Era um tempo de requinte aristocrático. Um tempo do sonho. Um tempo a correr por entre os dedos... Em homenagem a esse tempo. Em homenagem a um dos grandes realizadores cinematográficos que a Europa (e o mundo) conheceu - Luchino Visconti. Em homenagem ao meu realizador italiano favorito. Em homenagem ao tempo do leopardo...
sábado, 27 de junho de 2009
Cinema paradiso
Era um tempo de requinte aristocrático. Um tempo do sonho. Um tempo a correr por entre os dedos... Em homenagem a esse tempo. Em homenagem a um dos grandes realizadores cinematográficos que a Europa (e o mundo) conheceu - Luchino Visconti. Em homenagem ao meu realizador italiano favorito. Em homenagem ao tempo do leopardo...
terça-feira, 31 de março de 2009
Le temps des cerises et des roses
Le temps des cerises et des roses
Le temps des caresses soyeuses
Laissons du temps à la douceur des choses
Et si ça te tente
Prenons le temps de faire silence
D'emmêler nos souffles et nos langues
Prenons du temps pour les choses d'importance
Et laissons nous renverser emporter caresser
par le temps perdu
Restons tranquilles immobiles sans un bruissement d'ailes,
sans un battement de cils
Et contre l'implacable
Contre le vacarme du diable
Trouvons du temps pour l'impossible
Pour l'inespéré pour l'imprévisible
Et contre l'éphémère
Contre la cruauté première
Contre le marbre de nos tombes
Prenons tout notre temps à chaque seconde
Et laissons nous renverser emporter caresser
Nos vies s'allongent et soudain les voilà dans nos mains
Toutes vives toutes chaudes toutes nues
Je te propose
De retrouver le temps des roses
Le temps des caresses soyeuses
Laissons du temps à la douceur des choses
Oui je te propose
De retrouver le temps des roses
Le temps des caresses soyeuses
Prenons du temps pour la douceur des choses.
Le temps perdu - Carla Bruni
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Um dia uma vida
e não escutes os pássaros nem mesmo o mar
não oiças nem sequer o vento se soprar
ouve o tempo passar escuta a sua voz
pois o tempo tem voz o tempo fala
Está atento abertos os ouvidos ouve
a vida é uma vasta música suave
É esta praia esta dúzia de casas
curiosas do mar que as lambe lá em baixo
a verdadeira capital da noite
Nos limites marítimos do burgo
de casas calmas sobre as pálpebras da morte
dormindo à luz da lua sobre as ondas
que trocam mais abaixo espuma com as rochas
nos extremos atlânticos de aquesta povoação precária
o homem abafado pelo alvo algodão do sono
transforma-se num peixe e devora esse peixe
sem pressentir sequer que a si mesmo se devora
Outras vezes o homem sempre vítima do sono
afaga na almofada um vulto imaginado
e dá-lhe mesmo um nome sem saber
que nomear as coisas é criá-las
Entretanto a sereia sulca o nevoeiro
nas masmorras erguidas na orla do sonho
depois de o náufrago nadar nu nos lençóis do leito
sob a noite cerrada sobre a cru cruel
concórdia do convénio conjugal
E há sonhos e segredos vislumbrados véus
nos que dormem nas casas onde o mar mergulha
vêm flocos de neve à tona da memória
e doses simples ou dobradas meias doses
de uma lua embalada em lenta trajectória
sulcam o céu de telha ou de betão das construções
Inexploradas conchas sobressaltam os caminhos
calcados por aqueles que o mar chama
e favas e feijões inaugurais rompem a terra
sensível à semente que a fecunda
cavada num convívio de indistintos mortos
que em sua noite metafórica articulam só
a imutável voz possível às inscrições pétreas
Mas já o coro das primeiras aves ergue um cântico
na vasta catedral do céu ainda indeciso
quando a alva alveja os sonhos dos vizinhos
embora ainda os embale o naufrágio do sono
A povoação ondula como um lago
levemente mexido pela névoa que inaugura
o espaço disponível para o dia
Ao sol horizontal saem de casa os habitantes
que após o sol não são os mesmos de antes
O tempo passa ouve o tempo passa
faz um breve ruído e passa irrefragável incontido
Já o primeiro sol surge e retira
a sonolenta capa que cobrira cada face
e as gaivotas filhas da manhã
trazem no bico a fímbria da recente luz
E começam as colunas de neblina a irromper
das chaminés de renda das recém-despertas casas
As árvores são verdes é sólido o mar
o tempo passa há raparigas novas
sinto-me em paz as coisas estão no seu lugar
Uma criança chora a terra rola há roupa suja
eu morro bem o sei mas o mundo melhora
Para quê destruir um por um os relógios
se não existe rosto onde não poise pés o tempo
que é feito de passar como de água o mar?
