sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Vozes I

- …

- … mas o que raio é que tu não sabes? não percebo o que se passa... e isso irrita-me… fala comigo!...

- … não sei, não sei… foste a única pessoa a tocar-me, a magoar-me (...) a chegar aonde nunca ninguém chegou… tão fundo no meu coração...não sei porquê…não consigo…não sei, não sei… preciso de espaço… preciso de pensar…

- …pois … porque é que terá sido? já pensaste nisso?...

- …

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Eterno Presente

Anda agora aí uma mania, ou melhor, um erro que me deixa absolutamente doido. Eu intitulo-o a “Mania do Eterno Presente”, o que, à partida, soa sempre melhor do que a coisa em si. Passo a explicar-me: já haveis reparado na autêntica epidemia que cavalga nas nossas televisões (e o pior é que não é só lá) de trocar o pretérito pelo presente na primeira pessoa do plural? A malta agora já não adorou, nem comemorou, nem andou, nem visitou nada… continua – eternamente, certamente - a fazê-lo. Daí que diga: “nós fomos ao Porto e adoramos quando visitamos Serralves enquanto comemoramos o nosso primeiro aniversário juntos” (desculpem o exemplo pateta, mas serve para ilustrar o que quero). Tudo isto em vez do – até me parece mais lógico e até soa melhor – “nós fomos ao Porto e adorámos quando visitámos Serralves enquanto comemorámos o nosso primeiro aniversário juntos” (irra, que o exemplo é mesmo mau…repetido soa ainda pior, mas olhem, é o que se arranja…). Mas o que é que deu a este povo para começar a destratar assim a língua?! A influência da pronúncia brasileira não pode explicar tudo… Será que ninguém acha minimamente estranho que todas as suas acções do passado estejam sempre e ainda a acontecer??? Eu sei que em falando de língua portuguesa e maus tratos, somos peritos; mas este dói-me, e sempre que o oiço (ou seja, diariamente) é ver-me a trepar paredes... Fico, como o António Silva nas tardes de Domingo da minha infância, “piúrso”!!!

P.S. Diga-se de passagem que este erro de português talvez seja o sintoma de uma característica da civilização em que vivemos: a obsessão com o presente, com um eterno presente. Desde a cirurgia estética para conseguir tudo o que não seja alguma marca de envelhecimento (e, possivelmente, sabedoria), à ginásio-mania que faz algumas criaturas já parecerem o boneco da Michelin em músculos e brutidade (mas alguém acha que fica bem naquele estado?), culminando no fascínio pelas pseudo-celebridades e pelo seu mundo sempre-em-festa-onde-há-croquetes-grátis?!... Pois… “Piúrso” mesmo!

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

One night stand

Um olhar. Um impulso. Um desejo a arder à flor da pele, a excitação da conquista, o atordoar da presa - sempre a caça presente. Sempre o instinto e o genoma a levar a melhor.



Alvorada. O suor frio escorrega ainda nas coxas. Um olhar. Um impulso. A vontade escorrida pelo chão. As calças vestidas à pressa. Uma frase que nasce a morrer no bater de uma porta.


One night stand. Once more, one night stand. Todo o desejo contido numa noite. Toda a carne do mundo num abraço. Todos os beijos do mundo numa boca. A busca incessante. A busca sem parar. Sem abrandar. A busca da surpresa, do arrebatamento. A procura, o desejo inconfessado de que aquela seja a última caçada, que aquele seja o encontro da terra. O desejo de um lugar, de uma casa, um espaço para o qual voltar, um espaço ao qual se regresse. A festa nos gestos, toda a esperança a viver no olhar. O fim da caminhada à vista, ali, já ali. Uma primeira vez para todas as primeiras vezes. Uma noite que cante todas as noites. As sandálias a amarelecerem cobertas de pó – imóveis.

