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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Vinda I


Vou ser o sol que te recebe nos braços
vou ser a luz que te guia,
teu porto de abrigo
tua conquista e teu assombro


gladiador de feras e a própria fera
domarei todos os teus medos
espantarei todos os teus fantasmas.
serei o teu chão e as tuas asas
serei a vertigem e o fogo da manhã.


vem, encosta a cabeça e repousa
no meu peito todo de penas


quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Paixão

Por tua causa um dia quis morrer. Num dia único, singular, absolutamente único, quis mesmo morrer. Metodicamente, ou talvez não, encostei-me a uma parede e escorreguei, deixando-me partir. Ao tocar o chão entreguei-me à queda. Deixei-me cair sem parar e fiquei, desatento, a deixar o ar escapar-me do peito, o fôlego abrandar, já sem ouvir o abrandar dos batimentos cardíacos, já esquecido de mim. E morri.

- Quando acordei só havia ruído. Só barulho. Só confusão. Tinha um martelo pneumático em-permanência a esburacar-me o cérebro. Não conseguia sequer ouvir-me a mim mesmo, não conseguia sequer pensar uma coisa simples como “azul”. Também não conseguia ouvir o coração, mas sabia estar vivo, de alguma maneira, vivo. Insuportavelmente vivo. O mundo todo me parecia estar em slow motion, as vozes chegavam-me com um atraso incomensurável, e eu, ali estava, de alguma maneira, ali estava, a tentar responder, a tentar, ali. Três dias assim permaneci, três dias ausente, três dias chorei infindavelmente, por toda a vida, para toda a vida. Não te sei dizer quantos foram os ataques de pânico, quantos foram os gemidos, os rangidos de dentes, quantas foram as mortes. Apenas que foram muitos, muitos, muitas. Não te sei dizer o quanto me doía o corpo, o quanto me encarquilharam as mãos, o quanto escavei a noite. Nem sequer te sei dizer, nem sequer te sei contar o quanto a voz nos pode doer, o quanto ela pode sangrar, rouca, de tanto gemer. De tanto gemer. De tanto se afogar.

Sei sim que ao fim desse tempo – três dias, três bíblicos dias – uma nova pele me cobria. Ao fim desse tempo de escuridão, voltei a habituar-me à luz, devagar primeiro, devagarinho depois. Vislumbrei uma claridade, levantei a cabeça, levantei-me, sentei-me e pensei. Como da primeira vez, como o primeiro pensamento, como um primeiro pensamento na vida, pensei. Analisei. Pesei. Ponderei. Resolvi. Tomei decisões. Tomei todas as decisões. Pela vida e para a vida. Uma eternidade de decisões, de resoluções graves, tratados assinados, armistícios plenos e incondicionais. Lambi as feridas. Sarei-me.

De todo esse tempo, de toda essa dor, a mais funda, a mais aguda que alguma vez pude sentir – surda de tão aguda, cortante de tão desesperante, sem-doer doendo, daquelas que nos fazem desmaiar porque o cérebro já não consegue aguentar mais e é demais – apenas guardo uma lembrança salvífica, apenas uma voz me chegava, apenas uma imagem me agarrou os olhos salgados e ardentes: Tu. Tu.Tu.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Quase

Às vezes quase me convenço de que não te amo. Quase consigo acreditar que não és tu o meu chão. E o meu céu. E o motor do meu coração. Quase chego a crer ter-te deixado num apeadeiro qualquer, um daqueles que havia dantes nas bordas dos caminhos, com miradouros e árvores e fontes frescas… A deixar-te, que seja num paraíso, e nunca no deserto, meu amor. Porque continuas a fazer-me sorrir. E só contigo rio. Porque continuas a fazer-me chorar baixinho, primeiro, alto, depois, até a vergonha de me ouvir em pranto desafinado me calar a baba. E só contigo choro. Porque continuas a deitar-te comigo e a levantar-te comigo, e a habitares os meus sonhos, por dentro. Quase consigo acreditar que te deixei. E depois o teu cheiro vem acordar-me do delírio e apontar-me o dedo. E prosto-me por ter – sequer – ousado duvidar de mim, e peço perdão pelo pecado de quase acreditar que não te amo. E lavo-me, purifico-me, rolo-me no chão em entrega abençoada para que me seja esquecida a falta. Que alguma coisa se possa apagar nos meus dias!

Nunca deixo de pensar em ti. Constantemente, em todas as línguas, um desvario percorre-me as veias e nunca deixo de te pensar. Enches-me os dias de alegria transbordante, e à noite, antes de dormir, agradeço a felicidade única de ser contigo. Beijo-te as pálpebras, primeiro, a testa e o queixo, depois. E durmo enroscado a ti. E às vezes quase me convenço de que não te amo. Como se me pusesse à prova e quisesse testar a imensidão do meu sentir. Por ti. Sempre por ti. E assim me vou convencendo de que não te amo. De que não te quero, e de que não são os teus beijos e a tua língua que me temperam a pele. Assim me vou convencendo de que sou capaz de te abandonar. Melhor: de que sou capaz de me esquecer de ti. De me esquecer do teu perfume, da tua pele, do teu calor. Das tuas pernas e das tuas mãos. Quase consigo apagar os nossos abraços, a sua marca permanente, como eles, em mim. Quase consigo. Quase.

Tu nunca és demasiado longe.


Amado - Vanessa da Mata