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sexta-feira, 12 de junho de 2009

ADN da democracia

A The Economist publicou recentemente um Democracy Index relativo a 2006, ou seja, uma lista ordenada dos países mundiais organizados tendo em vista a qualidade das suas democracias (ou a ausência de uma e da outra). Cinco factores foram tidos em consideração para esta análise: a) O Processo Eleitoral e o Pluralismo; b) O Funcionamento do Governo; c) A Participação Política; d) A Cultura Política; e) As Liberdades Civis.


Portugal obteve o 19º lugar entre 167 países. Mas há algumas coisas que saltam à vista e são evidentes. Entre as dez melhores democracias mundiais, oito são europeias (se olharmos para as vinte primeiras o número sobe para dezasseis). Os primeiros lugares são ocupados pelos países nórdicos com a Suécia a liderar. O que também não deixa de ser curioso é que, dos dez primeiros países, sete são monarquias (e, em vinte, metade são monarquias). E é curioso por dois motivos: por um lado, as monarquias estão em muito menor número no mundo do que as repúblicas; por outro, a propaganda republicana sempre proclamou uma suposta superioridade de regime em face da forma monárquica, coisa que não se confirma se olharmos às altas pontuações que as monarquias obtêm, por exemplo no que às Liberdades Civis diz respeito: apenas oito países conseguem pontuação máxima, sendo que de entre esses, seis são monarquias!



Já as dez piores incluem nove repúblicas e uma monarquia. E se olharmos para as vinte piores, dezoito são repúblicas e apenas duas são monarquias (a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos).


Coincidências? Não creio!




© Imagem aqui.

domingo, 7 de junho de 2009

Diárias-notas de campanha

- Cada vez gosto menos de campanhas eleitorais com imenso espavento e circo. Cada vez as entendo menos. Porque não são necessárias. Porque ninguém fica mais esclarecido. Porque só servem como sorvedouro de fundos, como desperdício. Gosto sim deste tipo de campanha: barata, directa, eficaz. A campanha das ideias e dos ideais. Gosto da atitude, da disponibilidade para servir e para resolver os problemas (afinal, uma das raízes da política). Ao fim e ao cabo gosto de uma campanha que parta de uma simples questão: em que posso ajudar para transformar a sua vida?

- Apesar do cansaço evidente com a política e os políticos somos bem recebidos. Somos bem entendidos. Somos apoiados e gostados. Sem encenações: nota-se no olhar das pessoas, nota-se nos pequenos gestos, nota-se nas pequenas cumplicidades. Apesar de tudo a esperança ainda vive nos seus olhares. E nos nossos.


- Reforço a minha ideia da má imprensa que temos. Do mau jornalismo que temos. É chocante vermos como as coisas se processam nos bastidores. São sempre os mesmos que seguem, dia a dia, a campanha. Isso tira força às abordagens, consome-as por dentro. Ora são cúmplices ora são carrascos. Sendo a apregoada isenção jornalística uma das grandes balelas do tempo contemporâneo (nenhum olhar é isento), aquilo a que assistimos em Portugal é preocupante. Vejo uma peça sobre a campanha socialista em que tudo o que ficámos a saber do dia inteiro foi que Elisa Ferreira (a candidata a tudo que "só lá vai assinar o nome") se perdeu dos restantes colegas de campanha. E que ninguém sabia do seu paradeiro; das actividades, das propostas (a haver), do decorrer da campanha nem uma palavra – só o circo lhes interessa. Temos um jornalismo de polémica. Se as não há, inventam-se. Infelizmente é isso. Polemos no governo da polis. Nada mais. Infelizmente é pouco.


- Visitámos bons exemplos – o Lar da Misericórdia de Aveiro, a Quinta da Conraria (em Coimbra) da Associação de Paralisia Cerebral, a Adega Cooperativa de Almeirim. Que bom conhecê-los! Que pena que o resto não seja (no mínimo) assim!


- Oiço dizer uma coisa (a quem sabe) que me deixa a pensar: "as sondagens só servem para pôr os políticos a falar das sondagens". Pena é (acrescento eu) que continuamente falseiem a verdade sem qualquer consequência.


quarta-feira, 20 de maio de 2009

CSI Tuga

Leio, no DN, num artigo sobre o "CSI Tuga", um comentário do director do Laboratório Nacional da Polícia Científica, sobre as séries televisivas inspiradas no universo da investigação criminal (de que o CSI é, talvez, o exemplo mais famoso). Diz ele que "nós [eles lá no laboratório] não somos tão bonitos como eles, mas a principal diferença é a ideia de tempo", não só no que se refere ao tempo dos resultados das análises, mas também no que se refere aos dados a que os investigadores têm acesso: "ninguém acede a tanta informação com um simples toque de botão. Além disso, se qualquer polícia pudesse aceder a informação dessa forma, teríamos um big brother, uma sociedade sem o equilíbrio entre justiça e liberdade".