Sabe-me bem sentar sentir-me vivo
sem ter que sujeitar-me à morte mísera do sono
Leio o futuro nas folhas de chá
e vou verificar se o mar ainda lá está
no extremo ocidental do forte onde as gaivotas
procuram povoar ou abolir a solidão
O sol senhor despótico domina
o vasto principado que ilumina
O tempo continua a emitir a sua voz
Pudesse eu eleger por mim a companhia
decerto levaria apenas árvores ao lado
Um deus somente podia afogar
a cabeça no mar da minha vida
Começo a caminhar na madrugada
entre sardinhas e mulheres saltitantes
e ao chegar ao mar penso pregar
o meu sermão de algas e sargaços sobre a esperança humana
sob o canto dos pássaros e a língua dos vizinhos
Neste jardim só cresce a roupa seca pelo sol
as coisas são ou não não são verdade ou não
o povoado cheira a comida e maresia
e através da vida desafia o mundo o nada
Que hei-de fazer se sou a gata borralheira?
- canta a convulsa rapariga oculta nos arbustos
E em vão voga na expectativa de quem nunca vem
mordiscar-lhe a papoila mole dos lábios
com a sofreguidão da truta ao absorver o anzol
Um forasteiro só certa vez a beijou ao vê-la distraída
mas por mais que esperasse nunca mais voltou
a dar-lhe um beijo só em toda a vida
E o hálito leve de insolentes raparigas
embacia os espelhos da manhã
E quando até mim chegas deus chegou
mulher inesperada meio mulher e meio madrugada
recortada no céu de um homem que desesperou
tantas vezes voltou de mãos cheias de nada
Eu quero para mim parcelas de manhã
delas farei um tempo para mim
um tempo de porvir que se detenha
tempo que se renegue e seja tempo
e que ao negar-se afirme a sua condição
As coisas em redor prodigalizam cor
coisas que se concentram que têm sabor
E vejo como orvalho o teu olhar tombar
primeiro quase sólido e depois vapor
evaporar-se e dissipar-se como halo ou hálito
Teu corpo acolhedor calma baía
recorta-se na luz agora a esta hora
e alegra mesmo até a alegria
Pressinto que vieste e finalmente veio alguém
que verdadeiramente vem sem bem se saber quem
Pões os pés na manhã e tudo são caminhos
a orla do vestido roça no rocio depois do
baile breve na praia iluminada pela lua
muito mais tua do que do planeta
onde vivemos pois à tua volta
é que descreve a lua a sua órbita perfeita
A noiva tem no seu vestido branco óptima mortalha
e tem escovas de dentes iminente vida conjugal
dias de sol inúteis como logo este jornal
por trás do rosto imóvel que prospecta ao espelho
uma última vez antes de ir à casa sobrepor a igreja
O tempo não parou ó noiva é esse o mal
se hoje és imortal oxalá amanhã
leve a terra te seja
em sonhos sempre alguma borboleta sobre ti
desceu e escureceu a própria escuridão
sobre essa silhueta de senhora do olhar
sozinha em vida e pelo ar apenas rodeada
cercada só de terra e na morte isolada
Saíste com a aurora vertical recebeste o meio-dia
escondeste-te na luz perdeste-te na estrada
e não deixaste nada além da tua ausência
As vozes são às vezes vítimas do vento
à criança que foi substitui-se o adulto
cada rosto destrói as sucessivas formas desse rosto
um rosto é um momento
Um homem pisa pedra a pedra uma calçada
e ao pisar a primeira está a última pisada
A gente vai pela rua vai e vem
mas pela vida vai-se e nunca vem ninguém
