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terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Maquiavel e o cuco

Os vigaristas dos cucos, sim, existem

Eu sou um rapaz do campo. Na verdade, nasci numa cidade mas na altura certa. Quando Luanda tinha um parque natural que a fazia cair para a baía. Terra vermelha, íngreme, com rios de areia branca como a da praia, onde se podia rebolar sem ferir. Ter dez ou doze anos e ser dono desses terrenos (e eu era-o, mais os outros garotos de Luanda) é o que eu percebi mais tarde ser a felicidade. Com pés descalços ou com keds (o nome luandense para ténis), atacávamos (falo do fim dos anos 50) as Barrocas - era esse o nome da minha Terra do Nunca.

Havia muito bicho por lá, até cobras, mas nenhum com o prestígio do cuco.

Mais tarde li uma frase de quem não me lembro, comparando os cucos aos Papas, ou estes àqueles, por muito serem ouvidos e raramente vistos. Comparação mal feita porque nem eu nem rapaz da minha geração alguma vez vimos um cuco. Sim, ele tinha até nome científico,
Centropus superciliosus loandae, os meus colegas chegados há pouco do mato davam-lhe nome em quimbundo, mukuku-atumba, e tudo. Sim, pelos meses de chuva, de Outubro a Março, nas Barrocas era um festival de "popop...", em duas notas, acabado num grasnido "coick...", que nos fazia rir, aos rapazes, porque adivinhávamos manobras entre os cucos, machos e fêmeas. Mas nunca os víamos.

Em adultos. Já os pintos cucos encontrávamo-los nos ninhos das viuvinhas, celestes e rouxinóis dos caniços e outros parvos. O vigarista e ladrão do cuco punha lá os ovos - não sei como, porque ignoro, com olhos de ver, o cuco adulto. Mas os donos do ninho, os que tiveram o trabalho do ninho, passavam também incubar o ovo do cuco. Diziam-me miúdos mais sábios, os do mato, que o cuco, ao pôr o seu ovo no ninho do outro, atirava ao chão um dos ovos do legítimo dono, para que o vigarizado não suspeitasse contando os seus ovos. E julgo ter visto, quando já havia um pinto cuco, a mortandade que era, sob o ninho, de ovos partidos. O que nos fazia suspeitar que o bebé cuco também empurrava os falsos irmãos. As Barrocas eram uma universidade, preparando-nos para a vida.

Só que eu confundo muito o que vivi com o que acabei por inventar - qualquer psicólogo, com esta frase, há-de diagnosticar-me, e bem, uma infância feliz. Ouvi cucos? Vi mesmo as consequências da acção vigarista, ladra e assassina dos cucos?... Esta semana, li que a BBC2 apresentou em Inglaterra um programa narrado por Sir David Attenborough, que já me apresentou dinossauros. Agora, ele fala e mostra cucos. Parece que sim, eles existem. Há imagens de um pobre rouxinol, exausto, a alimentar o paquiderme de um bebé cuco que o dobra em tamanho, alapado no ninho roubado. Eu sei, é violento. Mas o documentário passou-me as mãos pelas penas da minha infância e enterneceu-me.

Ferreira Fernandes, DN

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Estória oriental

Uma orquídea nasceu onde havia uma velha fonte. Ao reparar que sobre si, uma bela magnólia se erguia, pensou: “que belas serão as suas flores, e quão agradável deve ser o seu cheiro nas noites temperadas de Primavera”. Passaram-se as estações e a árvore não floresceu.
Um dia um homem passou junto a elas e exclamou: “- Bela tília esta! Que agradável deve ser o seu chá!” A orquídea riu baixinho por o homem ser tão cego. Passaram-se as estações e a árvore não floresceu.
Um dia outro homem ali passou, e olhando-a exclamou: “- Que belo plátano este é! Que agradável será a sua sombra!” A orquídea riu baixinho da sandice deste homem. Passaram-se as estações. Um dia a árvore, por fim, floresceu.
Um homem ao passar exclamou: “-Que bela figueira esta é! E que lindos figos!” A orquídea riu baixinho e pensou: que loucura a dos homens que nunca vêem as flores onde elas estão.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Como uma vaca veio residir com os orelhudos

Um dia numa floresta um coelho matou um homem. Uma vaca observava esperando que o homem se levantasse. Um insecto rastejou na cara do homem. Uma vaca saltou uma sebe para ver mais de perto como um coelho arruma um homem. Um coelho ataca uma vaca pensando que a vaca veio ajudar o homem. O coelho domina a vaca e arrasta a vaca para a sua toca. Quando a vaca desperta a vaca pensa, eu queria estar no cimo da terra indo com o homem para o meu estábulo. Mas a vaca permanece com estes orelhudos para o resto da vida.

Russel Edson