É curioso. Eu sempre que vejo essas séries televisivas (preferindo o CSI Las Vegas em relação às outras, as quais considero inferiores), à parte das considerações estéticas – que me eximo de comentar por não conhecer a realidade lusitana – penso sempre: bolas! Que bom seria se as nossas policias funcionassem assim! (descontando, claro está, a rapidez com que tudo acontece, coisa normal no universo televisivo). Mas lá está: eu acho mais importante apanhar os criminosos do que garantir supostos direitos da liberdade; é que a liberdade preserva-se e guarda-se impedindo que os dados pessoais caiam nas mãos erradas, sejam usados para fins ilegais, ou sirvam para perseguir os inocentes. Ou seja: a liberdade preserva-se pela via da estrita legalidade. E preserva-se apanhando, julgando e condenando os que infringem a lei. No extremo desta corrente deixaremos de prender os criminosos, porque é uma maçada e um atentado ao seu inalienável direito ao liberdade… Ah, pois é: já o fazemos!...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Kafka de comboio


Depois de um passeio pelo coração lisboeta, dirigi-me calmamente à Estação do Oriente (se há coisa que me dá cabo do senso é a mania do galicismo "Gare") a fim de apanhar um comboio que me trouxesse de volta às terras templárias. Como já ia em cima da hora daquele que tinha pensado apanhar, e havendo ligações de hora em hora, resolvi ir comprar o bilhete com antecedência para depois me deliciar com um gelado-frente-ao-Tejo no Vasco da Gama. Subi as escadas que separam o Metro das bilheteiras dos comboios e… o choque! A Estação do Oriente estava transformada numa espécie de zona de caos, entupida de gente, que, pensei eu, abandonava a cidade na sequência da declaração da quarentena motivada pela pandemia-seja-ela-qual-for-mas-vamos-todos-morrer-com-a-peste! Antes fosse… Resolvido a não perder tempo, procurei uma bilheteira com menos clientes. Como a imediatamente oposta estava em idêntico estado caótico, fui para a outra ponta da estação onde – via eu – estavam bilheteiras abertas quase sem ninguém. Esquecia-me eu que em Portugal nunca nada é assim tão simples… Lá chegado e após fazer o meu pedido fui caridosamente informado pelo funcionário da CP que ali só se vendiam bilhetes para comboios suburbanos, devendo-me eu dirigir às sobrelotadas bilheteiras do outro lado. (Respiro fundo). E lá vou eu. O caos continuava, por isso resolvi procurar a fila mais curta para as "úteis" máquinas de bilhetes, na esperança de ainda ter tempo para o meu geladito. (Respiro fundo). Ao fim de 10 minutos, quando faltava apenas uma pessoa antes de mim, o papel acabou e aquela máquina (entretanto a única máquina na Estação a emitir bilhetes, à excepção daquelas destinadas "apenas aos comboios suburbanos" – dupla inspiração funda) tornou-se inútil. (Respiro fundo). Já tomado de, posso dizê-lo, algum azedume, lá enfrentei a fila para uma bilheteira, a qual, começando já a atravessar uma das pontes que ligam ambos os lados da estação, ameaçava encontrar-se com a fila da bilheteira contrária… Atrás de mim um rapaz do norte quase acabava o namoro (?) enquanto berrava com a sua cada-vez-menos-mais-que-tudo que insistia em não perceber/escutar/compreender uma palavra das que ele vociferava em desespero, sem saber se tinha comboio para ir para o "Puerto" e depois para "Nine". De um lado para o outro havia famílias inteiras a correr confusas, a pedir papel para as máquinas, agarradas aos telemóveis com mais interrogações do que respostas, ou simplesmente gente que, já sem comboio (os anúncios de comboios esgotados sucediam-se) sentava-se a pensar no que ia fazer. (Respiro fundo). Vinte minutos depois, chegou a minha vez e pude – finalmente – comprar bilhete. Entretanto o "meu gelado" já tinha ardido, e portanto, só me restou comprar uma "sandocha" e um sumo e ir para a plataforma…



O comboio chegou e nele, nós os refugiados em fuga, conseguimos entrar. Apenas entrar porque era tanta gente apinhada que eu, excentricamente claro está, apenas consegui sentar-me à partida de Santarém (isto, apesar de um distinto Deputado da Nação pelo PEV nunca ter cedido o seu lugar sentado a nenhuma das pessoas a que as regras mandam dar… educações!). Valeu-nos a sorte de termos um revisor que com calma, educação e simpatia conseguiu ir levando a água ao seu moinho, sem problemas de maior, apesar de por lá ter permanecido praticamente todo o tempo em que eu estive de pé. (Respiro fundo prolongadamente).




Alguém poder-me-á explicar por que raio a empresa que todos pagamos com os impostos não é capaz de cumprir com a missão para a qual foi criada? Alguém poder-me-á explicar porque é que, sendo véspera de feriado, de fim-de-semana prolongado, em tempos de crise (logo, não é preciso ser sobredotado, a afluência será sempre maior), a CP é incapaz de: a) colocar comboios a circular que respondam à procura? b) ter bilheteiras em número suficiente para esse aumento de procura? E já agora: em face do caos instalado na "estação central da capital", porque não há medidas de urgência, de adaptação que permitam uma resposta eficaz à procura dos clientes? Mas passa pela cabeça de alguém que, uma empresa cujo objectivo é "transporte de passageiros e mercadorias por via ferroviária" veja isso como uma actividade excedentária? Mas então serve para quê? Apenas para consumir fortunas anuais dos nosso impostos para financiar a incompetência e o laxismo? É pedir muito que me possa deslocar (mais ecologicamente, ainda para mais!) de comboio sem que para isso me sinta sempre no terceiro mundo? Será pedir demais não querer sentir-me enxovalhado junto dos inúmeros turistas que deambulavam (espantadíssimos, claro está!) pelo meio da confusão, porque o meu país simplesmente não consegue funcionar em termos "europeus"? E ainda querem um TGV? Mas para quê se nem para os comboios regionais servem?!



