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quinta-feira, 21 de maio de 2009

In Memoriam JBC

Em homenagem e in memoriam de João Bénard da Costa. Porque Portugal fica mais pobre. Porque o cinema em Portugal perde um dos seus grandes estudiosos e amadores. Porque a memória cinematográfica portuguesa muito lhe deve. Porque, para mim, a Cinemateca tinha um rosto. Porque cresci com ele. Porque (nos tempos em que ainda lia o Público) ensinou-me a gostar e a vibrar com o que via nas telas. Porque me ensinou a magia e o fascínio e o encanto - o cinema. Porque estou certo que o seu além será um cinema paradiso



Palmas, pois! Obrigado e a_deus!






sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

À sombra do embondeiro

Sou contra a pena de morte. Irredutivelmente. Fico orgulhoso por viver no país que pioneiramente (1867) aboliu a pena capital na Europa (facto largamente celebrado por Vítor Hugo, quando escreveu que “(…)Está pois a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande história. (...) Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa. Desfrutai de antemão essa imensa glória. A Europa imitará Portugal .(…)”… outros tempos!), não a aplicando de facto já muito antes, para as mulheres desde 1772 e para os homens desde 1846 (houve dois únicos exemplos prévios: San Marino (1852) e a Repubblica Romana (1849), ou seja, Estados totalmente alheios às potências europeias de então - e que, inclusive, no caso romano, não chegou a durar cinco meses). Portugal foi assim, a primeira potência europeia a abolir a pena de morte. E isso é um feito dos maiores que realizámos enquanto povo!

Mas confesso que ao ler coisas como estas,

O insulto de Mugabe ao povo do Zimbabué

Mugabe em dificuldade para pagar festa de anos

Mugabe: expropriações de brancos vão continuar


a minha caridade quase que encontra um limite! Fico fora de mim ao ver coisas destas, infelizmente comuns - embora não tão graves - na África pós-colonização europeia (o caso Angolano, com o país na mão de José Eduardo dos Santos & Companhia é outro exemplo, infelizmente, já clássico). Uma descolonização (seja isso o que for) em nome daqueles que, hoje, morrem às mãos dos seus libertadores, dos seus heróis, dos seus eleitos. Daqueles que por eles são explorados e vitimizados. Uma descolonização feita em nome da tão proclamada igualdade para acabar com o racismo e a discriminação... Pois!...

E é nestas horas que quase (quase quase quase) acho que ao Sr. Mugabe só um destino seria justo: o de Mussolini, mas reeditado na versão africana pendurado em embondeiro para as feras e os maus espíritos se divertirem. E nem sei se, em comparação, não foi Mussolini muito menos merecedor do fim do que este tiranete hediondo…

Não será pois de estranhar que, volvidos mais de 30 anos, as vozes que desconstroem o cliché “exploração colonialista europeia/colonização europeia em África” (nomeadamente no caso português que é o que nos diz respeito) se comecem a fazer ouvir e comecem a questionar a patranha hist(é)órica que lhes foi impingida!



© Imagem aqui

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Canto Décimo Primeiro

Anteontem primeiro domingo de Novembro
a névoa podia-se cortar à faca.
As árvores brancas
da geada e as estradas e planícies
pareciam cobertas por lençóis. Depois apareceu o sol
enxugando o universo e somente as sombras
permaneceram banhadas.


Pinela, o camponês, atava as cepas
com ervas secas que segurava entre as orelhas.
Enquanto trabalhava falei-lhe da cidade,
da minha vida que passara num relâmpago
do meu terror da morte.


Aí silenciou todos os rumores que fazia com as mãos
e só então se ouviu um pequeno pardal cantando ao longe.
Disse-me: medo porquê? A morte nem sequer é maçadora.
Apenas vem uma vez.

