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quinta-feira, 21 de maio de 2009

In Memoriam JBC

Em homenagem e in memoriam de João Bénard da Costa. Porque Portugal fica mais pobre. Porque o cinema em Portugal perde um dos seus grandes estudiosos e amadores. Porque a memória cinematográfica portuguesa muito lhe deve. Porque, para mim, a Cinemateca tinha um rosto. Porque cresci com ele. Porque (nos tempos em que ainda lia o Público) ensinou-me a gostar e a vibrar com o que via nas telas. Porque me ensinou a magia e o fascínio e o encanto - o cinema. Porque estou certo que o seu além será um cinema paradiso



Palmas, pois! Obrigado e a_deus!






sexta-feira, 1 de maio de 2009

Kafka de comboio


Depois de um passeio pelo coração lisboeta, dirigi-me calmamente à Estação do Oriente (se há coisa que me dá cabo do senso é a mania do galicismo "Gare") a fim de apanhar um comboio que me trouxesse de volta às terras templárias. Como já ia em cima da hora daquele que tinha pensado apanhar, e havendo ligações de hora em hora, resolvi ir comprar o bilhete com antecedência para depois me deliciar com um gelado-frente-ao-Tejo no Vasco da Gama. Subi as escadas que separam o Metro das bilheteiras dos comboios e… o choque! A Estação do Oriente estava transformada numa espécie de zona de caos, entupida de gente, que, pensei eu, abandonava a cidade na sequência da declaração da quarentena motivada pela pandemia-seja-ela-qual-for-mas-vamos-todos-morrer-com-a-peste! Antes fosse… Resolvido a não perder tempo, procurei uma bilheteira com menos clientes. Como a imediatamente oposta estava em idêntico estado caótico, fui para a outra ponta da estação onde – via eu – estavam bilheteiras abertas quase sem ninguém. Esquecia-me eu que em Portugal nunca nada é assim tão simples… Lá chegado e após fazer o meu pedido fui caridosamente informado pelo funcionário da CP que ali só se vendiam bilhetes para comboios suburbanos, devendo-me eu dirigir às sobrelotadas bilheteiras do outro lado. (Respiro fundo). E lá vou eu. O caos continuava, por isso resolvi procurar a fila mais curta para as "úteis" máquinas de bilhetes, na esperança de ainda ter tempo para o meu geladito. (Respiro fundo). Ao fim de 10 minutos, quando faltava apenas uma pessoa antes de mim, o papel acabou e aquela máquina (entretanto a única máquina na Estação a emitir bilhetes, à excepção daquelas destinadas "apenas aos comboios suburbanos" – dupla inspiração funda) tornou-se inútil. (Respiro fundo). Já tomado de, posso dizê-lo, algum azedume, lá enfrentei a fila para uma bilheteira, a qual, começando já a atravessar uma das pontes que ligam ambos os lados da estação, ameaçava encontrar-se com a fila da bilheteira contrária… Atrás de mim um rapaz do norte quase acabava o namoro (?) enquanto berrava com a sua cada-vez-menos-mais-que-tudo que insistia em não perceber/escutar/compreender uma palavra das que ele vociferava em desespero, sem saber se tinha comboio para ir para o "Puerto" e depois para "Nine". De um lado para o outro havia famílias inteiras a correr confusas, a pedir papel para as máquinas, agarradas aos telemóveis com mais interrogações do que respostas, ou simplesmente gente que, já sem comboio (os anúncios de comboios esgotados sucediam-se) sentava-se a pensar no que ia fazer. (Respiro fundo). Vinte minutos depois, chegou a minha vez e pude – finalmente – comprar bilhete. Entretanto o "meu gelado" já tinha ardido, e portanto, só me restou comprar uma "sandocha" e um sumo e ir para a plataforma…



O comboio chegou e nele, nós os refugiados em fuga, conseguimos entrar. Apenas entrar porque era tanta gente apinhada que eu, excentricamente claro está, apenas consegui sentar-me à partida de Santarém (isto, apesar de um distinto Deputado da Nação pelo PEV nunca ter cedido o seu lugar sentado a nenhuma das pessoas a que as regras mandam dar… educações!). Valeu-nos a sorte de termos um revisor que com calma, educação e simpatia conseguiu ir levando a água ao seu moinho, sem problemas de maior, apesar de por lá ter permanecido praticamente todo o tempo em que eu estive de pé. (Respiro fundo prolongadamente).




Alguém poder-me-á explicar por que raio a empresa que todos pagamos com os impostos não é capaz de cumprir com a missão para a qual foi criada? Alguém poder-me-á explicar porque é que, sendo véspera de feriado, de fim-de-semana prolongado, em tempos de crise (logo, não é preciso ser sobredotado, a afluência será sempre maior), a CP é incapaz de: a) colocar comboios a circular que respondam à procura? b) ter bilheteiras em número suficiente para esse aumento de procura? E já agora: em face do caos instalado na "estação central da capital", porque não há medidas de urgência, de adaptação que permitam uma resposta eficaz à procura dos clientes? Mas passa pela cabeça de alguém que, uma empresa cujo objectivo é "transporte de passageiros e mercadorias por via ferroviária" veja isso como uma actividade excedentária? Mas então serve para quê? Apenas para consumir fortunas anuais dos nosso impostos para financiar a incompetência e o laxismo? É pedir muito que me possa deslocar (mais ecologicamente, ainda para mais!) de comboio sem que para isso me sinta sempre no terceiro mundo? Será pedir demais não querer sentir-me enxovalhado junto dos inúmeros turistas que deambulavam (espantadíssimos, claro está!) pelo meio da confusão, porque o meu país simplesmente não consegue funcionar em termos "europeus"? E ainda querem um TGV? Mas para quê se nem para os comboios regionais servem?!