E já agora: alguém poder-me-á informar quando é que Kafka passou a ser obrigatório nos nossos serviços públicos? Desde já muito agradecido! (Respiro fundo)



P.S. Profeticamente o livro que me acompanhava nessa viagem era Carta ao pai de Franz Kafka…


© Imagem aqui.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Anjos e demónios

No dia 4 de Março de 2001 um grupo de cidadãos, decididos a desfrutar do espectáculo proporcionado pela anunciada chegada da Primavera, organizou-se e rumou às belas paragens transmontanas. Lá contemplaram a beleza etérea que o espectáculo das amendoeiras em flor lhes pôde proporcionar e, de pupilas ainda não refeitas de tanta beleza, voltaram a casa. Ao contrário de Ulisses, ainda não regressaram. Ainda hoje, os corações daqueles que amam as 59 vítimas mortais da "tragédia de Entre-os-Rios" certamente se sobressaltam sempre que alguém bate à porta: principalmente os familiares e amigos das 33 vítimas cujos corpos nunca foram recuperados. Cujo luto nunca pôde ser fechado, se algum, algum dia puder, efectivamente, ser fechado. A odisseia continua. A colcha não pode ser acabada.

Os factos são bem conhecidos. Os pilares da vetusta Ponte Hintze Ribeiro não aguentaram o peso do seculum e cederam precisamente à passagem daquelas almas banhadas da beleza da criação. Os inquéritos deram o de sempre: nada. A culpa, já habituada à má fama, lá foi morrer solteira para o seu triste e solitário canto habitual. Os que cá ficaram tiveram a sua boca "adoçada" pelas palavras licenciosas dos políticos e pelos cheques convertidos em "investimento público" na região. O tempo correu, como corre sempre, o Douro escorreu, como escorre sempre, e o fundo das águas deu o merecido repouso a quem as teve como última casa no mundo. Como é óbvio nunca foram apurados culpados, porque em Portugal nunca há culpa: há apenas uma ligeiríssima impressão maçadora que passa com o silêncio. E o tempo.


Eis que de repente ouvimos dizer que as famílias receberam uma conta astronómica (li algo à volta de 400 mil euros em custas judiciais) para pagar. Rapidamente houve quem viesse desmentir e dizer que "afinal são só cerca de 57 mil euros"… É nestas alturas que acho que a falta de vergonha na cara e de decência é ilimitada!!! Quer dizer, para além da perda (irreparável) dos familiares, para além de todo o tempo que passou, para além de ninguém pagar (e exemplarmente!) pela culpa que teve, ainda têm de pagar ao excelso Estado que nada fez para os proteger (como era seu dever) ou para os redimir (como era seu dever). O Estado Português converteu-se, definitivamente, num estado vadio. Um Estado falhado. Um Estado sem palavra nem honra. Um Estado ladrão. Um Estado cúmplice de assassínio e extorsão! É disto que se trata. Exigir custas a quem, simplesmente, exigia que o Estado fizesse o seu papel – que fosse Estado, em suma – é simplesmente inacreditável e inaceitável! Se é para isto, então mais vale mesmo entregar as chaves em Badajoz e pedir asilo… Começa a ser demais para valer a pena!




P.S.1. Ouvi também, a propósito disto, uns pedidos ao Sr. Presidente da República e a Sua Excelência o Sr. Ministro da Justiça, no sentido de Suas Excelência moverem a sua influência para que as ditas custas sejam perdoadas (ou assumidas pelo Estado como, me parece, é seu dever e obrigação!). Macacos me mordam se este pedido, e o seu eventual atendimento pelas altíssimas figuras acima mencionadas, não configura o esboroar do que resta da separação de poderes!!! Quer dizer: a Justiça, a douta Justiça decide e o poder legislativo intervém noutro sentido… devo ser eu que não estou bem a ver a coisa…




P.S.2. Parece-me que os nossos agentes judicias andam a precisar de umas aulinhas básicas sobre a Justiça e o Justo. "O que é a justiça?", "O que é o justo?", "Qual a diferença entre o justo e o conforme à lei?", "O injusto do justo", eis alguns dos temas que poderiam ser aprofundados, e que eu, generosa e justissimamente, desde já proponho. E quem diz "aprofundados", diz estudados pela primeira vez; algo me diz que nunca nos nossos tribunais se ouviu falar de tais esoterismos e minudências






© Anjo de Entre-os-Rios.

domingo, 29 de março de 2009

Dicionário do Eu I

Vejo-me como tradicionalista-modernista! Tradicionalista, porque defensor da Tradição, do Cânone, como ponto de partida, de assentamento, de fundação de tudo o que se construir. Acredito que sem uma forte noção de tempo, de passado, sem um conhecimento aprofundado desse mesmo passado, da História, das tradições, não há futuro, não há progresso, não há sabedoria. Acho que só assim poderemos procurar evitar os erros já cometidos, só assim podemos carregar a herança que nos foi legada, só assim transmitimos aos vindouros o que nos foi ensinado – e é nisso que residem as Nações, os Povos, as Culturas, as Religiões. Mas essa transmissão, esse respeito pela tradição, nunca pode ser uma mera conservação em formol. Não. Isso é a morte da tradição. A tradição, tal como a religião (e o Catolicismo é óptimo para perceber isso!), tem de reinventar-se a cada momento, a cada gesto, a cada repetição. No espírito daquele velho provérbio que diz: quem conta um conto acrescenta um ponto.

E modernista no espírito dos Modernistas de início do século XX. Tenho uma crença e um fascínio, totalmente infundados no futuro, nesse futuro enraizado na tradição. Fascinam-me as coisas novas, o novum, o advento. Sou um curioso das máquinas, apesar de nada perceber delas; mas gosto das novidades, da novidade, do que vem do que chega, do que está-a-vir… Partilho alguma da crença no progresso, nos avanços da civilização (como então se dizia), mas sem tentações positivistas ou cientistas (que aliás abomino particularmente). Talvez, isso, explique porque sou ritualista; e isto no sentido de gostar de rituais (por exemplo, religiosamente, quanto mais ritualizada for uma cerimónia, mais ela me encanta), de precisar de rituais e da ligação que eles estabelecem. Porque é bom saber que o rio continua a correr para além de nós, que o tempo não pára por nossa causa, e que a nós cabe o lugar único de receber e transmitir o legado. O futuro é só o herdeiro da tradição.

