Mostrar mensagens com a etiqueta Eleições. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eleições. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

God Bless America II

América, América

Por contingências da cronologia, este artigo foi escrito antes de se conhecer o próximo inquilino da Casa Branca e publicado depois. Salvo surpresa, o inquilino será Barack Obama. Para o caso, não importa. E o caso, aqui, é o meu com a América, pouco susceptível de sofrer abalos por via das urnas.

Claro que a esquerda europeia e certa esquerda nacional andam empolgadas com a ascensão de Obama. Embora custe entender o que vai naquelas cabeças, talvez julguem que a vitória de Obama implica a capitulação dos EUA perante os seus inimigos. Ou a transformação do país num imenso Estado “social”, dedicado à humilhação dos ricos e, admita-se, dos operários e saloios sem consciência de classe que a esquerda abomina. No fundo, a esquerda aguarda que Obama acabe com uma determinada ideia da América. Ou, nos melhores sonhos, com a América.

Em época de obituários frenéticos do “neoliberalismo” e do “neoconservadorismo”, que ninguém define e todos condenam, não quero estragar o gozo de ninguém, mas temo que faltem caixões para tanto enterro e que o gozo não dure muito. Também face a Obama, a esquerda sofre do que, em bom português, se designa por wishful thinking, o hábito de tomar os desejos pela realidade.

Na América, que os marxistas pioneiros imaginaram cenário da vanguarda proletária, a realidade teima em desiludir a esquerda. Cada Presidente com que tentou simpatizar arruinou-lhe as fantasias em questão de semanas. Ou dias. Com diferenças de pormenor e discurso, as esperanças momentâneas da esquerda confiaram igualmente nas virtudes capitalistas e na pertinência militar. Não parece que Obama constitua excepção.
É claro que eu preferia McCain, menos pela área ideológica que na campanha ele fingiu representar do que pelas provas do seu passado, o qual, ao invés do passado do cintilante adversário, não se restringe a uns fogachos de activismo “cívico”. Por conveniência eleitoral, que suspeito errada, o moderado McCain abraçou o populismo à Goldwater de que nitidamente não comunga. Obama, por sua vez, viu-se forçado a disfarçar um currículo tangencial a figuras e causas “progressistas”. É interessante notar que ambos negaram boa parte do que realmente são. Dado que a América não é o que os europeus e alguns americanos enclausurados em universidades e redacções jornalísticas gostariam que fosse, é interessantíssimo notar que a negação empurrou ambos para as respectivas direitas.

Se tivesse ganho, acredito que McCain governaria de acordo com as suas convicções. Obama, cujas convicções são afinal vagas, volúveis e “estratégicas”, governará de acordo com as genéricas imposições do país “médio” e, por comparação com a Europa “média”, reaccionaríssimo. Em política externa e interna, as alterações serão principalmente discretas, ou no mínimo bastante comedidas para as expectativas da esquerda que nos é familiar. Ainda que José Saramago descobrisse em Obama o candidato da “revolução”, não se afigura provável que o senador do Illinois imponha nos EUA o tipo de revolucionária (e, passe a redundância, assassina) que o sr. Saramago sempre venerou. Nem que as suas medidas futuras encantem os sujeitos que leccionam workshops nos acampamentos de Verão do BE.

Em boa parte, o absurdo entusiasmo de estalinistas, leninistas, trotskistas e artistas afins em volta de Obama deriva de um cliché racista: o preto subversivo e avesso ao “sistema”. Sucede que, formado pelo “sistema” e eleito por milhões dos votantes em Bush, Obama encontra-se a milhas da subversão. Pelos repugnantes padrões do sr. Saramago, que a criatura exibe ou oculta consoante o contexto, o cristão e favorito do capital Obama é, na terminologia da seita, um óbvio “fascista”. Para cúmulo, com uma ironia que o sr. Saramago tem naturais dificuldades em detectar, celebrar o democrata é celebrar o vigor da única democracia capaz de escolher o Presidente dentro de uma minoria étnica.

Mudança é o slogan, não é? Mais do que a mudança após Obama, fundamental é entender que a América mudou durante 200 anos até chegar a Obama. Ao contrário do Ocidente que sobra, aliás, a mudança pertence à essência da conservadora América e, em larga medida, descreve esse lugar de fronteira que reflecte como nenhum outro os paradoxos da espécie e as suas maiores conquistas: progresso, conflito, superficialidade, comércio, comunidade, ambição, propriedade, tradição, ruptura, espectáculo, violência, iniciativa, racionalidade, optimismo, crise, religiosidade, ciência. E, sobretudo, liberdade.

