamastor, a figura do assalariado-vítima, e outros dislates e parvoíces que tais – e o que impressiona é como isso fez história no mundo inteiro! E milhões de vítimas.) a série falha naquilo que poderia ser uma discussão (mais de "serviço público" do que o aborrecido-mas-alguém-ainda-vê-aquilo-? Prós e Contras) interessante, educativa, pedagógica e reconciliadora. Reconciliadora com a nossa história, volvidos que estão quase 35 anos do 25 de Abril de 1974. Uma geração, portanto. Nada disso! Perdendo-se por esse lado, sobra a recriação folclórica dos usos e costumes, da moda e da decoração, dos anúncios da televisão (embora quem veja aquilo não tenha bem noção que a Televisão era apenas "um canal e meio", sem programação contínua), da lembrança de alguns acontecimentos marcantes da época, e dalguma diferença nos modos de educação. É pouco, mas é o que temos. (não sei se o problema estará tão puramente no facto da versão portuguesa ser adaptada da versão espanhola e por lá estar na moda a revisão histórica, se o problema é mesmo de ser escrita por gente que não faz a menor ideia de como as coisas se passaram).

Ora foi aí, exactamente, que o episódio de hoje me deixou de boca aberta. A falha foi por demais evidente. Das roupas à aldeia totalmente despovoada a que assistimos (coisa que em 1970 é totalmente impossível, apesar do surto emigratório dos anos 60. Aliás, nem em 1980 as coisas eram assim!), foi um descalabro de disparates. E eu, que costumo dizer que um dos piores males deste país é não ter elites regionais dignas desse nome, restando apenas as elites do eixo Liceu Passos Manuel- Liceu Camões cujo conhecimento do país é nulo, vi a minha anátema retratada com todas as cores no ecrã do televisor. Quem escreveu aquilo não faz ideia 1) do que é uma aldeia portuguesa, 2) do que é uma aldeia portuguesa em 1970, 3) do que é uma aldeia portuguesa em 1970 em Trás-os-Montes! E, julgando eu que a minha incredulidade se devia ao meu já famoso mau feitio, eis que a minha madrinha entra na sala, olha para aquilo e diz-me: "- Mas eles julgam que toda a gente se vestia de preto nas aldeias?" E eu, ainda tolhido pela incredulidade só lhe pude responder: "- Pois, parece que sim…"

Ora vamos lá a pôr um bocadinho de siso nas coisas. A) As aldeias portuguesas ainda não estavam, em 1970, como estão hoje: eram habitadas, não só pelos velhos como (ainda) por muita gente nova; ora isto é facilmente perceptível se nos lembrarmos da percentagem da população cuja actividade principal ainda era a agricultura e extrapolarmos os resultados para a população envolvida, ou seja, até matematicamente é verificável! B) Os aldeões não andavam todos vestidos de preto: isso era habitualíssimo (e mal visto se assim não fosse) nas viúvas, naqueles que estivessem em período de luto, ou nas mulheres solteiras mais beatas, se bem que até estas usavam outras cores, discretas, mas outras cores. C) As pessoas não saíam (não saem) da missa e desaparecem da igreja; não: o pós-missa é um ritual tão ou mais sacramentado do que a Eucaristia ela mesma! E para isso não é preciso ir a 1970: basta ver hoje como é. D) As crianças das aldeias não andavam assim vestidas (tomara elas!), nem sequer quando eu andei na escola, numa aldeia, no final da década de 80! É triste, mas é verdade! Não vi nenhuma em actividades agrícolas (as brincadeiras eram, normalmente, nos intervalos das mesmas).E) Duvido que os aldeões precisassem de conselhos amorosos do "D. Juan Carlitos"… Essa visão do mundo rural repleto de atrasadinhos e "atadinhos-quase-bestas" é um insulto e é não conhecerem a cepa rural portuguesa. De todo! E se fosse ao contrário não me espantaria… F) A visão "nova-rica" de uma rapariga citadina que não sabe lavar à mão só pode ser, em 1970, uma liberdade poética e ficcional. À mão lavava-se (lava-se) em qualquer lugar, fosse no rio, num lavadouro público (como foi o caso na série), num tanque numa qualquer "marquise" de subúrbio (que os "Lopes" até têm e tudo como vimos em episódios passados), ou num alguidar na banheira; achar que não é, isso sim, não fazer ideia do que seja… mas entretanto correram 40 anos de água por debaixo das pontes. G) Não havia necessidade de transformar a alusão às "disputas da água" (é verdade, famosas e usuais ao tempo, e pelo que oiço dizer, ainda hoje) em mais um episódio maniqueísta da luta de classes: as ditas aconteciam transversalmente e, corrijam-me se estiver errado, aconteciam mais entre as classes (ditas) populares, e entre familiares, por um simples motivo: as propriedades serem mais pequenas, mais concentradas e o recurso a poços ser, por isso mesmo, mais escasso. H) Quer-me parecer (e quem conhecer melhor as tradições nortenhas poderá esclarecer isso) que nos casos em que se "aguardava" uma morte, os vizinhos e familiares não se juntavam (simplesmente) em casa do quase-defunto: juntavam-se em oração (tenho ideia que o Rosário seria o mais comum), pedindo ao Céu para que a alma do ente querido entrasse com todas as honras no Reino dos Céus. E após o último suspiro as rezas continuavam durante o velório, havendo "carpideiras" e tudo! (por cá, em 1986 ainda havia o recurso a essas "profissionais da dor").