©Guilherme Santa-Rita, Cabeça, 1910

sábado, 7 de fevereiro de 2009

O rapto de Europa

Esta última semana é pródiga em notícias incríveis. E por incríveis falo de coisas que me põem os cabelos em pé, que me entristecem, que me fazem lamentar o estado do mundo, e até (nas horas de maior estupefacção), achar que não sou, definitivamente, deste mundo! (e como diria uma velha Mestra, "o segredo é o "deste")

Vamos lá então, sem ordem cronológica, pegar os toiros pelos cornos.

Aborto e UE

Farto até à medula deste tema (desde o último referendo, em que discuti o tema diariamente, durante cerca de 3 meses, até ao puro vómito), volto a ele hoje por duas notícias recentemente saídas na imprensa:

[Apenas um aviso prévio para os que não me conhecem bem, para os que ainda não me conheciam à data, para os que só agora aqui caíram, envolvi-me na campanha do último referendo ao aborto (ou como o politicamente correcto alter-inter-nacional gosta de dizer, a "interrupção voluntária da gravidez") pelo lado do Não. Sem mais demoras, filosófica e politicamente era, sou, e serei partidário do equilíbrio presente na anterior lei, que protegendo os direitos de ambas as partes presentes na equação (criança e pais) – o primeiro dos quais é o direito à vida – contemplava também as excepções comummente admitidas como aceitáveis (do mesmo modo que a Lei admite a auto-defesa como legitimadora de violências extremas, não admitidas em condições normais). Considero a actual lei um erro que nem crasso será, por ser mais grave, por implicar um sério retrocesso civilizacional (com uma capa aparentemente moderna e progressista), por implicar uma concepção de desresponsabilização do homem (sobretudo) e da mulher (a quem agora cabe todo o ónus), por implicar uma queda dos princípios humanistas que defendo e partilho, por significar o afastamento da sociedade liberal onde gostaria de viver.]

Ora bem, esta semana soubemos que o Estado Português foi condenado ao pagamento de uma multa às associações que organizaram a tentativa de atracagem do famoso "barco do aborto", pertencente ao "grupo activista" (seja isso o que for) graciosamente denominado Women on Waves. Ao que parece, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos considera que a decisão do Governo Português significou um limite à "liberdade de expressão". Como não me recordo de ter havido ninguém silenciado (muito pelo contrário!), nenhuma cela do Aljube ou de Caxias foi reaberta para acolher os presos políticos, ninguém foi impedido de exercer livre e tontamente a sua liberdade de expressão (inclusive com os "clássicos" "a barriga é minha" e outros dislates que tais!). Aliás de limites à liberdade de expressão é coisa que as associações de defesa do Sim não se podem queixar, dado o vasto coro de apoio que tiveram na imprensa (dita) de referência. Estranho mundo este em que um Estado (ainda) soberano é condenado internacionalmente por fazer cumprir a legislação nacional! Este caso é tão disparatado e, abrindo um precedente perigoso, mostra tão bem o disparate em que andam as organizações da (dita) "governança mundial" (e que impedirá, a médio e longo prazo, essas mesmas organizações de exercerem o desígnio para que foram criadas, com Justiça, Equilíbrio e Serenidade), que é por demais evidente! Agora, um qualquer movimento que defenda uma qualquer prática punida na legislação de um dado estado europeu, pode queixar-se de falta de liberdade de expressão por não o deixarem realizar as ditas práticas nos termos que bem lhe apeteçam! É verdadeiramente incrível, lá está! E por este caminho (e pelos outros que temos visto com o processo de aprovação do Tratado de Lisboa) muito longe estará esta Europa de ser qualquer coisa senão uma cópia infeliz e disparatada do federalismo americano (para pior, porque lá, cada Estado tem legislação diferente do vizinho e não consta que isso seja um impedimento ao funcionamento do todo, muito pelo contrário: é uma das suas riquezas!)

Também esta semana (ou pelo menos no fim da semana passada) soubemos que, apesar das mentiras do Sim na campanha, o óbvio aconteceu: uma clínica ilegal de abortos foi desmantelada pela polícia, e azar dos azares, até tinha uma mulher a praticar um aborto (e que, num dos artigos que li, apesar da imensa campanha realizada nos últimos meses, apesar de já ter ultrapassado o limite máximo legal para a realização de um aborto, apesar de ter feito um aborto há quatro meses, estava, obviamente, claro está, "pouco informada sobre a nova lei"… Nada que espante no jornalismo que temos, basta lembrar que até casos da década de 60 foram usados há um ano para atacar a lei então vigente. Enfim…). Ora bem, o que acontecerá agora? Será que é um dos "julgamentos da vergonha" que tão abjectos eram? Será que é "uma devassa inqualificável da vida privada" como antes acontecia? (sim, porque qualquer caso de justiça penal não é uma "devassa" da vida privada de alguém…) Será que até haverá condenados? Será que esta enfermeira ainda é uma corajosa e intrépida defensora dos "direitos" das mulheres? Ou não? Fico à espera. Mas o reduzido alarido do caso já me diz alguma coisa… Nem me espantarei se, um dia destes, o processo não for "arquivado por falta de provas" e tudo acabar em águas de bacalhau. Afinal, quando as máscaras caem aos farsantes o que se vê nunca é bonito…