O som do órgão ultrapassa os azulejos
a mole da igreja e inaugura a primavera
Não oiço a voz do mar oiço o tempo passar
É primavera mesmo sobre a minha idade
sobre os anos que põem pés pesados no meu peito
(eu agora nem mesmo me revejo já
nessas fotografias nessas outras tantas mortes)
A música solar murmura em meus ouvidos
o mar dorme um profundo sono azul
um grupo palrador de pombas arredonda o adro
e ao ver uma gaivota cospe um pescador
para na pesca o não abandonar a sorte
Grandes nuvens me nevam na cabeça
o dia alastra como um canto líquido
e com um mata-moscas procuro matar
o sol em cada raio que devassa os vidros da janela
A luz valsa e verseja em cada pedra
rebenta em ondas na margem do dia
parado como um mar a ventos não sujeito
A terra é musical no meu país
cantava tanto a brisa nas espigas
nas débeis raparigas nas umbrosas oliveiras
quando ao princípio éramos os campos e eu
E nem essa magnífica mulher
de um olhar que apenas por brilhar já transfigura o ar
que nas mãos manipula embrulhos e palavras
consegue afugentar a primavera
que entre dois ladrilhos do comprido corredor
culmina e se concentra numa flor naquela casa
(qual será o futuro dessa flor
que os campos renegou e mal nasceu domesticou
a explosão natural do reino vegetal?)
Boceja a tarde soalheira e sossegada nos
plátanos calmos como o espaço dos domingos
e o mar encosta preguiçoso a fronte
no regaço que a terra intimamente tem
na cúpula do corpo da nutrida primavera
nos confins da aldeia cheia de um odor de amor e mar
Vejo a fazenda a vida ameaçadas por
espumas e brisas de uma cor de esmeralda
e o louvor dos pássaros crepita
no fogo fluvial do mês de agosto
Ó natureza nua mãe do mundo
eu sacrifico apenas ao deus bach esse deus que
numa abóbada de música domina
A solidão rumina neste cabo
onde a névoa se adensa e principia a evocar
a geada caída no primeiro jardim
do homem donde ergueu o voo
a gaivota que agora um arenque devora
E entretanto a tarde não tem mãos a medir
e enquanto não cair os homens e os campos
sujeitam-lhe uns a vida outros a superfície
aceitam-na como uma solução
O sol que nasce põe-se nos teus olhos
e mal os fechas logo a noite desce sobre
um rosto que resume rápidas mulheres
Quando passas eu passo a conhecer de cor inúmeros países
há morangos vermelhos nos teus seios
e arremessam-te olhos curiosas árvores e ávidas janelas
que te deixam na rua puramente nua
enquanto o som do sino soa no teu peito
e o sol se dissolve em teu vestido
Pensam martirizar as tuas ancas
amaldiçoar maldizer o teu nome
e assassinar-te com olhares elaborados
no silencioso e chão laboratório
onde calculam complicadas cúmplices maquinações
tenebrosos embaixadores do país das trevas
O sol suave como um pensamento
despenha-se nas águas entre nuvens
e à minha volta fecha-se esse férreo
abraço conjugal que a sociedade
usa para devassar a intimidade
Mas se eu escancarar de par em par
as portentosas portas de acesso à minha vida
hão-de inundá-la ao mesmo tempo sol e mar
únicos portos para os meus navios
Afoga-se o crepúsculo na noite
como nele se afogara já o dia
e eu velo não venha a morte ver
se pálpebras pesadas me não velam
o olhar minha única defesa
Há magos que de flores fazem raparigas
