terça-feira, 23 de dezembro de 2008

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

De mãos sobre os olhos caminho


De mãos sobre os olhos caminho
de estrelas enfeito os teus cabelos
no tapete de corda
nossos pés bailam nus,
os teus sobre os meus
por entre migalhas de romãs,
os teus sobre os meus
aprendem o cheiro do pão quente,
os teus sobre os meus


De mãos sobre os olhos escuto
os círculos da tua voz
na água do cântaro de folha
os teus sobre os meus
bebendo a frescura do jasmim
os teus sobre os meus
no riso dos teus olhos
a dança dos girassóis
os teus sobre os meus


à sombra da tua pele de Verão
respiro o sal e o fruto


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De mãos sobre os olhos
caminho
À sombra da tua pele de verão
respiro o sal e o fruto

domingo, 21 de dezembro de 2008

sábado, 20 de dezembro de 2008

Não é normal… ou será?!



Há uns dias atrás, no dia de Nossa Senhora da Conceição, a casa despertou com os telefones todos a tocarem em simultâneo; do outro lado da linha avisavam-me que a M. (uma velha amiga da família, daqueles amigos em que já os avós o eram) havia sido encontrada nua e confusa no patamar do andar onde vive, afirmando haver sido assaltada; mais me diziam que, uma vez chamada a Guarda, esta rapidamente havia constatado que nada se teria passado e que tudo aquilo não passaria de um delírio. Saída a Guarda, quem me chamava e me dizia ser uma vizinha, dizia-me que, uma vez que os bombeiros se recusavam a levar a M. para o hospital por ela recusar essa ajuda, não sabiam como proceder, não tinham contactos da família mais próxima (a M. nunca casou, nem teve irmãos), enfim: não faziam a mais pequena ideia do que fazer.


De pronto lhes disse que iríamos de imediato para lá, devendo apenas levar o tempo necessário para trocar as nossas mórficas vestes por algo mais apresentável. Quando chegámos, a M. não estava tão confusa como ma tinham pintado, reconhecia e falava com nexo com toda a gente, não fosse o permanecer nua, sentada na sanita, e insistir que tinha de ir tomar banho. Das 9.30 às 12.30 lá estivemos nós (bem, mais propriamente a minha madrinha e meia vila!) a convencer a M. a arranjar-se a fim de ir ao hospital fazer exames para saber o que tinha acontecido. A M. lá acedeu finalmente a fazê-lo, não sem antes tomar dois banhos (a M. é ligeiramente obsessivo-compulsiva, tomando 2 banhos por dia, e repetindo os mesmos rituais, mais ou menos à mesma hora, há mais de 50 anos) e vincar que nunca iria de ambulância. Ora nós, na qualidade de amigos mais antigos ali presentes (a minha madrinha conhece a M. desde a meninice), lá nos disponibilizámos para a acompanhar ao Hospital de Nossa Senhora da Graça de Tomar. Assim fizemos, e assim se passou o nosso feriado já que lá permanecemos até às 23.OO, altura em que nos comunicaram (a nós, à G. (a vizinha que havia encontrado a M.) e à G. (prima direita da M. ali presente depois da nossa chamada a meio da tarde) que a M. ficaria em observação naquela noite no S.O., só para acautelar (através de posteriores exames) que o pior já havia passado e que tudo aquilo apenas havia resultado de um pequeno AVC. No dia seguinte, ao fim da manhã, a M. regressou a casa acompanhada pela G. e desde então tem vindo a melhorar a olhos vistos.


Até aqui tudo normal, dentro do padrão de normalidade alargada que a M. convoca sempre à sua volta, devido a ser, aquilo que poderíamos denominar por uma figura. Ímpar e inconfundível! O que não acho de todo normal são três outras coisas.


Em primeiro lugar, a atitude dos bombeiros, ou seja, da (dita) protecção civil. Considerando que não é propriamente corriqueiro e habitual andarmos todos nus nos patamares das escadas dos prédios que habitamos enquanto descrevemos assaltos imaginários, não percebo como é que eles, tal como Pilatos, lavam as suas mãos e pronto. Quem quiser que se amanhe! (note-se que aqui há uns anos, numa situação muito similar cá em casa com a minha tia – pronto, sem o "assalto" e os comportamentos obsessivo-compulsivos – a resposta dos nossos soldados da paz, chamados pela minha madrinha, foi exactamente a mesma: se ela não fosse de livre espontânea vontade (pouco interessa que o uso das faculdades mentais que suportam a mesma não esteja ao seu melhor nível), não a podiam obrigar…) Ao que parece (e vendo-a como a comprei), apenas o Delegado de Saúde poderá "decretar" a coisa, o que, atente-se, é muito prático e exequível no caso da vítima em causa ter alguma patologia que necessite de cuidados médicos rápidos. Ou não!


Em segundo lugar, a atitude de uma outra vizinha. A jovem criatura, estando a sair de casa à hora do sucedido, e tendo de passar pela M. para chegar à porta do prédio, afirmou não ter nada que ver com aquilo. Logo saiu e lavou a sua consciência, o que me faz pensar em que raio de cornos de cabras (ou bicho menos simpático) esta gente foi enxertada, para ser capaz de passar por alguém naquela situação e não ter a mínima compaixão. Estranho e triste mundo este em que vivemos! É em horas destas que me lembro de uma frase da qual não gosto, mas que é merecida para bichos (sem ofensa para todos os bichos do mundo, muito mais éticos do que muito cabredo humano) destes: "o que é teu está guardado!"