Eutanásia ou Da Civilização que temos

Correndo o risco de parecer alinhar na agenda do Bloco e outros alter-democratas que tais, de Itália chega-nos um caso complicadíssimo, tristíssimo e exemplar de como o político anda pelas ruas da amargura. O Caso Eluana Englaro. Independentemente da convicção que se tenha a respeito do caso (eu admito, não tenho nenhuma resposta definitiva para o caso, já que me parecem estimáveis os argumentos de ambas as partes) tão tocante é a imagem de um pai que quer deixar a sua filha morrer, como o é a defesa do princípio da vida como algo inalienável ao humano. E não tragamos para aqui os argumentos religiosos (apesar de crente, julgo que, ao nível médio do debate, o argumento religioso não ajuda, como pelo contrário, só atrapalha; o que não quer dizer que a Igreja não possa e deva pronunciar-se; quer sim dizer que já que eu não sou clero, é bom que fale por mim, não me limitando à mera comunicação ventríloqua). Está aqui presente (de resto como também na questão do aborto, apesar dela ser reduzida aos argumentos feministo-rançosos da geração beauvoiriana de 68) uma questão civilizacional. Aliás, de maneira enviesada, os defensores da eutanásia recordam-no sempre que colocam os seus adversários no campo da Igreja Católica. Todo o humanismo é fiel devedor do semitismo, do judaico-cristianismo, tanto, ou mais, do que é devedor do ramo helénico (que, é bom lembrar, também comporta Esparta, tão distante dos princípios humanistas como o diabo da Cruz). Ora, a civilização europeia, ocidental, proclamadora dos valores da liberdade (de propriedade, individual, de consciência, de expressão) é devedora do humanismo, logo, de Atenas e Jerusalém (e Roma, e Esparta, e Bizâncio, e Alexandria). São inúmeros os filósofos que o sublinham, como é o caso de Derrida e Lévinas (só para falar dos contemporâneos que me tocam o coração). Ora, a defesa do "direito a morrer" é uma clara violação desses princípios, curiosamente em nome dos quais é reivindicado. Aliás é triste (e mais uma vez incrível) que o seu contrário (o "direito a nascer") não seja uma reivindicação do mundo contemporâneo. Quer-se a morte, mas não a vida. E se isto, para um crente, apesar dos apesares, até acabe, por fim, por não fazer muita impressão, para os ateus e agnósticos é quase inacreditável que o desejem. Porque isso, para eles, é o niilismo total e absoluto. Ora, assim sendo, de onde resulta a defesa deste "direito" (e o "direito" de algo que não está nem nunca esteve no arbítrio da nossa vontade - do mesmo modo que ninguém nasce porque quer, o contrário deve também ser verdadeiro - é obra!)? O que os leva a defender algo que vai contra a matriz dos princípios que (dizem) partilhar? Eu julgo que a única explicação está num certo jacobinismo do pensamento moderno que vê, na Igreja Católica e em tudo o que ela defender, um alvo a abater. De tanto atacarem o Vaticano esqueceram-se que partilhavam com ele, nada mais, nada menos do que a civilização! E isto apesar de estarem sempre prontos para o apedrejar por causa dos erros do passado (Inquisições, intolerância religiosa, anti-judaísmo, etc.), mas nunca se fazerem ouvir para condenar os fanatismos não católicos (e eles são mais que muitos, não só entre as outras religiões como entre as não-religiões como o ateísmo), à excepção de Israel, sempre vilipendiado por tudo quanto faça ou deixe de fazer! Incrível! Mas sobre o caso que apaixona a Itália, pouco tenho a dizer. A decisão sobre o caso nunca é fácil, nunca é clara e distinta. Seria bom que o debate pudesse ter decorrido sem o frenesim e o puro espectáculo novelesco dos nossos tempos. Seria bom que o Governo não decidisse fazer uma lei apenas para impedir a morte de uma jovem ligada às máquinas há anos e anos, assim como seria bom que o caso dessa mesma rapariga não fizesse jurisprudência (e se deixarmos ouvir a palavra, ela diz tudo, juris_prudência) para outros casos que nunca serão semelhantes. Embora o velho provérbio judaico "quem salva uma vida salva o mundo inteiro!" seja admirável e deva ser um lema a seguir por qualquer civilização humanista, a questão será sempre o como se salva e o que vida, que tipo de vida, se salva. Eu por mim, continuo a preferir que neste tema (como sempre o defendi para o aborto) seja a Justiça a pesar, a contrapesar e a decidir. Mas uma Justiça que olhe para o caso por isso mesmo: um caso. E o julgue. Individualmente.

Os herdeiros de Kafka

Leio no Sol que um projecto de solidariedade acabou com uma multa do Ministério do Ambiente. Ao que parece trata-se do projecto que visa a troca de cápsulas e tampas (de garrafas, garrafões, etc.) que depois de entregues a uma empresa de reciclagem, rendiam cadeiras de rodas e material ortopédico a quem deles necessitasse na região de Santarém. Os responsáveis pela recolha, seguindo outros exemplos nacionais, conseguiram recolher cerca de 15 toneladas de material, o qual, por evidente dificuldade de armazenamento, acabaram por armazenar num terreno de uma amiga. Ora os nossos diligentes e competentíssimos serviços do Ministério do Ambiente, aplicaram intransigentemente a lei e aplicaram uma coima à proprietária por falta de uma licença para aqueles resíduos no solo. Se isto não viesse daquele Ministério que é incapaz de impedir/punir as descargas criminosas das suiniculturas no rio Lis e seus afluentes (bem como, também, na ribeira que aqui me atravessa a quinta), ou as inúmeras sucatas e lixeiras ilegais que por aí vão subsistindo, até se compreenderia. Agora, sendo deste ministério, e sendo os resíduos destinados à caridade (gosto mais desta palavra do que a tão proclamada e muito impossível solidariedade), é, lá está, mais uma vez, inacreditável! Resta-nos o consolo dos Evangelhos que dizem a estes pobres "infractores" que deles será o Reino dos Céus (ou, no mínimo, terão a eterna solidariedade de Kafka…)!