Tonino Guerra

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Como uma vaca veio residir com os orelhudos

Um dia numa floresta um coelho matou um homem. Uma vaca observava esperando que o homem se levantasse. Um insecto rastejou na cara do homem. Uma vaca saltou uma sebe para ver mais de perto como um coelho arruma um homem. Um coelho ataca uma vaca pensando que a vaca veio ajudar o homem. O coelho domina a vaca e arrasta a vaca para a sua toca. Quando a vaca desperta a vaca pensa, eu queria estar no cimo da terra indo com o homem para o meu estábulo. Mas a vaca permanece com estes orelhudos para o resto da vida.

Russel Edson

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Time has come today *

"Time waits for no man. Time heals all wounds. All any of us can wants, is more time. Time to stand up. Time to grow up. Time to let go." Meredith Grey Voice Over, “Time has come today”, Grey’s Anatomy



De um momento para o outro a vida muda para sempre. De um momento para o outro a nossa vida muda para sempre. Umas vezes é num mero instante; noutras demora anos a acontecer. Nunca podemos estar seguros de nada, nunca podemos estar seguros de continuar: a ser felizes, a ser infelizes, a chorar, a rir, a esperar, a sentir, a respirar… Muitas vezes nem podemos mesmo estar seguros de continuar. De continuar a continuar. Piscamos os olhos e zás: a vida tal como a conhecíamos muda, e o que é pior, o que mais nos angustia, muda sempre para sempre, sem volta a dar-lhe, sem volta à ré porque percebemos mal, porque nos enganámos, porque estávamos bem como estávamos, porque gostaríamos de não ter feito o que fizemos, porque nos arrependemos e queremos emendar a mão. Pôr as coisas certas. Refazer. Porque queremos dizer tudo o que não dissemos. Porque queremos calar tudo o que não calámos. Acima de tudo queremos que tudo fique no seu lugar. Ou pelo menos no lugar onde achamos que tudo deve ficar. Mas não. O tempo dá-nos um coice e lá vamos nós na espiral. Queremos parar e não podemos, somos empurrados para a frente e temos de continuar, mesmo quando tudo o que queríamos era parar, era sentarmo-nos numa pedra do caminho e ficarmos ali um pouco. A pensar. A digerir o choque. A chorar. A digerir o tempo e as suas ingerências na nossa vida. O tempo e os seus sustos, os seus sobressaltos. Mas não podemos. Queremos parar o mundo, suspender a rotação terrestre. Queremos dar-nos tempo. Queremos ter tempo para reagir, para pensar e não podemos. Temos de continuar. Com a cabeça ainda confusa da pancada, temos de continuar. A sangrar as entranhas, a esvairmo-nos de dor roxa, mas temos de continuar. É preciso dizem-nos. Il faut!





Mas às vezes recusamo-nos a seguir. Há alturas em que recusamos, mesmo, seguir. Paramos, fincamos os pés na terra e ali ficamos. Arrastamo-nos para debaixo da casa e esperamos. Apenas queremos um canto que nos agarre e que nos esconda. Apenas queremos enrolar-nos. Sem testemunhas. Sem abraços. Sem conforto. Sem consolo. Apenas um canto onde nos sintamos assépticos. Onde tudo seja branco e não nos force, não nos obrigue a desviar o pensamento do roxo. Um lugar onde possamos contemplar o vazio. Onde possamos quedar-nos. Onde possamos ficar. Só, ficar. Mais nada.





Quando alguém morre, quando alguém a quem amamos morre o que mais custa é o sempre. Ou se quisermos, o nunca. Mesmo que acreditemos numa outra coisa ou numa outra vida ou num outro mundo ou numa outra oportunidade, o que mais custa é o nunca mais. Para sempre, nunca mais. O nunca mais ser igual. O nunca mais ser assim. O nunca mais termos aquele olhar, aquela voz, aquele sorriso, aquelas mãos, aquele cheiro. É o nunca mais podermos partilhar. É estarmos avassaladoramente mais sozinhos. Mas solitários. Absolutamente sozinhos, como se todo o mundo desaparecesse num gigantesco buraco. Como se só a nossa voz ecoasse pelas planícies, subisse às montanhas, penetrasse os mais profundos mares. E não encontrasse resposta. E não houvesse mais ninguém. E só restássemos nós. Pior: apenas eu. Só eu. .