Nota positiva apenas para um diálogo tido junto ao lavadouro: o diálogo sobre a vida rural/vida na cidade. O resto: pura ficção e mais do mesmo!



Posto isto, transitei para a 2: para o Câmara Clara onde se debatia a Guerra Civil de Espanha 1936-1939. Ou melhor: debater é um eufemismo que utilizo para (mais) um programa de propaganda. Para ter havido ali algum debate teria de ter havido – pelo menos – duas posições antagónicas sobre o assunto, coisa que não se verificou. Aliás, esta conversa sobre a Guerra Civil de Espanha é elucidativa para trazer aos olhos e aos ouvidos uma coisa que me parece extraordinária: esta é das raras guerras cuja história não é escrita pelos vencedores, mas pelos vencidos. E isso, sendo raríssimo na história mundial, é assinalável. O resto foi mais do mesmo. Com uma nuance: um dos intervenientes defendeu a tese de que "até houve algumas atrocidades do lado republicano" (coisa também assinalável por ser comummente omitida e convenientemente "esquecida"), para logo atalhar que essas barbaridades e esses crimes foram perpetrados pelos revolucionários mais esquerdistas. Ou seja: ao que parece o lado republicano é todo impoluto e virginal, à excepção de uma horda de gente que, apesar de constituir uma boa parte desse campo, "não era desse campo". Eram, se quisermos, uma terceira parte envolvida na guerra, a qual, ao que parece, se travou entre Anjinhos (os Republicanos bons), Maus (os Republicanos-que-não-eram-bem-Republicanos-porque-eram-maus) e Demónios (o Bloco Nacionalista). É obra!

E eu diria que é não perceber, ou não querer perceber o que é uma guerra, o que acontece durante uma guerra, e pior, o que é e o que acontece durante uma guerra civil (como é o caso da Espanhola). Pior: o que é e o que acontece durante uma guerra civil que é um ensaio para outra(s) transnacionais por vir. Mais ainda: é não perceber, ainda hoje, o que levou a Espanha à insurreição generalizada e à guerra civil. E isso, não podendo ser burrice colectiva, só pode ser uma coisa: má vontade, falta de honestidade intelectual e, mais prosaicamente, sacanice! A Espanha viveu uma guerra civil feroz, sangrenta e cruel (como todas, de resto). Nessa guerra cometeram-se atrocidades (como em todas) e crimes variados por ambos os lados da contenda (como em todas). Alguns desses crimes, sendo explicáveis, não são justificáveis em tempos de guerra (como em todas). Esses crimes deixaram marcas profundas (como em todas). Há que fazer a história para memória e aprendizagem futura (como em todas). Essa guerra teve intervenção estrangeira (numas mais do que noutras, mas, como em todas). A partir daqui, investiguem-se, estudem-se, discutam-se e pensem-se as singularidades desta guerra. Pense-se porque é que o lado, supostamente mais forte, perdeu. Pense-se porque é que uma insurreição no ultramar foi seguida por quase todo o território da metrópole. Pense-se porque é que a Monarquia havia caído ainda não meia dúzia de anos antes. Pense-se qual era o ambiente vivido na sociedade. Pense-se. Pense-se. Pense-se. E tenho a certeza que a conversa será ligeiramente diferente… Que é como quem diz, menos do mesmo!



© Imagem aqui.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Retrato do Cavaleiro quando Jovem

Não sei se já nos havíamos encontrado antes. Se tiver acontecido, não nos encontrámos mesmo. Mas lembro-me que num dia especial, o dia em que a instituição castrense me dispensou do serviço à Pátria, nos encontrámos, casualmente, à hora de almoço. Um dia luminoso de sol, com o Tejo e a luz de Lisboa toda a banhar-me o sorriso. Entrei na sala, virei à esquerda e lá estava ele. Julgo que já lá estivesse há muito tempo, mas isso também não interessa: a partir de então passou a estar lá para mim, para mim (sou egocêntrico, pois sou!)! Nunca mais me abandonou: desde então, uma imagem sua acompanha-me no meu espaço, no meu lugar – na minha khôra. Fascina-me a sua nobreza. Fascina-me a sua tristeza. Fascina-me a sua solidão. Se há imagem da solidão esta é uma delas. E é esta, também, por causa da sua história, das suas cicatrizes. Por causa do seu rastro ténue e esvaecido nos nevoeiros…