Os herdeiros de Robespierre

Gerou-se ultimamente um sururu medonho à volta do recente (re)acolhimento dos membros da Fraternidade São Pio X (o movimento fundado pelo Monsenhor Lefévre) no seio da Santa Madre Igreja. Ora, se isto viesse de católicos seria compreensível até certo ponto (embora contraditório com os princípios defendidos pela mesma Igreja), agora vindo dos sectores não católicos é de bradar aos céus! Se mal pergunte, o que é que o mundo em geral, o mundo lá fora, fora da Igreja, têm a ver com os assuntos internos da mesma Igreja? Ora, grande parte do sururu, deve-se às declarações tontas de um Bispo ligado à dita fraternidade acerca do Holocausto da 2ª Guerra Mundial (houve outros). Diz o Sr. que não tem a certeza de que o Holocausto tenha existido, que só sabe que as câmaras de gás eram usadas para banhos, etc., etc. Ou seja, o Sr. partilha da opinião do Presidente do Irão e da esmagadora maioria dos povos árabes e muçulmanos (também não são coincidentes como se pensa). Ora, que se saiba, nunca o Presidente Iraniano e outros que tais foram impedidos de permanecer nas Nações Unidas (que essas sim dizem respeito a todo o mundo), muito pelo contrário: podem até discursar livremente na Assembleia Geral da dita organização, emitir todo o tipo de disparates sobre Israel e os EUA e o grande Satã do Ocidente, sem que qualquer consequência daí advenha. E bem! A liberdade de expressão também passa por aí. Por todos os tontos e malucos e outros e afins poderem exprimir-se sem que daí advenham consequências para a sua vida. Porque raio dentro da Igreja Católica há-de ser diferente? Por ser Bispo? Então os outros são Presidentes de países, o que, politicamente, parece muito mais grave, não?

Depois deram a entender que anterior excomunhão proclamada pelo Papa João Paulo II (de resto uma excomunhão é, por princípio e por definição, alheia ao mundo laico e secularizado) seria motivada pelas suas posições anti-semitas (ou pelo menos, anti-holocausto, o que não é exactamente a mesma coisa). Nada mais falso! A sua excomunhão deveu-se à contestação feita pelo movimento às teses e resultados do Concílio do Vaticano II, rebelando-se contra as alterações que o mesmo produziu no seio da Igreja. Ou seja, deveu-se a questões internas da Igreja Católica (que, se bem me lembro, também foi atacada pela excomunhão do movimento, acusando o papado de intolerância e não aceitação da diferença de opinião). Trata-se pois do típico "morto por ter cão e morto por não ter". Porque Bento XVI enquanto Prefeito da Congregatio pro Doctrina Fidei era um perigoso fanático por aconselhar a excomunhão do movimento rebelde, agora que o acolhe de novo, não só dentro do espírito de perdão cristão, mas também no espírito de abertura às diferenças no seio da Igreja (com um piscar de olhos ao ecumenismo, claro está), é novamente um perigoso fanático se não (re)excomunhar o dito Bispo. Isto não faz qualquer sentido, até porque a excomunhão ou não de alguém no seio da Igreja parece-me assunto pouco ou nada interessante numa sociedade que se diz laica, ateia e separada (logo, etimologicamente, santa!).

Que uma das vozes que se fizeram ouvir nos gritos histéricos seja a da Chanceler Alemã, mais grave é, quando ela é líder de uma formação política que tem por base a doutrina social da Igreja, logo, com obrigação de conhecer melhor estes assuntos e não alinhar na histeria jacobina. Mais interessante é verificar que esta não é extensível aos inúmeros que negam a existência de holocausto na Rússia comunista e nos seus satélites, bem como na Palestina do Protectorado Britânico, e, de um modo geral, às perseguições mortais feitas na esmagadora maioria do mundo islâmico, onde ser judeu, cristão, ateu, agnóstico, laico, budista, hindu ou afim é meio caminho andado para a apostasia que condena à morte.

O Grande Satã

Que a dita opinião pública ocidental é tonta já se sabia. Que é esquerdalha está de ver. Que é marxisto-dependente é óbvio. Que é incoerente, é um pleonasmo com o ponto anterior. Que se tem tornado anti-americana e anti-israelita, é outra triste evidência. Que age e pensa na espuma das coisas é uma literalidade de ser "opinião pública". Que é controlada a partir de certos interesses políticos é que poderá não ser tão óbvio...