Visto que, com ou sem Obama, a América não ameaça tornar-se uma Cuba ou sequer, se Deus e os homens que prezam tratamento de homens livres permitirem, uma paternal Finlândia, a América só não muda de modo que aqueles que a odeiam desejariam. De resto, a mudança na América não morreu com Bush nem nasceu com Obama. E o ódio à América não nasceu com Bush nem morrerá com Obama.

Alberto Gonçalves






* Há pessoas que têm o dom de dizer aquilo que, se tivéssemos engenho e arte, gostaríamos de dizer. O Alberto Gonçalves (na Sábado e nos Domingos do DN) é, por estes dias, o meu guru das crónicas. É um dos mais brilhantes da sua geração, e tal como alguns outros que devoro sempre que encontro (caso do Luciano Amaral ou do Rui Ramos), sabe pôr o dedo na ferida como poucos (e quase nenhum) o fazem neste país. Sempre com uma ironia refinada, uma elegância fascinante, e, sempre que lhe apetece e deve, uma crueza desconcertante. É daquelas pessoas que apenas sabem/conseguem gerar ódios ou amores avassaladores. Ou se ama ou se odeia. E eu sempre gostei de gente no limite...



Este é o texto por ele publicado na Sábado sobre as eleições americanas. Como complemento - se é que precisa! - deixo aqui o texto dos Dias Contados no DN do último Domingo. Sou fã, pois que sou!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

God Bless America

À hora em que escrevo, os EUA votam para a eleição do seu novo Presidente. Os “tickets” (como por lá se diz) são basto conhecidos: Obama-Bidden pelo Partido Democrata versus McCain-Palin pelo Partido Republicano (bem, pelo menos são estes os candidatos que têm hipóteses de conseguir votos no Colégio Eleitoral, o que é diferente). Sendo difícil fazer a transposição do sistema político americano para a generalidade dos sistemas europeus (na célebre dicotomia esquerda-direita), não será fácil e taxativo, à partida, ter um candidato – whatever it might be – se bem que esta expressão só seja possível porque as eleições americanas despertam mais paixões e “adeptos” no mundo, do que, diria, o próprio futebol!

Ora, foi necessário ir aos programas eleitorais e aos discursos. De Mr. Obama abundam os discursos, embora – coisa que me parece que o mundo ainda não percebeu… - todos e cada um deles se resuma em duas ou três ideias gerais, fracas e nada concretas. Ora, por definição, eu sou pouco dado a lirismos políticos, venham eles sob a forma de utopias, venham eles sobre a forma de “caudillos”. Quase sempre isso significa muito sangue derramado, muitos mortos, muito sofrimento, muita pobreza e muita fome. Ou, no melhor dos cenários, muita desilusão. O meu problema com a Obamania destes tempos, é ela não ser fundamentada em nada de sólido, de concreto, nem que fosse uma promessa eleitoral qualquer. Não. O Sr. esmera-se a falar de “mudança” de “esperança” e de “sonho” sem que isso signifique alguma coisa na vida real. Quer mudar a imagem dos EUA no mundo, mas o máximo que lhe ouvi foi algo como “dar as mãos com os outros povos” para chegar a “entendimentos comuns”… Ora, para quem é considerado um “orador brilhante” (bons “speech writers” e “telepontos” fazem maravilhas!), convenhamos, é muito pouco… ou, no mínimo e com a máxima das boas vontades, infantil – e eu nunca acredito que em política, na grande política, haja infantilidades… Decidi-me então pelo Sr. McCain. Velho herói de uma guerra perdida, homem conhecido pela verticalidade, pela integridade, pela honestidade, pela honra, tem aquilo que eu aprecio nos políticos: é um homem à antiga, de velhas fidelidades, de velhos valores. E isso é admirável! Além disso tem uma coisa que eu, bom admirador de Churchill, aprecio: o sentido de humor e a capacidade de rir de si próprio - ora, o Sr. Obama nisso é tão técnico quanto os seus discursos: o homem não é um homem, é um mito! O Sr. McCain tem também, obviamente, um programa político que me parece muito mais bem conseguido, muito mais realista e realizável. E tem uma diferença abissal com o Sr. Obama: a questão iraquiana.