que devagar se enfeitam para a festa
do fero e feroz fim da luz diária
Os mortos surgem nos seus fatos domingueiros
lágrimas luzem lá onde ontem uns olhos olharam
As ruas são de noite como que canais
por onde só circula a sonolenta escuridão
Saio de casa ou sóbrio como um domingo
ou exuberante e excessivo como um sábado
Vindo da agricultura e da cultura por
folhas de terra e páginas de livros
ordenho umas palavras leves e leitosas
e com elas procuro apreender deter o tempo
obrigá-lo a parar e impedi-lo de passar
Mas oiço-o falar é sua esta voz
Cobre-me o corpo a escuridão e cai sobre ele a chuva
e as nuvens indecisas contra as quais se apoiam
os arcos e abóbadas da noite
solidamente assente em dunas ou colunas
da mais universal obscuridade
comunicam-me a mágoa deste tempo português
e chego a pôr em causa a minha nacionalidade
Há uma luz lunar que ilumina o mar
o asparge pela areia pela maré cheia
o poema de espuma que lhe cabe recitar
e me fala das cinzas a que se reduz
o céu breve e restrito de uma noite
abençoada noite de mulheres
que quando dormem mais estão despertas
e são reais louças e temporãs
Faço uma coisa ou outra e depois disso
é ao túmulo só o sítio aonde tenho de ir
Preciso de dormir e só na pedra tumular
eu poderei poisar de verdade a cabeça
Ingresso para sempre no mais puro escuro
Fui um inveterado tripulante da memória
oiço os passos do tempo sei a minha idade
e deito-me com toda a dignidade
É inútil bater amigos inimigos a esta loisa
onde eu repouso como simples coisa
E o tempo poisa deixa finalmente de passar
Ruy Belo
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Dis, quand reviendras-tu?
Voilà combien de temps que tu es reparti,
Tu m'as dit cette fois, c'est le dernier voyage,
Pour nos cœurs déchirés, c'est le dernier naufrage,
Au printemps, tu verras, je serai de retour,
Le printemps, c'est joli pour se parler d'amour,
Nous irons voir ensemble les jardins refleuris,
Et déambulerons dans les rues de Paris,
Dis, quand reviendras-tu,
Dis, au moins le sais-tu,
Que tout le temps qui passe,
Ne se rattrape guère,
Que tout le temps perdu,
Ne se rattrape plus,
Le printemps s'est enfui depuis longtemps déjà,
Craquent les feuilles mortes, brûlent les feux de bois,
A voir Paris si beau dans cette fin d'automne,
Soudain je m'alanguis, je rêve, je frissonne,
Je tangue, je chavire, et comme la rengaine,
Je vais, je viens, je vire, je me tourne, je me traîne,
Ton image me hante, je te parle tout bas,
Et j'ai le mal d'amour, et j'ai le mal de toi,
Dis, quand reviendras-tu,
Dis, au moins le sais-tu,
Que tout le temps qui passe,
Ne se rattrape guère,
Que tout le temps perdu,
Ne se rattrape plus,
J'ai beau t'aimer encore, j'ai beau t'aimer toujours,
J'ai beau n'aimer que toi, j'ai beau t'aimer d'amour,
Si tu ne comprends pas qu'il te faut revenir,
Je ferai de nous deux mes plus beaux souvenirs,
Je reprendrai la route, le monde m'émerveille,
J'irai me réchauffer à un autre soleil,
Je ne suis pas de celles qui meurent de chagrin,
Je n'ai pas la vertu des femmes de marins,
Dis, quand reviendras-tu,
Dis, au moins le sais-tu,
Que tout le temps qui passe,
Ne se rattrape guère,
Que tout le temps perdu,
Ne se rattrape plus...
