quarta-feira, 1 de julho de 2009

graças

"gosto de caminhar em silêncio. às vezes, tenho medo e choro no escuro. há dias em que sei que nada é mais exacto do que a alegria. comove-me a bondade verdadeira, que actua escondida. café. donuts. coca-cola. caracóis e cerveja no verão. viajar. gosto de voltar às origens. ser criança. rir. ser tolo e dizer só tolices. praia. mar. amigos. de repetir mentalmente os versos do mundo. áfrica no coração, na pele, nos sentidos. a noite escura de são joão da cruz. o inverno em praias desertas. acredito no poder das mãos unidas. dorminhoco e preguiçoso. música para respirar. tori amos e a "cooling". acredito que duas pessoas podem existir com força bruta uma para a outra mesmo no silêncio e na distância. acredito que há outras que falam mais do que deviam. acredito que há desertos imensamente duros na vida. acredito na infância do coração. acredito na bondade, acredito na rectidão. admiro os inocentes por discernimento. acredito na esperança. acredito que, no final, vamos saber tudo o que deveríamos ter sabido pelo caminho. acredito que estamos sempre muito perto de perder tudo. mas sei que tudo isto perde validade e se subverte, quando acredito ainda mais no Amor e nos Mistérios."

C.





_parabéns C.

Canção das horas nº 22


terça-feira, 30 de junho de 2009

segunda-feira, 29 de junho de 2009

As asas

Tocou-me uma assombrosa santidade
E senti o agitar das suas asas
Sobre mim. Erguendo-me acima das coisas
Os dedos entrelaçados nos meus
As asas sobre mim agitando-se ao passar
Não sei de nada igual, senão talvez
O vento a esvoaçar entre os pinheiros
Na meia-sombra da lua ausente
Um vento que pressiona
e que não beija
Mas se agita, suave como a luz
Dos raios do crepúsculo nas veredas
Mas isso é pouco nobre e não é santo...
Seus dedos pousaram nos meus em bênção fremente
E por cima o agitar de asas tão sagradas.



Ezra Pound








© Alvin Langdon Coburn, Vortografía de Ezra Pound, 1917

domingo, 28 de junho de 2009

Migrações kitch


Já aqui falei da minha pulsão por tudo o que possa ser considerado por muitos como lixo. Nada como um programa do tipo reality show, ou uma musiquinha pimba, para me encherem as medidas e me deixarem às gargalhadas por horas a fio! Eu sei que deve haver cura para casos perdidos como o meu, mas enquanto não se tornar impeditivo da vida normal é apenas uma filia como outra qualquer (e que grandes momentos de riso me proporciona!). Encontrei há pouco (ou melhor, reencontrei há pouco, porque em tempos que já lá vão, muito já tinha ouvido isto a outros padecentes do mesmo mal!) uma canção do Graciano Saga que, não sendo um clássico reconhecido pela crítica (o que é manifestamente injusto!), arrisca-se a sê-lo no campo do kitch (bem, ou pelo menos de algum fetichismo kitch…). Adiante! Esta peça é, na sua essência, um exemplo de pura poesia popular, ou seja, um exemplo claríssimo do pop português. Tudo nela apela ao sentimento, tudo nela apela à vida simples, à vida de todos os dias dos emigrantes de retorno à pátria, à tragédia dos dias comuns, sendo, por aí e também, uma clara citação da OdisseiaDe alguma maneira, pelo menos…



Ora, atentai na pérola que aqui vos deixo, que nada deve à malinha de cartão de Linda de Suza (ess'outro mito!)...





« "Imigrante vem devagar por favor, temos muito tempo para lá chegar e depois, lá diz o velho ditado: mais vale um minuto na vida, do que a vida num minuto."

Passou-se no mês de Agosto,
este drama tão cruel
de um imigrante infeliz
Foi tanta a pouca sorte,
na estrada encontrou a morte
quando vinha ao seu país
Do trabalho veio a casa,
preparou a sua mala
e partia da Alemanha
Mas seu destino afinal
acabou por ser fatal
numa estrada em Espanha
Dizem aqueles que viram
que ele ia tão apressado
a grande velocidade
Foi o sono que lhe deu
o controlo ele perdeu
desse carro de maldade

Foi o sono que lhe deu
o controlo ele perdeu
desse carro de maldade

Trazia na sua mente
ir ver o seu pai doente
que estava no hospital
Na ideia um só pensar
o seu paizinho beijar
ao chegar a Portugal
Mas tudo foi de repente
partiu de Benavente
o drama aconteceu
Ele vinha tão cansado
de tanto já ter rolado
e então adormeceu
Nada podendo fazer
num camião foi bater
e deu-se o choque frontal
Seu carro se esmagou
e desfeito ele ficou
num acidente mortal

Seu carro se esmagou
e desfeito ele ficou
num acidente mortal

Ele não vinha sozinho
trazia também consigo
sua mulher e filhinho
Sem dar conta de nada
e naquela madrugada
morrem os três no caminho
Quando a notícia chegou
no hospital alguém contou
o desastre que aconteceu
Seu pai que tanto sofria
nunca mais o filho via
fechou os olhos morreu
Imigrantes oiçam bem
não vale a pena correr
porque pode ser fatal
Venham todos devagar
há tempo para cá chegar
e abraçar Portugal

Venham todos devagar
há tempo para cá chegar
e abraçar Portugal
»


Graciano Saga


sábado, 27 de junho de 2009

Cinema paradiso

Houve um tempo em que o cinema era com actores e actrizes. Bruto, seco, rude, sem efeitos espectaculares fantásticos, sem magias de algibeira e varinhas de condão. Houve um tempo em que o cinema era (como o diria Manoel de Oliveira que ainda o faz) teatro filmado. Isto é, tão simplesmente, palavra animada, texto, densidade, textura, profundidade (da palavra e da imagem) sem excessos, sem pontas soltas, sem desperdícios - tudo concorrendo para a obra final (o texto, a decoração, a banda sonora, os planos, a iluminação, a fotografia, o guarda-roupa, os actores). Houve um tempo em que o cinema era avassaladoramente adulto. Houve um tempo em que o cinema amadureceu e se tornou vida. Houve um tempo em que este cinema abarrotava as inúmeras salas e era "comercial". Houve um tempo em que o que interessava era a narrativa contada e não o custo.


Era um tempo de requinte aristocrático. Um tempo do sonho. Um tempo a correr por entre os dedos... Em homenagem a esse tempo. Em homenagem a um dos grandes realizadores cinematográficos que a Europa (e o mundo) conheceu - Luchino Visconti. Em homenagem ao meu realizador italiano favorito. Em homenagem ao tempo do leopardo...





Canção das horas nº 21