Aquando do atentado ao World Trade Center temi a reacção americana. Aliás, à laia de anedota, a minha primeira reacção quando soube do que tinha acontecido (lá para as 18.30, já o mundo estava em choque há horas…) foi pensar em enlatados: em ir comprar enlatados, porque é sempre isso que é mais necessário em tempos de guerra… Começou o ataque ao Afeganistão e encolhi os ombros (embora a questão do “direito de ingerência” seja algo que ainda não resolvi o suficiente comigo-mesmo); depois, foi anunciado o ataque ao Iraque e eu, adepto incondicional da NATO, achei e acho que deveríamos apoiar os nossos aliados, se bem que moderadamente: os EUA e o Reino Unido iam atacar sempre, em qualquer caso, logo tínhamos mais a ganhar com um apoio, mesmo que velado, do que sem ele. Mas nunca pensei que a estratégia para o momento seguinte fosse decalcada da descolonização portuguesa, ou seja, a destruição do Estado implantado. Atacar um Estado, tomá-lo, e depois desmantelá-lo fazendo tábua rasa de tudo o que existia antes, eis, quanto a mim, o grande, o magistral erro da Administração Americana no Iraque. Só que um erro não se resolve com outro erro: o abandono. E é isso que o Sr. Obama propõe para o Iraque. Para ele, a invasão foi um erro (parece consensual, embora, se calhar não pelos mesmos motivos), a estratégia para o pós-ataque foi desastrosa (também consensual), e a solução é abandonar porque não se ganhou à partida, ou seja, em termos muito americanos, repetir a tragédia do Vietname. Isto é: invade-se um país estrangeiro, destrói-se, aniquila-se toda a estrutura estatal desse mesmo país, saqueia-se, e depois abandona-se à sua sorte porque já não interessa… Acho engraçado isto vir do dito candidato de esquerda, ou talvez não seja assim tão surpreendente… É, de resto, uma posição, mais uma vez (uma mal nunca vem só!!!) alinhada com a descolonização portuguesa – ou como gosto de lhe chamar, vamos-embora-traz-a-bandeira-antes-que-eles-notem. Ora a história serve, precisamente, para aprendermos com ela. A “solução” democrata para o Iraque é uma vergonha e é indigna para uma grande nação como a americana! O proposto é pura e simplesmente abandonar um país destruído à sua boa/má sorte… Não se faz! É, ou deveria ser – pelo menos – um crime contra a humanidade.

Mas pronto, quem decide é o povo americano (coisa estranha e “impossível” de compreender para os “campeões da democracia” na Europa). E esse parece ir atrás dos comentadores deslumbrados com a “imagem” de Obama, com a sua “postura presidencial” e com a sua “cor da pele” (será que ainda não perceberam que em termos de racismo, tão racista é o que não vota no homem porque é mulato, como é aquele que vota por o homem ser mulato…enfim… esquerdices!). É engraçado e triste verificar como, na altura em que o Partido Republicano apresenta um candidato infinitamente melhor do que o, agora de saída, Presidente Bush, perde as eleições para um candidato, infinitamente pior, do que John Kerry (ou mesmo Hillary Clinton…). Eu por mim, na hora da derrota anunciada estou com os “meus”. Estou pois com Jonh McCain. E estou, sempre com um olhar de admiração pelo grande espectáculo da democracia, com a América! God bless it!


terça-feira, 21 de outubro de 2008

Da democracia (em abstenção)

Realizaram-se no passado domingo as eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores. O Partido Socialista saiu vencedor apoiado por 23,36% dos eleitores açorianos. Os mais atentos a estas coisas dir-me-ão de imediato: “ Olha que o PS teve mas foi 46,96% dos votos, estás enganado!” Mas não, não estou. Aliás, nenhum de nós estará errado e nem é preciso fazer a quadratura do círculo. Ora vejamos:

1) o PS venceu efectivamente com 46,96% dos votos expressos validamente .
2) o PS foi efectivamente apoiado por 23,36% dos eleitores açorianos.

Como? É simples: uma vez que a Abstenção foi a grande vencedora com 53,24%, basta fazer meia-dúzia-ou-não-tanto de contas simples para perceber que os 46,96% dos votos expressos e válidos significam na realidade (tendo em conta que estamos a falar de um universo de 45070 votos socialistas) 23,36% dos votantes açorianos (cujo universo para estas eleições se saldava em 192956 eleitores).