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Resistências
A propósito do novo filme que por aí estreou sobre a Amália Rodrigues, hoje li no meu DN uma pequena entrevista com uma amiga dela, Estrela Carvas. A dado passo diz ela sobre as relações amorosas da Diva: " [Ricardo Espírito Santo] A Amália tinha uma simpatia e uma amizade enorme por ele. (…) Mas nada mais do que isso. (…) A grande paixão da vida dela foi o [Eduardo] Ricciardi. E, segundo o meu conceito, o grande amor da vida dela foi o César [Seabra]. Um grande amor é aquele que resiste ao tempo. (…)" [sublinhado meu].No Comments.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Time has come today *
De um momento para o outro a vida muda para sempre. De um momento para o outro a nossa vida muda para sempre. Umas vezes é num mero instante; noutras demora anos a acontecer. Nunca podemos estar seguros de nada, nunca podemos estar seguros de continuar: a ser felizes, a ser infelizes, a chorar, a rir, a esperar, a sentir, a respirar… Muitas vezes nem podemos mesmo estar seguros de continuar. De continuar a continuar. Piscamos os olhos e zás: a vida tal como a conhecíamos muda, e o que é pior, o que mais nos angustia, muda sempre para sempre, sem volta a dar-lhe, sem volta à ré porque percebemos mal, porque nos enganámos, porque estávamos bem como estávamos, porque gostaríamos de não ter feito o que fizemos, porque nos arrependemos e queremos emendar a mão. Pôr as coisas certas. Refazer. Porque queremos dizer tudo o que não dissemos. Porque queremos calar tudo o que não calámos. Acima de tudo queremos que tudo fique no seu lugar. Ou pelo menos no lugar onde achamos que tudo deve ficar. Mas não. O tempo dá-nos um coice e lá vamos nós na espiral. Queremos parar e não podemos, somos empurrados para a frente e temos de continuar, mesmo quando tudo o que queríamos era parar, era sentarmo-nos numa pedra do caminho e ficarmos ali um pouco. A pensar. A digerir o choque. A chorar. A digerir o tempo e as suas ingerências na nossa vida. O tempo e os seus sustos, os seus sobressaltos. Mas não podemos. Queremos parar o mundo, suspender a rotação terrestre. Queremos dar-nos tempo. Queremos ter tempo para reagir, para pensar e não podemos. Temos de continuar. Com a cabeça ainda confusa da pancada, temos de continuar. A sangrar as entranhas, a esvairmo-nos de dor roxa, mas temos de continuar. É preciso dizem-nos. Il faut!
Mas às vezes recusamo-nos a seguir. Há alturas em que recusamos, mesmo, seguir. Paramos, fincamos os pés na terra e ali ficamos. Arrastamo-nos para debaixo da casa e esperamos. Apenas queremos um canto que nos agarre e que nos esconda. Apenas queremos enrolar-nos. Sem testemunhas. Sem abraços. Sem conforto. Sem consolo. Apenas um canto onde nos sintamos assépticos. Onde tudo seja branco e não nos force, não nos obrigue a desviar o pensamento do roxo. Um lugar onde possamos contemplar o vazio. Onde possamos quedar-nos. Onde possamos ficar. Só, ficar. Mais nada.
Quando alguém morre, quando alguém a quem amamos morre o que mais custa é o sempre. Ou se quisermos, o nunca. Mesmo que acreditemos numa outra coisa ou numa outra vida ou num outro mundo ou numa outra oportunidade, o que mais custa é o nunca mais. Para sempre, nunca mais. O nunca mais ser igual. O nunca mais ser assim. O nunca mais termos aquele olhar, aquela voz, aquele sorriso, aquelas mãos, aquele cheiro. É o nunca mais podermos partilhar. É estarmos avassaladoramente mais sozinhos. Mas solitários. Absolutamente sozinhos, como se todo o mundo desaparecesse num gigantesco buraco. Como se só a nossa voz ecoasse pelas planícies, subisse às montanhas, penetrasse os mais profundos mares. E não encontrasse resposta. E não houvesse mais ninguém. E só restássemos nós. Pior: apenas eu. Só eu. Só.