Em terceiro lugar, a atitude da comunidade. Nomeadamente, a atitude em relação a nós. Isto é: ao que parece somos "altamente louvados" pelo nosso acto, "coisa benemérita", e coisa que "mais ninguém" faria… afinal, prescindimos do nosso feriado para acompanhar-mos alguém que não era nosso parente directo, passámos o dia sem comer decentemente, e ainda gastámos gasolina e telefone. Um luxo portanto!


Não sei se ria se chore. E aqui reside a minha maior perplexidade: o que haverá de tão estranho em socorrer e amparar alguém que precisa? Mas se não fossemos nós, ninguém faria o mesmo? Ou melhor? Caramba: mas se fosse outra pessoa, alguém que eu nunca tivesse visto na vida, marimbava-me e não fazia nada? Alguém achará mesmo isso? Mas que raio de sociedade é esta que estamos todos a construir em que se parece ter perdido a noção do essencial. É que, bem me lembro, há uns 20 anos atrás nada disto seria caso de espanto, muito pelo contrário: era normal e mais ou menos usual. Quem precisava recebia ajuda da família, dos amigos, dos vizinhos, etc. E não havia propriamente hossanas por causa disso. Mas isto, isto que vivemos, incomoda-me. Muito. E deixa-me, de certa maneira, piúrso. Incomoda-me ao ponto de nem sequer ser capaz de entender. Estes espantos com aquilo que considero normal, ou melhor, aquilo que considero o mínimo aceitável, são –parece-me – o sinal de algo podre no reino da Dinamarca. De algo muito podre no reino de Portugal. Chegados aqui, temo que não tenhamos regresso, e a ser assim, tempos de aço nos esperam. Atenção que não me esqueço do lado luminoso, dos milhões de pessoas capazes de tudo fazerem pelo outro, dos milhões capazes de compaixão, de humanidade. Não. Mas julgo que este tipo de pensamento (e não-actos), aliado à infantilização do discurso da sociedade civil (que se comprova com 5 minutos de qualquer jornal televisivo), à fragilidade das instituições, bem como à erosão dos tradicionais valores judaico-cristãos inspiradores do humanismo contemporâneo, ainda nos vai dar muitos amargos de boca. Oxalá assim não seja! Oxalá!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Se me comovesse o amor

Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia

caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer

o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.

Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.


Francisco José Viegas

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Nimarói

Let me cry for all these little men
Building their bridges of sand:
Nothing more than children, with children on their hands.

Deep into their silence, stronger than their words,
Runs a cold wild river to the sea of love.


I’m the cleaning Lady of the broken hearts.
I’m the Virgin Mary of the psychopaths.
I’m god’s only witness that they fall apart
When they touch the fire of the ancient stars

When the rain starts falling on their hearts,
All Hitler’s and Bonaparte’s
Hide inside my red dress like motherless pets.
They produce the tears, they invent the bombs,
They spread out the fears
And they come home all alone.

Belle Chase Hotel



Nimarói - Belle Chase Hotel

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Sobre a Grécia

A violência das margens

Imagine-se que um polícia grego matou a tiro o skinhead que o apedrejara. Imagine-se também que, manipulados por partidos de extrema-direita e líderes populistas, milhares de "cabeças rapadas" vingavam a morte do companheiro e espalhavam violência por Atenas, destruindo símbolos do "sistema" capitalista que abominam e a propriedade de quem calhava. Imagine-se ainda que a raiva se alastrava a mais cidades gregas e europeias. E imagine-se o que diriam os "media" em peso. Provavelmente, diriam que, ante a complacência das autoridades, as democracias estavam ameaçadas pelo ódio. Com razão, inúmeros comentadores preocupados regressariam aos anos 1920 e invocariam os métodos do fascismo italiano e do nazismo alemão, que se afirmaram igualmente pela "rua" e pela desordem. Uma ou duas manchetes lúgubres anunciariam a nova idade das trevas.No que respeita à realidade, não é preciso imaginar muito. O exercício é meramente lexical: basta trocar "skinhead" por "anarquista", "populistas" por "sindicalistas", "extrema-direita" por "extrema-esquerda", "cabeças rapadas" por "comunistas", "anos 1920" por "Maio de 1968", "fascismo" por "leninismo", etc. Como as chamas em Atenas, "capitalismo" e "ódio" nem necessitariam de alterações. O esforço de imaginação é requerido somente por aquele género de jornalismo, português e estrangeiro, que agora se contorce a fim de suavizar, explicar e, vamos lá, legitimar a selvajaria em curso na Grécia. Dois ou três "telejornais" chegam para captar o tom "romântico" com que se cobrem (nos dois sentidos) as atrocidades que afinal não são atrocidades, mas uma "explosão social", fruto do descontentamento dos "estudantes", coitadinhos, face ao (eleito) governo local, à crise económica e à "falta de alternativas". Se o caos grego tem alguma utilidade, não é a de escusadamente nos lembrar a essência totalitária e criminosa de ambos os radicalismos ideológicos: é a de nos avisar contra os aparentes modelos de isenção que tremem de medo perante um e de excitação perante o outro.


Alberto Gonçalves (in: DN, Domingo, 14 de Dezembro de 2008)


(Mais um texto de AG que considero e-x-e-m-p-l-a-r!)

domingo, 14 de dezembro de 2008

(Ficas toda perfumada)


Ficas toda perfumada de passar por baixo do vento que vem
do lado reluzente das laranjeiras.
E crepitam-me as pontas dos dedos ao supor-te no escuro.
Queimavas-me junto às unhas.
E a queimadura subia por antebraço e braço
ao coração sacudido. Eu - perfumado
e queimado por dentro: um laço feito de odor
transposto, ar fosforescendo, uma árvore
banhada
nocturnamente. Tudo em mim trazido
súbito
para o meio.
Quando este saco de sangue rodava
defronte da abertura
prodigiosa.



Herberto Helder