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quarta-feira, 1 de julho de 2009

graças

"gosto de caminhar em silêncio. às vezes, tenho medo e choro no escuro. há dias em que sei que nada é mais exacto do que a alegria. comove-me a bondade verdadeira, que actua escondida. café. donuts. coca-cola. caracóis e cerveja no verão. viajar. gosto de voltar às origens. ser criança. rir. ser tolo e dizer só tolices. praia. mar. amigos. de repetir mentalmente os versos do mundo. áfrica no coração, na pele, nos sentidos. a noite escura de são joão da cruz. o inverno em praias desertas. acredito no poder das mãos unidas. dorminhoco e preguiçoso. música para respirar. tori amos e a "cooling". acredito que duas pessoas podem existir com força bruta uma para a outra mesmo no silêncio e na distância. acredito que há outras que falam mais do que deviam. acredito que há desertos imensamente duros na vida. acredito na infância do coração. acredito na bondade, acredito na rectidão. admiro os inocentes por discernimento. acredito na esperança. acredito que, no final, vamos saber tudo o que deveríamos ter sabido pelo caminho. acredito que estamos sempre muito perto de perder tudo. mas sei que tudo isto perde validade e se subverte, quando acredito ainda mais no Amor e nos Mistérios."

C.





_parabéns C.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Canção das horas nº18





Obrigado C., por me ofereceres esta canção!

quinta-feira, 21 de maio de 2009

In Memoriam JBC

Em homenagem e in memoriam de João Bénard da Costa. Porque Portugal fica mais pobre. Porque o cinema em Portugal perde um dos seus grandes estudiosos e amadores. Porque a memória cinematográfica portuguesa muito lhe deve. Porque, para mim, a Cinemateca tinha um rosto. Porque cresci com ele. Porque (nos tempos em que ainda lia o Público) ensinou-me a gostar e a vibrar com o que via nas telas. Porque me ensinou a magia e o fascínio e o encanto - o cinema. Porque estou certo que o seu além será um cinema paradiso



Palmas, pois! Obrigado e a_deus!






sexta-feira, 15 de maio de 2009

13 de Outubro de 1917

Para o Daniel. Por haver despertado a minha memória.



Herculana não se inquieta com a multidão. Gosta de festas, gosta de celebrações: afinal já viu algumas na sua vida. Anualmente gosta da algazarra da Festa do Senhor dos Passos onde muita gente acorre para assistir à tradicional Procissão (um arrepio percorre-a de cima a baixo: lembra-se do corpo do pai, morto num dia de procissão enquanto dormia a sesta. Benze-se.). E ainda há pouco mais de meia dúzia de anos lembra-se do ajuntamento que foi a visita d' El Rei D. Manuel II, coitadinho, a acompanhar a desgraça que foi aquele grande terramoto que até destruiu Salvaterra (arrepia-se novamente; lembra-se do medo que sentiu quando a terra tremeu, lembra-se do susto e das ruínas do velho Paço, incapazes de resistir a tão forte ataque) – Deus o acompanhe lá por longe, para onde ele foi ainda tão novo e tão ferido! E ela também não é uma saloiinha qualquer: já várias vezes saiu da sua Almeirim natal, já conhece algumas terras, praias e tudo, coisa que a maior parte dos seus conterrâneos não se pode gabar. Olha para Manoel e inquieta-se. Esta chuva que se abateu desde cedinho só pode fazer-lhe mal, já tão abalado está com aquelas chagas-do-demónio que tantas preocupações lhe têm dado. Não há meio daquilo passar e os médicos (parecendo não saber muito bem do que se trata) dizem que é preciso ter paciência; mas como pode ter paciência uma mulher nesta época desgraçada em que o marido é o sustento de uma casa?! Se ele lhe faltar, ai, valha-lhe Deus e não a castigue por, sequer, pensar nisso! Herculana aperta-se debaixo do guarda-chuva e lembra-se do seu Manoelzinho ("Manoel Alexandre", como o pai): desde cedo tem rezado pela sua saúde e felicidade, com os olhos rasos de água, aflita como Maria com o seu Filho – os tormentos de uma mãe nunca têm fim! Pensa no que estará o seu menino a fazer, mas depressa sossega sabendo-o o ai Jesus das tias, o único menino de uma família de mulheres (Deus guarde a alma do seu irmão Manoel, tão novo e já debaixo do chão e tanta água agora em cima dele, coitadinho!), das suas primas (tanta graça acha à relação que o seu Manoelzinho tem com as primitas, tão encantadores são todos e tão amigos – como irmãos, graças a Deus!).