One night stand. Once more, one night stand. Todo o medo do mundo a abraçar, a arrefecer os ossos. Fria, a manhã, gelado o olhar. Toda a solidão a encher os cantos. A busca incessante. O desejo de partir, de avançar, de continuar. O engano, mais uma vez, o engano a doer. Siga-se caminho com a vergonha da derrota, a vitória espera os audazes – pelo menos eles assim o sonham. A desilusão a amargar na boca, o susto da queda ainda a atordoar. Todos os passos do mundo num passo. O desejo adormecido, enroscado em si, perdido numa dobra do lençol. Um telefone que não pára de tocar, uma resposta que não se quer dar, que não se tem. Tudo já foi dito. Só restam algumas vírgulas abandonadas e solitárias. Tudo já foi dito.

Once more.

sábado, 25 de outubro de 2008

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Habeas corpus


Hoje quero o teu corpo, mais nada.

Preciso que a tua língua lavre a minha pele.

Hoje preciso que me ames para além das palavras.

(As palavras não têm o teu cheiro. Não escorrem suor. E só às vezes aquecem por dentro.)

Vem. Caminha como se eu fosse uma duna.

Hoje eu sou o amor inteiro em chamas.

O centro do desassossego do fundo do mar.

Despedaça-me. Para que quero eu um só coração?

Não preciso de um par de mãos vazias

Nem de dois pés que não me defendem da vertigem do voo.

Hoje quero o teu corpo. Contra o meu corpo. Força bruta.

Preciso dessa constrição como desculpa para o movimento de crescer. Hoje.


Frederico M.




Piece of My Heart - Janis Joplin

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Suas mãos

As suas mãos, onde estão?
Onde está o seu carinho?
Onde está você?

Se eu pudesse ir buscar
Se eu soubesse aonde está
Seu amor, você

Um dia há de chegar
Quando, eu não sei
Você vai procurar
Onde eu estiver
Sem amor, sem você


