quarta-feira, 8 de julho de 2009
terça-feira, 7 de julho de 2009
Cosmia
saw them shake like wind on rushes
in the corn field when she called me
moths surround me - thought they'd drown me
and I miss your precious heart...
dried rose petal, red-brown circles
framed your eyes and stained your knuckles
and all those lonely nights down by the river
brought me bread and water (water, in)
but though I tried so hard, my little darling
I couldn't keep the night from coming in
and all those lonely nights down by the river
I was brought my bread and water by the kith and the kin
now in the quiet hour when I am sleepin'
I cannot keep the night from comin' in
why've you gone away, gone away again?
I'll sleep through the rest of my days
if you've gone away again
sleep through the rest of my days...
why've you gone away, away?
seven suns, seven suns
away, away, away, away
can you hear me? will you listen?
don't come near me, don't go missing
in the lissome light of evening
help me, Cosmia, I'm grieving
beneath the porch light, we've all been circling
beat our dust hearts, singe our flour wings
but in the corner, something is happening!
wild Cosmia, what have you seen?
water were your limbs, and the fire was your hair
and then the moonlight caught your eye
and you rose through the air
well, if you've seen true light, then this is my prayer:
will you call me when you get there?
and I miss your precious heart
and miss, and miss, and miss
and miss, and miss, and miss
and miss, and miss your heart
but release your precious heart
to its feast, for precious hearts
Joanna Newsom
terça-feira, 31 de março de 2009
Le temps des cerises et des roses
Le temps des cerises et des roses
Le temps des caresses soyeuses
Laissons du temps à la douceur des choses
Et si ça te tente
Prenons le temps de faire silence
D'emmêler nos souffles et nos langues
Prenons du temps pour les choses d'importance
Et laissons nous renverser emporter caresser
par le temps perdu
Restons tranquilles immobiles sans un bruissement d'ailes,
sans un battement de cils
Et contre l'implacable
Contre le vacarme du diable
Trouvons du temps pour l'impossible
Pour l'inespéré pour l'imprévisible
Et contre l'éphémère
Contre la cruauté première
Contre le marbre de nos tombes
Prenons tout notre temps à chaque seconde
Et laissons nous renverser emporter caresser
Nos vies s'allongent et soudain les voilà dans nos mains
Toutes vives toutes chaudes toutes nues
Je te propose
De retrouver le temps des roses
Le temps des caresses soyeuses
Laissons du temps à la douceur des choses
Oui je te propose
De retrouver le temps des roses
Le temps des caresses soyeuses
Prenons du temps pour la douceur des choses.
Le temps perdu - Carla Bruni
terça-feira, 17 de março de 2009
Último Soneto
Que rosas fugitivas foste ali!Requeriam-te os tapetes - e vieste ...
- Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.
Em que seda de afagos me envolvi
Quando entraste, nas tardes que apareceste!
Como fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar, que mordi...
Pensei que fosse o meu o teu cansaço -
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava...
E fugiste...Que importa? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste,
Onde a minha saudade a Cor se trava? ...
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Arestas
Por vezes pico-me nos teus espinhos. E magoo-me. Magoo-me contigo, com as tuas faltas e com os teus excessos. Com os teus silêncios e com a tua beleza.Mas antes mesmo de me picar já te sarei. Já te perdoei. Já te sorri.
Pico-me e acaricio as arestas até que já não me incomode. Depois continuo a aprender-te. Os teus limites, as suas formas, as suas profundidades, os seus gumes. E sigo eternamente. E a transportar-te. E_ternamente.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Prefiro rosas, meu amor, à pátria
«Balanço patriótico: Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúsio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, bêsta de nora, agùentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalépsia ambulante, não se lembrando nem donde vem,nem onde está, nem para onde vai; um povo, emfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional,--reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta;
Um clero _português_, desmoralizado e materialista, liberal e ateu, cujo vaticano é o ministério do reino, e cujos bispos e abades não são mais que a tradução em eclesiástico do fura-vidas que governa o distrito ou do fura-urnas que administra o concelho[1]; e, ao pé dêste clero indígena, um clero jesuítico, estrangeiro ou estrangeirado, exército de sombras, minando, enredando, absorvendo,--pelo púlpito, pela escola, pela oficina, pelo asilo, pelo convento e pelo confissionário,--fôrça superior, cosmopolita, invencível, adaptando-se com elasticidade inteligente a todos os meios e condições, desde a aldeola ínfima, onde berra pela bôca epiléptica do fradalhão milagreiro, até à rica sociedade _elegante_ da capital, onde o jesuìtismo é um dandismo de sacristia, um beatério chic, Virgem do tom, Jesus de high-life, prédicas untuosas (monólogos ao divino por Coquelins de fralda) e em certos dias, na igreja da moda, a bonita missa encantadora,--luz discreta, flores de luxo, paramentos raros, cadeiras cómodas, latim primoroso, e hóstia _glacée_, com pistache, da melhor confeitaria de Paris;
Uma burguesia, cívica e políticamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provêm que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro;
Um exército que importa em 6.000 contos, não valendo 60 réis, como elemento de defesa e garantia autonómica;
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; êste criado de quarto do moderador; e êste, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do país, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre,--como da roda duma lotaria;
A Justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara a ponto de fazer dela um saca-rôlhas;