Manoel não sabe as cogitações em que Herculana está. Também ele tem estado absorto, não sabe se é daquele tempo infernal se é da moléstia que o apoquenta. Inquieta-se ao pensar nisso, mas não gosta de partilhar com a mulher coisas que nem ele compreende muito bem. Tem medo de lhe faltar, a ela que tão dedicada lhe tem sido, e ao seu Manoelzinho, alegria daquela casa, onde todas as esperanças estão depositadas. O rapazito, apesar da tenra idade, é esperto e parece ir longe: queira Deus que assim seja! Parece-lhe que Herculana chora. Inquieta-se, mas não diz nada com medo de, com uma palavra, lhe despertar uma choradeira qualquer e as recriminações do costume que ele já conhece e não quer que sejam partilhadas com tantos estranhos. "Eia! Muita gente também cá caiu!", pensa, à medida que vai perscrutando o terreno em redor. Será que os relatos que ouviu sobre os petizes que falam com Nossa Senhora não são coisas de beatas e gente alucinada? Este pensamento inquieta-o ao pensar que tanto caminho fez para ali estar – mas a sua Herculana nunca lhe perdoaria não vir. Sabe que ela o faz sobretudo por ele. Tem sentido a preocupação no olhar e na voz dela sempre que ele está pior. E para desviar destes pensamentos começa a rezar!


Herculana continua a sua invocação de todos os santos que conhece! Aterroriza-a a ideia de ser mais uma viúva. Sabe o que são as viúvas desse tempo, sabe que a vida acaba ali e ela é demasiado viva, tem demasiado fogo para ficar morta por dentro. Pede à Senhora que Manoel deixe de beber. Ela sabe que, por muito que ele negue, as chagas ficam piores quando ele bebe mais e isso atormenta-a. Lembra-se da mãe e das noites em que o pai chegava a casa com o grão na asa. "Grão" é maneira de dizer que aquilo era homem que era um alqueire de uma vez! Lembra-se da pistola apontada à cabeça enquanto ele a obrigava - a ela e às irmãs - a ler a Bíblia. Lembra-se da mobília queimada e a outra perdida ou vendida aos companheiros da desgraça do jogo e do álcool. Lembra-se das fugas noturnas para casa dos padrinhos sempre que ele as queria matar a todas. Lembra-se de como ele, sóbrio, era "um homem perfeito". Lembra-se da recomendação da mãe – "filhas nunca casem com um homem com vícios!" – e tem medo que o seu Manoel vá por esse mau caminho. É interrompida nas suas inquietações pelo burburinho em redor…




(…)




A chuva parece ter finalmente cedido. Começam a surgir umas abertas e o sol quente de outono já mostra a sua graça aqui e ali, como se os raios fossem semeados à mão por um agricultor cósmico. Subitamente ouvem-se gritos, Herculana olha para o céu e parece-lhe que o sol está mais intenso. Arrepia-se e sente que tem de ajoelhar. Os joelhos em redor vão flectindo à medida que o sol baila no céu e parece despenhar-se sobre eles. Ouvem-se os gritos mas ela não tem tempo para isso pois olha para Manoel e não vê as malditas chagas que tanta apoquentação lhe têm dado. A alegria é tão grande que as lágrimas irrompem-lhes dos olhos e tudo o que consegue é pensar que o seu Manoelzinho terá pai para honrar! Em redor ouvem-se gritos de "- Milagre! É Milagre!" As lágrimas misturam-se com a alegria, a terra está seca como se não tivesse caído um pingo. Manoel, tolhido ainda pela surpresa, sabe que vai honrar aquele momento, aquela graça que Nossa Senhora lhe deu: não mais abusará da pinga! Sai daquela cova com nome de santa martirizada com uma vita nuova. E sabe que o deve à sua Herculana, afinal Nossa Senhora dá sempre ouvidos a uma mãe aflita!