Antônio Maria

Suas Maos - Caetano Veloso

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Sobre a arte

A arte é o que sobrevem em nós, apelando à magistralidade do mistério, que apela, que intriga, mas que se esconde – para sempre – no registo do desconhecido.
Quando confrontados, quando postos em jogo pela obra de arte, estabelecemos com ela uma relação de cariz mágico, com toda a profundidade, o silêncio e a emotividade subitamente pudica e reservada da religiosidade. A obra de arte re-ve-la-se-nos como Deus, sem nunca… - se mostrar, sem nunca nos dar o tom da sua própria dicção, apelando aos sentidos qual visão dos anjos mensageiros apelando à conversão.
É assim que a obra de arte é e vai sendo conversão, isto é, ela actua em nós suspendendo o tempo, mas convertendo-o em promessa anunciada, em vivência extra-histórica – para além do saber, do ver, do ouvir, do sentir… -. Permanecendo sempre estranha e sempre (de cada vez) nova; sendo embora e sempre uma novidade inebriante (quantas são as vezes que temos de ler um poema para o possuir, para o ler? Para o compreender? Não o compreenderemos – sem o compreender – de cada vez, no desejo de apropriação – condenada à expropriação – que nos afunda? Qual o tempo para olhar uma tela? Qual o ponto-do-olho para o fazer e captá-la na sua totalidade?) a obra de arte convoca-nos a voz e toma-nos o pensamento no sangue que flui incessantemente, atirando-nos para algures. Fora de nós. Irremediavelmente exilados do nosso próprio corpo, sem nunca nos identificarmos com ele… e connosco. Fatalmente em abertura acolhedora, ditada pela anterioridade da alteridade em nós. Antes e já sempre em nós, depois de nós. A obra de arte descentra o sujeito arrastando-o “pelos becos lamacentos, redemoinhando aos ventos” e obrigando-o, forçando-o a um novo e sempre em formação – a caminho… - repensar do mundo. Como se fosse a primeira vez! Como se antes nunca houvesse outras telas, outros filmes, outros romances… como se antes fosse o momento criacional genésico perdido desde sempre, para sempre! Como uma oração repetida com fervor para per-durar… para não esquecer, esquecendo sempre que já foi dita!
A obra de arte coloca-nos a sonhar acordados; como um sonho adormece-nos na sua forma, na sua aparição fulminante e radical; como um sonho, interrompe-nos despertando-nos – em vigília, em cuidado – lançando-nos no desespero lancinante, na agonia profunda de ir para além do ente e da própria essência, desconstruindo-nos como nó na linha a ser tecida – uma passagem, uma separação que nos une afastando, lançando o sujeito no polemos, na controvérsia, e ao mesmo tempo, epocalizando-o paradisiacamente. Prazenteiramente. O prazer agonizante na dor da hemorragia de ser… a constituição fluinte, aquosa de ir-sendo no mundo… sem foz nem destino… repetindo o inolvidável, e sempre sem conhecer, sem reiterar.
- Como consegue a arte – uma manifestação artística – interromper o saber, o normal correr/fluir da vida de cada um? A arte é o que chega sem ser esperado: é o profundo acontecimento, mais profundo que o fluir constante da vida; é o acontecimento que vem enquanto novidade, enquanto advento. Surge e instala-se na percepção do sujeito, a partir daí irremediavelmente aberto hemorragicamente a essa manifestação, que não controla, que o enlaça, o fascina, prendendo-lhe a atenção, a reflexão – provocando-o, possuindo-o, ultrapassando-o no seu poder magistral.
Arrastado para o desconhecido – “o mundo” aberto, o abismo profundo e insondável, a queda espácio-temporal que forma uma tela, um poema, uma peça teatral, um filme, uma escultura, um romance… - o eu suplicante de harmonia, choroso pelo equilíbrio perdido, pela agonia perante o não-saber, sente-se assim como que possuído demoniacamente por algo que não sabe o que é, que não consegue figurar, re-presentar. Sabe apenas – se é que alguma vez o chegamos a saber – que estabeleceu uma relação com “aquilo”, “aquela”, com a alteridade que de-fronte dele (e já nele…) o joga num remoinho sensorial que, ao mesmo tempo que o perturba, que o turva, que o arrasta aos gritos pelo chão atirando-o contra a parede… ao mesmo, enfeitiça-o, desperta-o, abraça-o – sem sequer lhe tocar e sem sequer ter braços… - prendendo-o como Orfeu obstinado por Eurídice…
…como no amor…
… como se a obra de arte fosse a Voz de Deus apelando e intrigando a consciência na quietude e no fervor de uma oração…



Publicado na Oficina de Poesia, n. 0, série II, Palimage Editores, Coimbra, Março 2002.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Da democracia (em abstenção)

Realizaram-se no passado domingo as eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores. O Partido Socialista saiu vencedor apoiado por 23,36% dos eleitores açorianos. Os mais atentos a estas coisas dir-me-ão de imediato: “ Olha que o PS teve mas foi 46,96% dos votos, estás enganado!” Mas não, não estou. Aliás, nenhum de nós estará errado e nem é preciso fazer a quadratura do círculo. Ora vejamos:

1) o PS venceu efectivamente com 46,96% dos votos expressos validamente .
2) o PS foi efectivamente apoiado por 23,36% dos eleitores açorianos.

Como? É simples: uma vez que a Abstenção foi a grande vencedora com 53,24%, basta fazer meia-dúzia-ou-não-tanto de contas simples para perceber que os 46,96% dos votos expressos e válidos significam na realidade (tendo em conta que estamos a falar de um universo de 45070 votos socialistas) 23,36% dos votantes açorianos (cujo universo para estas eleições se saldava em 192956 eleitores).

Mas não fiquemos por aqui. Se olharmos rapidamente para o resultado das últimas Eleições Legislativas para a Assembleia da República em 2005, facilmente constatamos que os supostos 45,03% dos votos no Partido Socialista (para esta análise basta olhar para o vencedor pois é esse que interessa) são na realidade os desejos de 28,94% dos eleitores nacionais (uma vez que o universo destes era de 8944508 eleitores, dos quais, 2588312 votaram no Partido Socialista).