E já agora: alguém poder-me-á informar quando é que Kafka passou a ser obrigatório nos nossos serviços públicos? Desde já muito agradecido! (Respiro fundo)



P.S. Profeticamente o livro que me acompanhava nessa viagem era Carta ao pai de Franz Kafka…


© Imagem aqui.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Pouca-terra Pouca-terra

Ontem, a CP encerrou as linhas do Corgo e do Tâmega sem avisar ninguém. Contava com o silêncio de todos e fê-lo pela calada, desprezando toda a gente. Mas a culpa não é da CP; é, antes, de todos os pacóvios que transformaram o país num tapete de asfalto, bom para a camionagem, para as empresas de obras públicas e para o consumo de gasolina. Em vez de investir em comboios e serviços decentes para passageiros e mercadorias, os sucessivos governos destruiram um património secular e uma parte da nossa geografia cultural – tudo em nome das ‘grandes obras’ e do ‘grande dinheiro’. Hoje há pouco a fazer. Há alcatrão, cimento, camionagem e gasóleo. Tudo caro. Os comboios portugueses inventaram um país, povoaram-no, desenharam a nossa geografia. Era um país mais bonito do que este.

Francisco José Viegas





Desde que me lembro que gosto de comboios. Gosto de comboios, ou melhor ainda, prefiro-os, da mesma maneira que prefiro gatos a cães. I'm a train person, i believe! Gosto do espaço, da liberdade que me dão, do som, dos bares, da paisagem a desfilar cuidadosamente, da vertigem da velocidade. Gosto de carris. Tanto gosto das velhas estações com velhos relógios e bancos esquecidos do tempo que passou por eles, como gosto das novas, luminosas e frenéticas onde tudo é feito para ser à pressa. Porque me defino (parafraseando uma vez mais o Francisco José Viegas) como liberal à moda antiga, vejo o comboio como um símbolo de progresso. Tal como o foi quando, há já mais tempo do que lembramos, as velhas máquinas a vapor começaram a sulcar os campos, a assobiar o seu apito nas curvas, levando "a civilização moderna e cosmopolita" como ela era concebida às cinco partidas do mundo. (Sou também um modernista aprés le temps, cujo fascínio pelas máquinas do progresso é inesgotável!) Talvez por isso também goste dos Metropolitanos, não sei! Talvez seja por me evocarem (sendo-o, também, diferentemente) os comboios e a época em que eram uma novidade e o mundo girava mais saborosamente. Gosto de comboios, tal como gosto de despedidas e partidas. E de chegadas.



Cresci numa família que tudo fez para que os comboios sulcassem estas terras a caminho das Beiras, acreditando no progresso por eles trazido. Uma família que sempre gostou de comboios. Daqueles que levavam os cabazes à família lisboeta abastecendo-a de hortaliças, vinho, pão, azeite, carne, fruta e até empadas acabadas de fazer. E que na volta traziam as velhas embalagens de Lactosimbiosina, o Malte da Portugália, um casaco dos Armazéns e as "exóticas" bananas . Cresci a ouvir as histórias desses cabazes que durante décadas ligaram uma família unida no amor e nas cartas trocadas diariamente, antes do telefone e da era digital em que vivemos. Os comboios serão, também por isso, teares da ternura.



Assim sendo, sempre que se encerra um metro de linha, ou se transforma mais um quilómetro nas inefáveis, novas-ricas e irritantes "ecopistas", sinto-me mais pobre. Sinto-nos mais pobres. E mais atrasados. E mais distantes. Não partilhando da americana celebração orgástica pelo automóvel, sinto-me europeu quando prefiro o comboio. Por isso defendo uma rede ferroviária nacional de Bragança a Vila Real de Santo António, sem TGV's desnecessários (com as honrosas excepções das ligações a Madrid e Vigo), mas com comboios de qualidade: eficientes, limpos, pontuais, regulares, silenciosos e económicos. Acredito que isso faria mais por este pobre país estilhaçado, do que mil quilómetros de auto-estradas. Acredito que novas linhas deveriam ser traçadas e construídas, e que outras tantas deveriam ser reabilitadas, modernizadas e reanimadas. Uma verdadeira rede a ligar as capitais de distrito e as cidades principais, com ligações aos metropolitanos para a circulação intra-urbana. Uma rede que fomentasse a coesão nacional, o transporte de mercadorias (mais barato e ambientalmente profícuo) e o lazer. Uma rede que poupasse a importação de combustíveis fósseis e que procurasse a autonomia energética. Uma rede ferroviária moderna, cosmopolita, e por isso mesmo, tradicional, próxima, característica.



Enfim…Um sonho e um devaneio nos tempos que correm, presumo!



© Imagem nesta linha.