*In memoriam da tia Herculana e do tio Manoel Alexandre (a grafia do seu nome ainda era esta), testemunhas anónimas dos acontecimentos da Cova de Iria de Maio de 1917. Ouvi a narração da cura milagrosa do tio da boca da minha tia Emília, pequena "primita do Manoelzinho", à data com 4 anos. Contava ela que essa era uma das primeiras lembranças que tinha da sua infância: o espanto causado pela cura testemunhada no regresso dos tios do lugar das aparições da Virgem. Anos depois a vida encarregou-se de a aproximar do lugar da aparição e aí (aqui) ouviu outras lembranças de outras testemunhas do sucedido (por aqui, e antes de 1917, era Nossa Senhora do Pranto de Dornes a rainha da devoção). Em todos a certeza inabalável: é milagre!



© O Manoelzinho com os pais (1925-1930)

terça-feira, 31 de março de 2009

Fitas

Gosto de palavras. Gosto das palavras. De lhes sentir os gostos, os aromas, os sentidos. Gosto de as tornear e de as ouvir falar. De as sentir arder na língua, de as deixar ir com a brisa que vem das sereias. Gosto de lhes perscrutar os segredos correndo atrás delas no jogo da cabra-cega, de lhes remexer nos baús, de deixá-las nuas e impuras. Uma palavra nua, saída de si, é das coisas mais enigmáticas, mas arrebatadoras que conheço. O seu poder é absoluto. É o jogo da fala e do silêncio. É o jogo do sentido e do dito.

Hoje saio delas. Dispo-as de mim, como se de uma pele supérflua se tratasse, como se fosse possível estar, algum dia, verdadeiramente fora delas. Ausente. Sem palavras que sequer formem o pensamento. Eu comigo absolutamente só, sem sequer dizer "- ". Faço-o com o sorriso da alegria pelo galardão que, hoje, o D. atribuiu a esta Khôra. Em boa verdade vos digo que o galardão foi atribuído a todos aqueles que o D. segue e a todos os outros que se julguem merecedores da distinção agora atribuída. Mas isso não interessa um chavelho: um prémio é um prémio (e eu gosto de ser premiado, nem que seja a feijões! No tempo em que se jogava a feijões…), e eu estou feliz por ter sido – também – contemplado!


E porque o D. nos tem andado a desencaminhar para que nos apresentemos, em carne e osso, ecce homo!


E obrigado. (Simplesmente) Obrigado!




P.S. Para a comemoração esta Khôra abre as suas fitas para nelas acolher o galardão.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Canção das horas nº 12





Uma canção de sempre. De sempre para sempre. Sempre ... sempre dentro.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Grace


I'm on my knees
Only memories
Are left for me to hold

Don't know how
But I'll get by
Slowly pull myself together
(I'll get through this)

There's no escape
So keep me safe
This feels so unreal

Nothing comes easily
Fill this empty space
Nothing is like it seems
Turn my grief to grace


I feel the cold
Loneliness unfold
Like from another world

Come what may
I won't fade away
But I know I might change

Nothing comes easily
Fill this empty space
Nothing is like it was
Turn my grief to grace


Nothing comes easily
Where do I begin?
Nothing can bring me peace
I've lost everything
I just want to feel your embrace

I love you,I love you,I love you...

Kate Havnevik



Grace - Kate Havnevik