Continuemos. Se olharmos para os resultados das últimas eleições para a Presidência da República, em 2006, das quais saiu vencedor Cavaco Silva, vemos que do universo de 9085339 eleitores, apenas 2773431 preferiram o candidato vencedor. Assim, ao contrário da percentagem vitoriosa de 50,54%, podemos dizer que o Presidente da República foi escolhido por 30,53% dos eleitores.

E, para terminar, seguindo a mesma metodologia, constatamos que no Referendo ao Aborto de 2007, e apesar de aqui sabermos que a abstenção atingiu recordes, o Sim ganhou com os votos de 25,34% dos eleitores nacionais.


Comentários:
a) ainda bem que estas contas não são feitas tendo em conta o número total da população, senão era ainda mais humilhante;

b) a “democracia portuguesa” (se é que se pode falar disso com estes números) está, podemos dizê-lo, em abstenção;

c) já se percebe porque é que os nossos campeões da democracia à gauche são tão veementemente contra o voto obrigatório (de resto, parece-me, a única maneira de assegurar a democracia como demos cracia, efectivamente!): se todos votassem até podia acontecer que a verdadeira maioria não os preferisse a eles e isso era trágico. Para eles, claro está!

d) a esta luz não se entendem tantas críticas ao sistema eleitoral da Segunda República: também esse, segundo os seus detractores, elegeu o Almirante Américo Tomaz em 1958 com 25% dos votos: para quem fez uma revolução e afins para mudar o sistema, estão demasiado parecidos para o meu gosto!

e) a democracia é, por definição e vocação, a ditadura da maioria. Ditadura essa renovada por actos eleitorais regulares, que sendo exercidos livremente, podem (e devem, muitas vezes) mudar os vencedores, nunca havendo lugar à efectiva tomada do poder por um grupo/facção/partido. Ou pelo menos é esta a teoria. Na prática “esclarecida” à portuguesa (de resto uma das “mais consolidadas, maduras, etc e etc” como ouvimos dizer diariamente) a democracia é o governo de todos por uma parte – sim -, mas não a parte maioritária: é o governo da maioria por uma minoria. Logo, em bom rigor, uma espécie de ditadura. Como? Muito simplesmente com filosofia e linguagem. Como? Também é simples: em vez da nossa democracia ser alicerçada no voto da maioria da população para isso habilitada (esse limite é intransponível pois todos vemos a idiotice de uma criança de um ano ser obrigada a votar, ou coisa parecida) a democracia em abstenção à portuguesa é alicerçada na voto da maioria dos que até se incomodam-e-não-vão-à-praia-ou-ao-shopping-ou-coçar-a-micose-ou-têm-um-primo-que-até-é-candidato o suficiente para se deslocarem à câmara de voto para decidir, tão só, o futuro colectivo do lugar onde fazem a vida…

f) estou perfeitamente consciente que assim acontece em grande parte das “democracias” por aí vigentes ,especialmente na Europa e na América onde a coisa é mais comum (as democracias africanas dos 90% de votos num partido fazem-nos suspirar pelos 30% do Professor Cavaco…). Mas também tenho consciência que em muitos lugares assim não é, e o voto é obrigatório, já que, mais do que um direito, é um dever: a “tirana” Suíça que tudo decide eleitoralmente ou o Brasil são casos em que a coisa acontece. E ao que parece as pessoas até gostam. Talvez seja porque, na realidade, contam. O que, convenhamos, não é de todo despiciendo…

g) para quem inventou e vive numa democracia tão fajuta (passe o brasileirismo) como esta (já para não falar da esquizofrenia latente do sistema semi-presidencialista, como gosto de lhe chamar: o Povo elege o parlamento com o seu voto; o parlamento - eleito pelo Povo, vamos devagar para se perceber - dá origem ao governo; e depois o Povo elege um tipo para controlar o parlamento e o governo que, portanto, ele próprio escolheu) já se calavam com as laudas à nossa democracia.

h) é certo que a democracia, por definição, e por influência derridiana, é sempre uma democracia por_vir, sempre a_vir. Só escusava era de ser assim abs_tença.