Todos nós fomos brindados com a histeria "Acabe-se com Guantánamo". Durante anos ouvimos as mesmas coisas, fomos brindados com a histérica Deputada Europeia Ana Gomes a gritar contra os pseudo-voos que pseudo-transportaram prisioneiros sem o pseudo-conhecimento dos governos europeus para a Base Militar Americana de Guantánamo em Cuba. A mesma foi-nos descrita como a pior de todas as prisões possíveis e imaginárias, um ultraje à dignidade do humano, com evidentes e claras imagens e vídeos a testemunhá-lo. A histeria subiu de tom auto-congratulatório quando o novo Presidente Americano anunciou o fecho, a prazo, desse "campo de concentração dos tempos contemporâneos" como também ouvi caracterizar o local (isto apesar de ser publicozinho que a maioria dos presos está a ser transferida para outros centros de detenção fora dos EUA e em sítios muito mais anónimos do que Cuba). Muito bem. Dando de barato tudo isto acriticamente, a Sábado publicada na última 5ª feira trás um artigo sobre outras 10 ("mais infames") cadeias e campos de trabalho pelo mundo fora. Turquia, Irão, Venezuela, Síria, Rússia, Israel, Tailândia, Coreia do Norte, Malawi, China são os contemplados, o que quer dizer que haverá outros "menos infames" que não estão ali referenciados. Ora, de todas, e em comparação, fica-se com a impressão de que Guantánamo é um campo de férias! Desde a La Sabaneta na Venezuela em que 25 000 almas se acumulam numa cadeia corrupta ao pior estilo Prision Break, até à da Síria descrita por um prisioneiro como "reino da morte e da loucura", há de tudo um pouco, nem faltando os típicos campos de concentração. Sendo assim, porque é que nunca ouvimos falar destes locais? Simples: nenhum deles é administrado pelos EUA. Pior: à excepção do campo de Israel (tão nebuloso que nem ninguém sabe se existe mesmo, parecendo lembrar mais um mito urbano do que outra coisa – até porque a existir exactamente assim já lá tinha o Deputado da Nação Miguel Portas a "solidarizar-se com mais umas vítimas da barbárie israelita", ou outro congénere mundial, que infelizmente há muitos) todas as outras são ou em países exóticos ao "alter-mundialismo" ou (a esmagadora maioria) em países amigos, e amigos porque anti-americanos (ou, como é o caso da Turquia, com uma opinião pública tendencialmente anti-americana, apesar das elites). Tão simples e claro como isto. Tão hipócrita e incongruente como isto. Em resumo: tão falso como isto! Os manifestantes contra Guantánamo fazem lembrar aquelas senhoras de grandes virtudes que vão à Missa todos os dias, que se confessam a toda a hora, para logo a seguir ir pecar na primeira esquina. Tal como a elas é difícil levar a sério esta gente!

Jurisprudência

Já hoje aqui escrevi sobre o cuidado que deveríamos ter ao escutar esta palavra. Infelizmente não pareço ter amigos na Justiça em Portugal, e poucos na (lá vem ela!) opinião pública. Se há coisa que os nossos agentes judiciais pouco conhecem é a prudência, esperando-se que a respeito do juris o mesmo não seja verdadeiro. Esperando-se, sublinho. Não, não vou dissertar sobre o caso Freeport, até porque pouco acredito que alguma migalha da verdade se venha a apurar. Espanta-me apenas a concepção, ao que parece vigente, de que um titular de alto cargo público da nação seja, por definição, mesmo quando as suspeitas sobre ele caem, sempre inocente. Já o ouvi em várias ocasiões, e agora novamente acerca do Primeiro-ministro. Mal alguma suspeita (verdadeira ou falsa não se sabe, aliás a questão passará exactamente por aí) surge, oiço logo dizer que não passa pela cabeça de ninguém que Fulano ou Beltrano seja culpado. Ao que parece, alicerçam este estranho procedimento em democracia (e se calhar estamos mais longe disso do que julgamos) na "presunção de inocência". Ora esta, o que garante é que alguém que é suspeito de uma ilegalidade não seja considerado culpado até trânsito em julgado de uma sentença condenatória. Não presume inocência tout cour a ninguém. Muito menos se esse alguém exerce cargo público de relevo (onde, inclusivamente, a exposição pública e a necessidade de dar o exemplo, o que poderão potenciar, é um escrutínio acima da média - não nos esqueçamos que à mulher de César, não basta sê-lo, é preciso parecê-lo!). Em Portugal, na democracia à portuguesa (que já nem me parece ser a vir, como no filosofema derridiano) oiço dizer que é impensável que (por ex.) o Presidente da República tenha cometido ou cometa um crime! Mais incrível é, quando nem na doutrina do absolutismo régio à francesa, isto acontecia!

Também o "ilustre" constitucionalista e pai da dita portuguesa (o que explica tanta coisa, tanta, tanta!), Vital Moreira, deveria usar e gozar de alguma juris_prudência quando produz disparates como este. É que eu até gosto de jurisprudência, mas nem tanto ao mar nem tanto à terra! Achar que as simples declarações de suspeitos de ilegalidades desmentem a existência das mesmas, é para além de uma aborto filosófico, um aborto jurídico (ou obedecendo à doutrina politicamente correcta, "uma interrupção voluntária do filosófico" e uma "interrupção voluntária do jurídico", respectivamente), ou pelo menos tentativa de desonestidade intelectual (porque nem chega a sê-lo, não consegue sê-lo).



P.S. Pois que hoje, Domingo, Alberto Gonçalves nos seus Dias Contados comenta tão exemplarmente estas mentes brilhantes!

sábado, 6 de dezembro de 2008

E pluribus unum

Porque hoje é sábado fomos presenteados com uma vera amostra do país real (ou irreal, como se preferir). Diz-nos o DN que, na equipa de juniores da Casa do Benfica das Caldas da Rainha, os actos homossexuais no balneário são punidos com multa de 40 cêntimos.