Deve ser a isso que chamam luto. Fazer o luto. É como se o tempo, se a vida, se a normalidade, todos tivessem um ritmo diferente do nosso. É como se estivéssemos em slow motion. O mundo todo acertado, o mundo todo a tempo, e nós atrasados, e nós mais devagar, nós a movermo-nos mais devagar, a comermos mais devagar, a falarmos mais devagar. Nós desfasados. Como se aquela morte, aquela falta no mundo tivesse provocado um desarranjo, tivesse provocado um qualquer bug que só a nós nos afecta. Talvez seja por isso que nessas alturas sentimos a pena. Vemo-la nos olhos dos que connosco se cruzam. Sentimos-lhe o cheiro. Sentimos-lhe o toque. E isso torna a dor ainda mais dor. Isso torna o desespero ainda mais fundo. Isso humilha-nos, magoa-nos, expõe-nos ainda mais. E força-nos a um recuo, obriga-nos a um maior fechamento. Daí que choremos alto. Para encher os espaços. Para preencher. Para colorir os espaços em branco. Para soprar uma bolha que nos defenda das facas. Que nos abrigue. Que nos esconda.





Porque nos sentimos pequenos. Porque nos sentimos meninos com medo do papão. Porque nos sentimos impotentes. Incapazes de salvar. Incapazes de resgatar. De sermos heróis. De sermos tudo o que prometemos. De sermos um milagre. Sentimo-nos feridos, caídos do ninho, incapazes de regressar. Ao lugar. Ao nosso lugar. Ao lugar onde tudo antes fazia sentido e agora já não faz. E é isso que é preciso. É fazer sentido. É preciso fazer sentido. É preciso que compreendamos o que se passa. E para isso nem é preciso morrer alguém! Muitas são as formas pelas quais podemos ficar estragados! (Gosto desta expressão, ficar estragado. Aprendi-a há pouco tempo, mas entrou logo para o coração. Porque é certeira. Porque diz mais do que parece. Porque só “fica estragado” o que “passa do tempo”, o “que está fora do tempo”, o que é “atropelado pelo tempo”. Porque só fica estragado o que “era a tempo”, o que “estava a tempo”. E isso é bom. Isso consola. Isso ajuda a crescer.)



Até que um dia estamos prontos. Até que um dia podemos recomeçar, podemos apanhar de novo o comboio, podemos seguir ao ritmo normal. Um dia a rotação da terra deixa de provocar tonturas. E seguimos. Estragados, mas seguimos. Aprendendo a viver sem um bocado. Arranjando maneira de continuar. Estragados, mas vivos. Reconciliados com o tempo. Com uma nova cicatriz, mas vivos, Reconciliados connosco. Seguimos. Levantamo-nos do chão, sacudimos a poeira, passamos a mão pelo cabelo. Acariciamos a cicatriz, medimos-lhe o tamanho, apreciamos-lhe o tom. Sorrimos. Estamos prontos. Estamos, de novo, prontos. Como novos. Como novos.



* Grey’s Anatomy é, seguramente, uma das melhores séries de sempre. Uma autêntica obra de arte. Mais do que a “típica série sobre médicos e hospitais”, é uma série sobre a vida e os seus soluços. Sobre a diversidade dos dias. Sobre as cicatrizes que vamos acumulando. Tem, para mim, uma imagem de marca: o magnífico guião. É, com toda a certeza, uma das séries mais bem escritas que já vi. Tem diálogos que deveriam passar a constar nas selectas literárias. E alia isso a uma história equilibrada e rica, interpretações de suster a respiração, um décor sóbrio e directo, uma banda sonora eficaz e muito interessante. Mas os diálogos… ui! São de tirar o fôlego. Este episódio que aqui deixo é disso um exemplo. Desde que o vi que não me consigo separar dele. Tudo nele é necessário, nada é excesso, nada está a mais. Perfeito. Absolutamente perfeito. Absolutamente triste, também. Mas daquela tristeza feliz, aquela tristeza bonita da qual já aqui falei. Uma tristeza catártica. Como uma crise de choro (e se há coisa que esta série me provoca são crises de choro e soluços a esganar-me a garganta e gargalhadas e sorrisos estampados na cara) que alivia. Perfeita.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Em estado de diplópode espiralado