Responde pelo nome Retrato de Jovem Cavaleiro e é a minha obra do Museu Nacional de Arte Antiga. O pouco que se sabe sobre esta obra é que o seu autor é desconhecido, que será do século XVI (1540-1560), e que o jovem cavaleiro também é desconhecido. Mais, apenas reza que: “O quadro retrata um jovem cavaleiro representado em busto a três quartos. Enverga uma armadura de aparato, tauxiada de ouro, de cuja gorgeira metálica forrada a veludo vermelho sai uma gola de renda branca encanunada que lhe emoldura o rosto de feições finas e delicadas. Sobre a armadura sobressai, a tiracolo, uma faixa ou banda de seda vermelho alaranjada, sinal do poder por ele detido. Segundo Adriano de Gusmão, este quadro é um fragmento de uma tela maior, pelo que é provável que o cavaleiro ostentasse, para além da faixa/insígnia de comando militar, o bastão de comando usado pelos cabos de guerra”; que tem de altura 47 cm, e de largura 34 cm; e que a sua incorporação no MNAT foi feita através de compra à colecção Guerra Junqueiro (verba do legado Valmor). Nada mais. Nenhuma outra pista. Absolutamente, nada mais.

Sozinho no seu retrato (como convém) este Jovem Cavaleiro é refém da sua própria vontade. Quis imortalizar-se, quis perdurar para além da morte, para sempre. Para isso procurou um artífice do tempo, um artista, para o imortalizar, imortalizando-se. Ambos perderam a batalha contra o tempo. Ambos estão irremediavelmente perdidos, apenas restando deles, dos dois, este rosto triste e solitário, um menino armado cavaleiro, um menino ainda, que, dita-o a cronologia, terá acompanhado – talvez, podemos e devemos sonhá-lo – já homem feito, o ainda menino-Rei Sebastião nas quentes e sangrentas areias de Alcácer-Quibir. Um prometido à morte. Terá lá morrido, terá vivido, terá sobrevivido? Nada nos diz o Tempo. Apenas sabemos que ele, este rosto, este rosto triste e solitário, existiu sobre as pedras deste espaço a que se chamou Portugal. Por ele terá combatido, e talvez por ele tenha também morrido. Anonimamente morto, nas areias do Império e na memória dos seus. Para sempre. Mais morto do que se apenas desaparecido da face da terra. Não! O meu Jovem Cavaleiro permanece a fitar o seu próprio destino, a desafiar a imortalidade, na sua juventude fulgurante, para sempre. Preso para sempre no seu próprio desejo auto-ego-poiético-biográfico. Preso para sempre, sem descanso, sem repouso, numa imagem que, quis um dia, perdurasse.

Não será este também o nosso eterno e inconfessado desejo? A vontade de per_durar, a vontade de não desaparecer, de nos sabermos duráveis, eternos no nosso delírio autopoiético? Mas, a questão deve pôr-se: valerá a pena permanecer sem nome - afinal o que haverá de mais próprio do que um nome, o nosso nome? -, anonimamente, um rosto apenas, um rosto virado para o futuro, sem rastro, sem marca, sem voz? Um rosto sem passado, sem carne. Como se todo o tempo da duração fosse aquele, como se todo o tempo da vida fosse, apenas, à peine, aquele. Não será esta a triste ironia deste rosto? Um rosto que vingou durante quase cinco séculos, altivo, majestoso na sua juventude desafiante, orgulhoso na sua solidão de menino, mas um rosto sem nome, e dupla ironia, um rosto pintado por um artista anónimo, desconhecido. Sem assinatura, pois, um e outro sem assinatura.

É por isso que, desde aquele dia, sentado naquele magnífico jardim sobre o Tejo, com o cheiro da canela e do cravinho-da-índia ainda entranhado na brisa, este rosto não mais me saiu do pensamento. Não mais o abandonei. Sinto-o como uma missão. Sou um amigo distante que o não esquece, um combatente da sua solidão, da sua irremediável e triste solidão. Mesmo sem-nome, mesmo que totalmente anónimo, há alguém que o não esquece, que se lembra dele, do seu retrato, do seu rosto, daquele perdido por entre os outros rostos nas paredes impessoais de um museu. Aquele que um dia, um dia talvez até sentado neste mesmo lugar, ele quis que perdurasse como memória dele e daquele sol que banhava o Tejo, enquanto as velas das naus traziam entranhado o cheiro da canela e do cravinho-da-índia, e as gaivotas grasnavam a anunciar os combates nas areias distantes de além-mar.


É talvez, e também, ou sobretudo, uma luta contra a minha própria mortalidade. O desejo de que um dia, cinco séculos à frente, talvez olhando o Tejo num belo dia de sol, alguém possa lembrar-se de mim, e - espero-o do alto da minha soberba - saiba pronunciar o meu nome. Se eu perdurar, também ele terá perdurado. Tudo estará cumprido!