terça-feira, 30 de junho de 2009

segunda-feira, 29 de junho de 2009

As asas

Tocou-me uma assombrosa santidade
E senti o agitar das suas asas
Sobre mim. Erguendo-me acima das coisas
Os dedos entrelaçados nos meus
As asas sobre mim agitando-se ao passar
Não sei de nada igual, senão talvez
O vento a esvoaçar entre os pinheiros
Na meia-sombra da lua ausente
Um vento que pressiona
e que não beija
Mas se agita, suave como a luz
Dos raios do crepúsculo nas veredas
Mas isso é pouco nobre e não é santo...
Seus dedos pousaram nos meus em bênção fremente
E por cima o agitar de asas tão sagradas.



Ezra Pound








© Alvin Langdon Coburn, Vortografía de Ezra Pound, 1917

domingo, 28 de junho de 2009

Migrações kitch


Já aqui falei da minha pulsão por tudo o que possa ser considerado por muitos como lixo. Nada como um programa do tipo reality show, ou uma musiquinha pimba, para me encherem as medidas e me deixarem às gargalhadas por horas a fio! Eu sei que deve haver cura para casos perdidos como o meu, mas enquanto não se tornar impeditivo da vida normal é apenas uma filia como outra qualquer (e que grandes momentos de riso me proporciona!). Encontrei há pouco (ou melhor, reencontrei há pouco, porque em tempos que já lá vão, muito já tinha ouvido isto a outros padecentes do mesmo mal!) uma canção do Graciano Saga que, não sendo um clássico reconhecido pela crítica (o que é manifestamente injusto!), arrisca-se a sê-lo no campo do kitch (bem, ou pelo menos de algum fetichismo kitch…). Adiante! Esta peça é, na sua essência, um exemplo de pura poesia popular, ou seja, um exemplo claríssimo do pop português. Tudo nela apela ao sentimento, tudo nela apela à vida simples, à vida de todos os dias dos emigrantes de retorno à pátria, à tragédia dos dias comuns, sendo, por aí e também, uma clara citação da Odisseia… De alguma maneira, pelo menos…



Ora, atentai na pérola que aqui vos deixo, que nada deve à malinha de cartão de Linda de Suza (ess'outro mito!)...





« "Imigrante vem devagar por favor, temos muito tempo para lá chegar e depois, lá diz o velho ditado: mais vale um minuto na vida, do que a vida num minuto."

Passou-se no mês de Agosto,
este drama tão cruel
de um imigrante infeliz
Foi tanta a pouca sorte,
na estrada encontrou a morte
quando vinha ao seu país
Do trabalho veio a casa,
preparou a sua mala
e partia da Alemanha
Mas seu destino afinal
acabou por ser fatal
numa estrada em Espanha
Dizem aqueles que viram
que ele ia tão apressado
a grande velocidade
Foi o sono que lhe deu
o controlo ele perdeu
desse carro de maldade

Foi o sono que lhe deu
o controlo ele perdeu
desse carro de maldade

Trazia na sua mente
ir ver o seu pai doente
que estava no hospital
Na ideia um só pensar
o seu paizinho beijar
ao chegar a Portugal
Mas tudo foi de repente
partiu de Benavente
o drama aconteceu
Ele vinha tão cansado
de tanto já ter rolado
e então adormeceu
Nada podendo fazer
num camião foi bater
e deu-se o choque frontal
Seu carro se esmagou
e desfeito ele ficou
num acidente mortal

Seu carro se esmagou
e desfeito ele ficou
num acidente mortal

Ele não vinha sozinho
trazia também consigo
sua mulher e filhinho
Sem dar conta de nada
e naquela madrugada
morrem os três no caminho
Quando a notícia chegou
no hospital alguém contou
o desastre que aconteceu
Seu pai que tanto sofria
nunca mais o filho via
fechou os olhos morreu
Imigrantes oiçam bem
não vale a pena correr
porque pode ser fatal
Venham todos devagar
há tempo para cá chegar
e abraçar Portugal

Venham todos devagar
há tempo para cá chegar
e abraçar Portugal
»


Graciano Saga


sábado, 27 de junho de 2009

Cinema paradiso

Houve um tempo em que o cinema era com actores e actrizes. Bruto, seco, rude, sem efeitos espectaculares fantásticos, sem magias de algibeira e varinhas de condão. Houve um tempo em que o cinema era (como o diria Manoel de Oliveira que ainda o faz) teatro filmado. Isto é, tão simplesmente, palavra animada, texto, densidade, textura, profundidade (da palavra e da imagem) sem excessos, sem pontas soltas, sem desperdícios - tudo concorrendo para a obra final (o texto, a decoração, a banda sonora, os planos, a iluminação, a fotografia, o guarda-roupa, os actores). Houve um tempo em que o cinema era avassaladoramente adulto. Houve um tempo em que o cinema amadureceu e se tornou vida. Houve um tempo em que este cinema abarrotava as inúmeras salas e era "comercial". Houve um tempo em que o que interessava era a narrativa contada e não o custo.