Dois partidos monárquicos, sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, na hora do desastre, de sacrificar à monarquia ou meia libra ou uma gota de sangue, vivendo ambos do mesmo utilitarismo scéptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguêm deu no parlamento,--de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar;
Um partido republicano, quási circunscrito a Lisboa, avolumando ou diminuindo segundo os erros da monarquia, hoje aparentemente forte e numeroso, àmanhã exaurido e letárgico,--água de poça inerte, transbordando se há chuva, tumultuando se há vento, furiosa um instante, imóvel em seguida, e evaporada logo, em lhe batendo dois dias a fio o sol ardente; um partido composto sobretudo de pequenos burgueses da capital, adstritos ao sedentarismo crónico do metro e da balança, gente de balcão, não de barricada, com um estado maior pacífico e desconexo de vélhos doutrinários, moços positivistas, românticos, jacobinos e declamadores, homens de boa-fé, alguns de valia mas nenhum _a valer_; um partido, emfim, de índole estreita, acanhadamente político-eleitoral, mais negativo que afirmativo, mais de demolição que de reconstrução, faltando-lhe um chefe de autoridade abrupta, uma dessas cabeças firmes e superiores, olhos para alumiar e bôca para mandar,--um dêsses homens predestinados, que são em crises históricas o ponto de intercepção de milhões de almas e vontades, acumuladores eléctricos da vitalidade duma raça, cérebros omnímodos, compreendendo tudo, adivinhando tudo,--livro de cifras, livro de arte, livro de história, simultaneamente humanos e patriotas, do globo e da rua, do tempo e do minuto, fôrças supremas, fôrças invencíveis, que levam um povo de abalada, como quem leva ao colo uma criança;
Instrução miserável, marinha mercante nula, indústria infantil, agricultura rudimentar;
Um regime económico baseado na inscrição e no Brasil, perda de gente e perda de capital, autofagia colectiva, organismo vivendo e morrendo do parasitismo de si próprio;
Liberdade absoluta, neutralizada por uma desigualdade revoltante,--o direito garantido virtualmente na lei, posto, de facto, à mercê dum compadrio de batoteiros, sendo vedado, ainda aos mais orgulhosos e mais fortes, abrir caminho nesta porcaria, sem recorrer à influência tirânica e degradante de qualquer dos bandos partidários;
Uma literatura iconoclasta,--meia dúzia de homens que, no verso e no romance, no panfleto e na história, haviam desmoronado a cambaleante scenografia azul e branca da burguesia de 52, opondo uma arte de sarcasmo, viril e humana, à frandulagem pelintra da literatura oficial, carimbada para a imortalidade do esquecimento com a cruz indelével da ordem mendicante de S. Tiago;
Uma geração nova das escolas, entusiasta, irreverente, revolucionária, destinada, porêm, como as anteriores, viva maré dum instante, a refluir anódina e apática ao charco das conveniências e dos interesses, dela restando apenas, isolados, meia dúzia de homens inflexos e direitos, indenes à podridão contagiosa pela vacina orgânica dum carácter moral excepcionalissíssimo;
E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares,--_tão bons são uns como os outros, corja de pantomineiros, cambada de ladrões, tudo uma choldra, etc. etc._,--teremos em sintético esbôço a fisionomia da nacionalidade portuguesa no tempo da morte de D. Luís, cujo reinado de paz podre vem dia a dia supurando em gangrenamentos terciários.»
Guerra Junqueiro
Assim escrevia Guerra Junqueiro em A Pátria (1896) acerca do estado da nação ao tempo do Ultimatum. Lendo isto surpreendo-me com a estranha e inquietante actualidade da descrição (salvo as idiossincrasias do tempo), surpreendo-me com a estranha e inquietante estagnação, surpreendo-me com o estranho e inquietante diagnóstico. Mais a mais quando, olhando retrospectivamente, esses anos do início do reinado de El-Rei Dom Carlos I me parecem infinitamente mais excitantes, infinitamente superiores aos tempos em que vivemos. Quanto mais não seja porque a qualidade das elites – em comparação – era infinitamente superior. E isso entristece, isso amesquinha, isso inquieta. Ler este texto é perceber que volvidos mais de 100 anos os vícios são os mesmos, os pontos fracos permanecem, as podridões grassam nos mesmos lugares. Nada parece ter mudado! Tirando a evolução material decorrente da evolução conjuntural do mundo. Tirando isso mais nada!
E quase tudo me separa deste homem! Não só o tempo, que isso é só calendário. Mas as opiniões, as influências, as posições: foi este um dos grandes panfletários do republicanismo português, movimento que, se compreendo nas suas bases ideológicas e sociais, pouco prezo por ser contrário a tudo o que acredito e por o considerar directamente responsável por mais um passo no caminho lodoso da decadência. Foi também este homem que foi (malgré
tout o que escreveu sobre o Partido Republicano Português) "Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário da República Portuguesa junto da Confederação Helvética", que é como quem diz, embaixador da 1ª República, esse regime tão belo e tão justo que tanta saudade deixou no coração dos portugueses… (tanta, tanta, que se atiraram para os braços do Professor Doutor Salazar como frágeis donzelas em apuros…) Dedicou este homem a sua vida a apontar as falhas da nação à Coroa, quando eu acho precisamente o contrário: foi essa mesma Coroa que salvou a Nação, durante século e séculos, de se confrontar com a sua mediocridade.
Mas encontramo-nos aqui, nesta morada, neste chão, nesta khôra onde a pátria se esvai, onde a pátria se esquece. Onde a pátria se chora. Encontramo-nos pois no patriotismo, na sua amargura, na sua orfandade (bem, e também nos encontraremos sempre na defesa da bandeira azul e branca como a vera bandeira portuguesa!). No céptico pessimismo que me inspira. Ou pelo menos na indiferença que tudo isto me ameaça provocar. Vem-me à memória o amargo recitar de uns versos que cito abundantemente, de um poeta que tenho aprendido a gostar lentamente, mas que, aqui e agora me apetece ouvir e dizer silenciosamente:
Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
Se cada ano com a primavera
As folhas aparecem
E com o outono cessam?
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.
Ricardo Reis