Deve ser a isso que chamam luto. Fazer o luto. É como se o tempo, se a vida, se a normalidade, todos tivessem um ritmo diferente do nosso. É como se estivéssemos em slow motion. O mundo todo acertado, o mundo todo a tempo, e nós atrasados, e nós mais devagar, nós a movermo-nos mais devagar, a comermos mais devagar, a falarmos mais devagar. Nós desfasados. Como se aquela morte, aquela falta no mundo tivesse provocado um desarranjo, tivesse provocado um qualquer bug que só a nós nos afecta. Talvez seja por isso que nessas alturas sentimos a pena. Vemo-la nos olhos dos que connosco se cruzam. Sentimos-lhe o cheiro. Sentimos-lhe o toque. E isso torna a dor ainda mais dor. Isso torna o desespero ainda mais fundo. Isso humilha-nos, magoa-nos, expõe-nos ainda mais. E força-nos a um recuo, obriga-nos a um maior fechamento. Daí que choremos alto. Para encher os espaços. Para preencher. Para colorir os espaços em branco. Para soprar uma bolha que nos defenda das facas. Que nos abrigue. Que nos esconda.
Porque nos sentimos pequenos. Porque nos sentimos meninos com medo do papão. Porque nos sentimos impotentes. Incapazes de salvar. Incapazes de resgatar. De sermos heróis. De sermos tudo o que prometemos. De sermos um milagre. Sentimo-nos feridos, caídos do ninho, incapazes de regressar. Ao lugar. Ao nosso lugar. Ao lugar onde tudo antes fazia sentido e agora já não faz. E é isso que é preciso. É fazer sentido. É preciso fazer sentido. É preciso que compreendamos o que se passa. E para isso nem é preciso morrer alguém! Muitas são as formas pelas quais podemos ficar estragados! (Gosto desta expressão, ficar estragado. Aprendi-a há pouco tempo, mas entrou logo para o coração. Porque é certeira. Porque diz mais do que parece. Porque só “fica estragado” o que “passa do tempo”, o “que está fora do tempo”, o que é “atropelado pelo tempo”. Porque só fica estragado o que “era a tempo”, o que “estava a tempo”. E isso é bom. Isso consola. Isso ajuda a crescer.)
Até que um dia estamos prontos. Até que um dia podemos recomeçar, podemos apanhar de novo o comboio, podemos seguir ao ritmo normal. Um dia a rotação da terra deixa de provocar tonturas. E seguimos. Estragados, mas seguimos. Aprendendo a viver sem um bocado. Arranjando maneira de continuar. Estragados, mas vivos. Reconciliados com o tempo. Com uma nova cicatriz, mas vivos, Reconciliados connosco. Seguimos. Levantamo-nos do chão, sacudimos a poeira, passamos a mão pelo cabelo. Acariciamos a cicatriz, medimos-lhe o tamanho, apreciamos-lhe o tom. Sorrimos. Estamos prontos. Estamos, de novo, prontos. Como novos. Como novos.
* Grey’s Anatomy é, seguramente, uma das melhores séries de sempre. Uma autêntica obra de arte. Mais do que a “típica série sobre médicos e hospitais”, é uma série sobre a vida e os seus soluços. Sobre a diversidade dos dias. Sobre as cicatrizes que vamos acumulando. Tem, para mim, uma imagem de marca: o magnífico guião. É, com toda a certeza, uma das séries mais bem escritas que já vi. Tem diálogos que deveriam passar a constar nas selectas literárias. E alia isso a uma história equilibrada e rica, interpretações de suster a respiração, um décor sóbrio e directo, uma banda sonora eficaz e muito interessante. Mas os diálogos… ui! São de tirar o fôlego. Este episódio que aqui deixo é disso um exemplo. Desde que o vi que não me consigo separar dele. Tudo nele é necessário, nada é excesso, nada está a mais. Perfeito. Absolutamente perfeito. Absolutamente triste, também. Mas daquela tristeza feliz, aquela tristeza bonita da qual já aqui falei. Uma tristeza catártica. Como uma crise de choro (e se há coisa que esta série me provoca são crises de choro e soluços a esganar-me a garganta e gargalhadas e sorrisos estampados na cara) que alivia. Perfeita.