Todo o artigo apela ao senso surrealista de cada um. Ao que parece trata-se de um regulamento interno em que são estipuladas coimas para vários comportamentos desviantes (presumo) dos jovens atletas. Aqueles passam por várias situações, que vão desde o "uso de telemóvel no balneário" (0,15€) até ao "cartão vermelho (anti desportivo [sic])" punido com 5€. Pelo meio vamos encontrar outras coimas por coisas como "atraso ao treino" (0,20€ por minuto), "tocar o telemóvel no balneário" (0,20€), "urinar no chuveiro" (0,50€), "cartão amarelo" (0,50€), "gases perturbadores (peidos)" [sic] (0,20€), ou "chapadas no rabo do colega" (1€) – para quem quiser deliciar-se a ler todas as "infracções", veja aqui.

Em face disto nem percebo porque só o item "actos homossexuais" causa brado nas touradas. Tirando as coimas que visam promover um mínimo de higiene e civilidade, todo o documento é uma pérola de lirismo e de refinamento cultural. Algumas curiosidades:

1 – Considerando que faz sentido que as faltas injustificadas (ao treino ou aos jogos), os comportamentos anti-desportivos e os atrasos (uma vez que calculada a coima por minuto) sejam alvo das coimas mais elevadas – são estes os comportamentos promotores da pontualidade, do espírito de equipa e do tão apregoado espírito desportivo -, não se entende porque é que o "cartão amarelo" é punido com um valor tão baixo, já que pode ter origem num comportamento agressivo do jogador ou desrespeitador dos outros intervenientes no jogo (repare-se que o "desrespeito perante um colega" é punido apenas com 0,80€!).

2 – Pergunto-me o que terá ditado a existência do dito regulamento interno, considerando que a necessidade de legislação é normalmente ditada por um apelo do real; mais: se bem me lembro das "fontes do direito", diz a doutrina jurídica que a lei tem como fonte os "usos e costumes". Logo, daqui pode concluir-se que os tais "actos sexuais homossexuais" fazem já parte do modus vivendi da equipa.

3 – Olhando para os valores das coimas facilmente se percebe que aqueles que têm um valor mais elevado incidem sobre os comportamentos mais reprováveis, e o inverso para os de valor mais baixo. Mais: usualmente o valor inferior será sempre atribuído a um comportamento mais recorrente do que a um menos; ou seja: é normal (e desejável!) que ocorram mais vezes as infracções relativas aos telemóveis, do que as punições disciplinares. A esta luz, arrisco dizer que o "acto homossexual" será mais usual do que a "chapada no rabo", uma vez que o valor da coima do segundo é mais do dobro da do primeiro (relembro que as multas mais elevadas são sempre para actos mais condenáveis e, usualmente, até por isso mesmo, com menor ocorrência).

4 – Urge esclarecer a população em geral - e os jovens interessados em particular - do que é entendido por "acto homossexual", uma vez que já se percebe pelo regulamento que disso não se entende "chapadas no rabo do colega". Isso, todos sabemos, pelo menos todos os que já frequentaram algum balneário de rapazes adolescentes, é não só usual e recorrente (only God would know why, or not!), como é – naturalmente, claro está, está-se logo a ver – coisa de homem! Perdão: coisa de Omem!

5 – Conclui-se que é mais barato praticar um "acto sexual homossexual" do que "chegar atrasado". Logo, quando o Mister (ainda me hão-de explicar o porquê desta expressão) perguntar onde andaram, será melhor dizer que estiveram ali a penetrar o Fulano, ou a acariciar-lhe o viril membro sexual... Sabendo nós que tuga que é tuga arranja todos os estratagemas para não pagar as coimas que lhe são impostas, a par da célebre tradição nacional de nunca chegar a horas a lado nenhum (mea culpa, mea culpa!), já se pode imaginar a verdadeira revolução cor-de-rosa que irá naquela equipa!...

6 – Uma vez que o dito regulamento se cinge apenas à equipa de juniores, presumo que na sénior, a existir, o mesmo não se aplique. O que é, desde logo, uma pena e, à partida, uma descriminação intolerável.


7 – Pergunto-me (uma vez que o regulamento é omisso) de qual a coima (a haver) em caso de "acto sexual heterossexual e/ou bissexual", "orgia", "bondage", "zoofilia" (presumo que particularmente grave em casos que envolvam águias), e outras práticas sexuais mais heterodoxas… O mesmo se passa com um "acto sexual homossexual" com "palmadinhas no rabo": o que fazer? Aplica-se o regulamento cumulativamente, ou leva-se em consideração o espírito do legislador da mais recente versão do Código Penal, e, como lá a propósito do "acto pedófilo continuado", conta-se como uma única infracção? Por falar em pedofilia: um "acto homossexual pedófilo" enquadra-se na definição de "acto sexual homossexual" ou não? (Considere-se a propósito que as questões relativas ao consentimento para o acto sexual e à sua idade poderão concorrer para diferentes entendimentos jurisprudenciais a respeito. Aguarda-se o esclarecimento)

8 – Atentando ao número de jovens portugueses que já consumiram "substâncias ilícitas" e ao número médio de vezes, talvez uma norma sobre uso de drogas viesse a calhar… Não sei, é apenas uma sugestão.


9 – Considerando que 0,40€ é menos do que o preço de um café, só me ocorre saudar os responsáveis pela Casa do Benfica das Caldas da Rainha que, assim, admitem a existência de homossexuais a jogar futebol, e, o que causa ainda mais espanto, no Benfica! Só lhes fica bem, honrando assim a terra-adoptiva e a criatividade do grande Raphael Bordallo-Pinheiro! E só demonstra que o Portugal profundo é muito mais liberal do que as suas elites o julgam… Afinal só se pede que os jogadores homossexuais não andem no balneário em brincadeiras perigosas – é que, para além de se atrasarem, pode estragar a concentração...


Sic transit gloria mundi!