Era um tempo de requinte aristocrático. Um tempo do sonho. Um tempo a correr por entre os dedos... Em homenagem a esse tempo. Em homenagem a um dos grandes realizadores cinematográficos que a Europa (e o mundo) conheceu - Luchino Visconti. Em homenagem ao meu realizador italiano favorito. Em homenagem ao tempo do leopardo...





Canção das horas nº 21

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Em terra de Lacan, espeto de pau

Sempre me inquietaram as pessoas (ou instituições) que se julgam superiores às outras. Sempre me irritaram esses comportamentos e esses pensamentos. Mais do que a arrogância, o que mais me irrita é a sobranceria, a displicência, a triste presunção de superioridade. E a esquerda está impregnada dela. Poderíamos dizer que isso só acontece em Portugal devido às vicissitudes do processo revolucionário do qual ainda vivemos o rastro, que enviesou estranha e perniciosamente a sociedade para a esquerda. Mas não. Pelos vistos, não é só cá.


Acabo de escutar algumas declarações da esquerda francesa (a famosíssima e "reputadíssima" gauche, a tal que deu origem à própria designação – o que será sintomático!) e não me canso de ficar espantando. Saídos de uma imensa derrota eleitoral (uma das premissas base da esquerda é muito simples: os eleitores são sempre esclarecidíssimos e vanguardistas quando votam à gauche, e os mesmos eleitores são sempre burros, atrasados, perigosos para a democracia, xenófobos, racistas e afins quando votam à droite) nas recentes eleições europeias, a esquerda europeia (e a francesa muito particularmente) parece não ter aprendido nada! Comentando a remodelação governamental operada pelo Presidente Francês, Nicolas Sarkozy, duas posições foram vincadas. Uma diz que a remodelação nada vem mudar porque vem continuar "a política liberal que conduziu à grave crise que vivemos"; talvez seja bom alguém explicar a esses senhores que os eleitores, ou seja, o povo soberano (na melhor tradição rousseauniana) votou por essa "política liberal" (seja isso o que for no contexto continental europeu) contra – precisamente – a alternativa (só a palavra já me faz rir!) socialista (englobando aqui todas as esquerdas por processo simplificativo); logo, convém que aprendam a viver em democracia e passem a respeitar os resultados das eleições livres, caso contrário – aí sim! – poderemos falar de um ataque à democracia, ou, no mínimo, uma má relação da esquerda com a vivência democrática sempre que ela a afasta do poder. A outra considera "gravíssimo" que um sobrinho (a política e os negócios das polis europeias parecem estar pejadas de tios e sobrinhos…) do antigo Presidente Mitterrand (socialista) "aceite governar ao lado de Sarkozy", acrescentando que os ossos do antigo Presidente devem estar a dar voltas na tumba. Sem tecer mais considerações com o aspecto mais esotérico das afirmações, o que mais choca é ser-lhes totalmente inconcebível conceber a diferença, o pensamento diferente, a oposição (tout court). E isto agravado pela obrigação familiar em estar do "único lado da verdade", presumo…! Talvez seja (igualmente) bom alguém dizer-lhes quem foi o Presidente Mitterrand e quais alguns dos seus actos (como o atentado contra o Rainbow Warrior ordenado por" tão casta e venerável figura" – o ambiente é sempre uma flor da lapela da esquerda).




Ou seja: talvez seja melhor a esquerda francesa (e já agora a europeia) começar a frequentar os consultórios de psicanálise e similares. É que a recusa da realidade e a criação de um mundo paralelo começam a ser por demais evidentes e por demais patológicos! Eu, com sobranceria, até já começo a ficar constrangido!...








© Sofá de Freud.

domingo, 21 de junho de 2009

El pastorcico

Un pastorcico solo está penado,
ajeno de placer y de contento,
y en su pastora puesto el pensamiento,
y el pecho del amor muy lastimado.

No llora por haberle amor llagado,
que no le pena verse así afligido,
aunque en el corazón está herido;
mas llora por pensar que está olvidado.


Que sólo de pensar que está olvidado
de su bella pastora, con gran pena
se deja maltratar en tierra ajena,
el pecho del amor muy lastimado.


Y dice el pastorcito: ¡Ay, desdichado
de aquel que de mi amor ha hecho ausencia
y no quiere gozar la mi presencia,
y el pecho por su amor muy lastimado!


Y a cabo de un gran rato se ha encumbrado
sobre un árbol, do abrió sus brazos bellos,
y muerto se ha quedado asido dellos,
el pecho del amor muy lastimado




San Juan de La Cruz





© Salvador Dali, Cristo de São João da Cruz, 1951