Mas não fiquemos por aqui. Se olharmos rapidamente para o resultado das últimas Eleições Legislativas para a Assembleia da República em 2005, facilmente constatamos que os supostos 45,03% dos votos no Partido Socialista (para esta análise basta olhar para o vencedor pois é esse que interessa) são na realidade os desejos de 28,94% dos eleitores nacionais (uma vez que o universo destes era de 8944508 eleitores, dos quais, 2588312 votaram no Partido Socialista).

Continuemos. Se olharmos para os resultados das últimas eleições para a Presidência da República, em 2006, das quais saiu vencedor Cavaco Silva, vemos que do universo de 9085339 eleitores, apenas 2773431 preferiram o candidato vencedor. Assim, ao contrário da percentagem vitoriosa de 50,54%, podemos dizer que o Presidente da República foi escolhido por 30,53% dos eleitores.

E, para terminar, seguindo a mesma metodologia, constatamos que no Referendo ao Aborto de 2007, e apesar de aqui sabermos que a abstenção atingiu recordes, o Sim ganhou com os votos de 25,34% dos eleitores nacionais.


Comentários:
a) ainda bem que estas contas não são feitas tendo em conta o número total da população, senão era ainda mais humilhante;

b) a “democracia portuguesa” (se é que se pode falar disso com estes números) está, podemos dizê-lo, em abstenção;

c) já se percebe porque é que os nossos campeões da democracia à gauche são tão veementemente contra o voto obrigatório (de resto, parece-me, a única maneira de assegurar a democracia como demos cracia, efectivamente!): se todos votassem até podia acontecer que a verdadeira maioria não os preferisse a eles e isso era trágico. Para eles, claro está!

d) a esta luz não se entendem tantas críticas ao sistema eleitoral da Segunda República: também esse, segundo os seus detractores, elegeu o Almirante Américo Tomaz em 1958 com 25% dos votos: para quem fez uma revolução e afins para mudar o sistema, estão demasiado parecidos para o meu gosto!

e) a democracia é, por definição e vocação, a ditadura da maioria. Ditadura essa renovada por actos eleitorais regulares, que sendo exercidos livremente, podem (e devem, muitas vezes) mudar os vencedores, nunca havendo lugar à efectiva tomada do poder por um grupo/facção/partido. Ou pelo menos é esta a teoria. Na prática “esclarecida” à portuguesa (de resto uma das “mais consolidadas, maduras, etc e etc” como ouvimos dizer diariamente) a democracia é o governo de todos por uma parte – sim -, mas não a parte maioritária: é o governo da maioria por uma minoria. Logo, em bom rigor, uma espécie de ditadura. Como? Muito simplesmente com filosofia e linguagem. Como? Também é simples: em vez da nossa democracia ser alicerçada no voto da maioria da população para isso habilitada (esse limite é intransponível pois todos vemos a idiotice de uma criança de um ano ser obrigada a votar, ou coisa parecida) a democracia em abstenção à portuguesa é alicerçada na voto da maioria dos que até se incomodam-e-não-vão-à-praia-ou-ao-shopping-ou-coçar-a-micose-ou-têm-um-primo-que-até-é-candidato o suficiente para se deslocarem à câmara de voto para decidir, tão só, o futuro colectivo do lugar onde fazem a vida…

f) estou perfeitamente consciente que assim acontece em grande parte das “democracias” por aí vigentes ,especialmente na Europa e na América onde a coisa é mais comum (as democracias africanas dos 90% de votos num partido fazem-nos suspirar pelos 30% do Professor Cavaco…). Mas também tenho consciência que em muitos lugares assim não é, e o voto é obrigatório, já que, mais do que um direito, é um dever: a “tirana” Suíça que tudo decide eleitoralmente ou o Brasil são casos em que a coisa acontece. E ao que parece as pessoas até gostam. Talvez seja porque, na realidade, contam. O que, convenhamos, não é de todo despiciendo…

g) para quem inventou e vive numa democracia tão fajuta (passe o brasileirismo) como esta (já para não falar da esquizofrenia latente do sistema semi-presidencialista, como gosto de lhe chamar: o Povo elege o parlamento com o seu voto; o parlamento - eleito pelo Povo, vamos devagar para se perceber - dá origem ao governo; e depois o Povo elege um tipo para controlar o parlamento e o governo que, portanto, ele próprio escolheu) já se calavam com as laudas à nossa democracia.

h) é certo que a democracia, por definição, e por influência derridiana, é sempre uma democracia por_vir, sempre a_vir. Só escusava era de ser assim abs_tença.