A minha periquita morreu esta manhã. Caiu do poleiro e a vida esvaiu-se do seu pequeno corpo amarelo em pouco tempo. Partiu de manhã, na manhã do aniversário (não haverá palavra mais adequada, mais certeira, menos festiva, menos alegre, para dizer os aniversários das mortes, das mortes da vida?) da morte da minha Tia - a sua "dona" favorita. Partiu de manhã, como todos os que amamos, gente ou bicho, parte sempre de manhã, de manhãzinha, sempre cedo demais, sempre antes da hora, sempre apressado. Partiu numa manhã de sol, uma manhã igual a outra de há dois anos. Nessa, o ar esvaziou-me o peito e, não fosse a janela estar perto, certamente também eu teria ido com a manhã. De manhã. Demasiado de manhã. Nesta, o choro irrompeu-me como quando era pequeno e esfolava os joelhos. E é pequeno que me sinto, pequeno de mais, demasiado matutino, demasiado ferido, demasiado exposto, demasiado pequeno. Sinto-me como um diplópode espiralado, enrolado à minha volta, defensivo e exposto, para parecer grande, para parecer temporão. Como um ouriço-cacheiro (hérisson, Igel, istriche) que, pressentindo o perigo, se enrola sobre si mesmo. Protege-se, submetendo-se ao perigo, expondo-se ao perigo, sem sequer o ver chegar. Sempre cedo, numa manhãzinha, sempre demasiado cedo.

E, sim, acaba sempre por chegar, e sempre antes da hora, e não podemos (nunca, nunca, nunca) impedi-lo. Sei-o e soube-o de madrugada, demasiado de madrugada. Por mais que tentemos (tentemos, tentemos, tentemos), por mais que procuremos escudar-nos, levantar os espinhos, enrolar-nos sobre nós e esperar que passe ao lado, chega sempre. Sempre. Demasiadamente sempre.

Hoje veio e estou triste. Por isso me enrolo. Para levar calor ao coração, porque a manhã foi fria. Para aquecer o coração, porque a tarde tarda. Para tatuar um abraço à minha volta.

Hoje veio e levou a Patchoca. E estou triste. Pronto.

2


tanto por dizer quando os dias parados
dos passos perderam o canto

tanto por dizer quando nada pode
ser enxerto já


El crecimiento de la hierba - Joaquin Taboada

terça-feira, 23 de setembro de 2008

noite transfigurada

O teu anjo passou pelo meu sonho
e inundou de lágrimas
a minha madrugada insone.
Partiste às mãos da manhã,
a mesma que
nem todo o amor
do mundo poderia tornar
suficientemente bela para ti
,
a mesma que os demónios cortejam
transfigurando a noite
no combate que me cresce
como em ti agora
a eternidade.

sarah adamopoulos
lisboa setembro 2008


Tropecei neste poema enquanto viajava em zapping por vários blogues. Prendeu-me a atenção. Deixei-o e parti. Andou-me cá dentro toda a noite e todo o dia. Chamava-me de mansinho, e pouco a pouco descobriu o caminho "da cabeça para o coração, do coração para a cabeça". Gosto dele. Voltei a ele. Porque, às vezes, as coisas mais bonitas são também as mais tristes. As mais misteriosas. As que se encondem na dobra da vida. E da morte. A beleza das coisas tristes de que tenho falado tanto ultimamente. Para me fazer sorrir. Para me fazer serenar. Como uma manhã "que nem todo o amor do mundo poderia tornar suficientemente bela para ti"...