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quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O lápis azul é aqui!

O que é que faz com que uma empresa de serviço público - a TVI - (nunca perceberei essa mania de que só é “serviço público” o que for pago pelos impostos e administrado pelo Estado) suspenda um dos seus produtos mais rentáveis (o "Jornal Nacional de 6ª") sem apelo nem agravo nem sequer justificação? E sim, a sua administração tem todo o direito a mudar o que bem lhe aprouver, como empresa que é (seja ela de capitais públicos, privados, cooperativos, etc). Agora quando as decisões dessa empresa de serviço público são:

a) contra toda a racionalidade económica (a suspensão do Jornal Nacional de 6ª, líder de audiências e alavanca - mais uma! - do horário nobre esmagador da TVI, é tão disparatada financeiramente como a suspensão das novelas compactadas desse mesmo horário nobre e a sua substituição por missas em diferido);

b) conformes à vontade do Governo (o Primeiro Ministro disse-o na Assembleia da República muito claramente: a orientação editorial da TVI tinha de mudar. Disse-o também nas várias entrevistas que deu: o jornal da TVI era incómodo para o Governo e para a sua pessoa em particular);

c) tomadas à pressa (se era para suspender o programa, porquê deixar a equipa estar a prepará-lo até à véspera? Isso tem alguma racionalidade? Porque não o anúncio de uma alteração da grelha pós Verão?);

então permitam-me que concorde que ali há gato. Porque – simplesmente - não faz sentido nenhum (em termos empresariais). Ou melhor: faz todo o sentido (em termos políticos).

O lápis azul está a passar por aqui. (ou não fosse o regime um fiel herdeiro das repúblicas que o precederam. Da primeira. E da segunda.)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Maravilhas Portuguesas no Mundo

Finalmente realizou-se a cerimónia de revelação das 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo. Já aqui falei no assunto, mas ainda e apenas pela rama. Continuo sem perceber qual o critério que regeu a escolha destas e não de outras. Continuo sem perceber porque é que o continente europeu ficou de fora das escolhas. Continuo sem perceber o porquê da expressão "de origem portuguesa", quando muitas delas são maravilhas portuguesas, ponto.

Aquilo a que se assistiu na transmissão da RTP foi mais uma lição do que não deve ser feito nestes casos. Para uma ocasião anunciada como épica, o que ficou foi um sabor a amadorismo, a pequenez, a espectáculozinho… E – o que é ainda mais surpreendente – tudo foi feito sem esboçar uma única ideia do que foi a expansão portuguesa no mundo, quais as suas causas e quais os seus efeitos, quais as suas similitudes com outros movimentos da História e quais as suas idiossincrasias (a meu ver, mais estas do que as outras). Nada. Apenas uma glorificação saloia e remediada do "génio português" (sem nunca esclarecer o que raio isso fosse) que, ao que parece, empreendeu os Descobrimentos e a Expansão portuguesa para o Ultramar para fazer "amigos", abraçar os "irmãos", promover a "diversidade", doar "sorrisos" e, já agora, deixar obras de arte espalhadas pelo mundo porque-tinham-uma-pancada-muito-grande-e-deu-lhes-p'rá-i-pah! Até tiveram oportunidade de passar um pequeno documentário sobre a presença portuguesa na Índia, com os nossos compatriotas a chorarem e a lamentarem a ausência lusitana nas terras goesas e do Guzarate – mas aquilo que a mim me deixou em pranto (haverá coisa mais louca do que chorarem por nós a milhares de quilómetros de distância, lá, abandonados à sua sorte, sem apoio, sem contacto, sem religio dos laços?) foi encarado com um sorriso e como uma excentricidade curiosa, tudo sem consequências, sem ser assinalado, sem ser minimamente enquadrado/meditado. Ou seja: tudo muito new age e politicamente correcto. Uma miséria confrangedora, foi o que foi.


Mesmo sabendo que em tempos de "voto telefónico" e "voto cibernáutico" isso vale o que vale, fiz a minha escolha (partindo apenas das opções que nos eram dadas). Esta foi alicerçada em alguns critérios, a saber: excepcionalidade no panorama da cultura portuguesa; rigor da composição; capacidade técnica e inovação; originalidade; grau de preservação; qualidade da obra; distribuição geográfica; importância para a cultura (portuguesa, local, mundial); importância na história da Expansão portuguesa; síntese de estilos. Para figurar entre as 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo escolhi:





* Sé de Goa, em Goa, na Índia – um dos mais belos exemplos de uma catedral portuguesa no mundo, numa magnífica síntese entre a arte europeia/ocidental e a arte oriental/indiana. Um monumento hindo-português admirável pelas dimensões, pela decoração e talha primorosa, pelo enorme e magnífico altar-mor (o maior de todo o Oriente), pela simbiose perfeita entre os estilos e tradições lá presentes. Acresce ser a sede do Patriarcado das Índias Orientais, essa dignidade rara atribuída a apenas 5 Prelados (para além do próprio Papa) no Rito Latino da Igreja Católica Romana (um dos quais é o Patriarca de Lisboa, o que comprova a importância dos portugueses reconhecida pela Igreja!).


* Igreja de São Paulo, em Macau, na China – Esta igreja (ou mais propriamente, esta frontaria, uma vez que pouco mais resta da igreja) é, talvez, o mais belo exemplo de arquitectura sino-portuguesa existente e, certamente, o mais belo exemplo de uma igreja jesuítica de raiz portuguesa. Ícone por excelência da Cidade do Santo Nome de Deus de Macau é ainda o símbolo mais florescente da extraordinária empresa que foi a evangelização do Oriente. Nela encontram repouso e memória os Mártires do Japão; nela o programa iconográfico mostra a verdadeira universalidade da fé cristã. Em qualquer concurso o seu lugar e o seu valor estarão sempre assegurados!




* Colónia do Sacramento, no Uruguai – um belo exemplo de uma cidade portuguesa na América do Sul, símbolo do Império Luso-Americano que tanto alimentou a imaginação e o esforço da nossa história e dos nossos antepassados até ao primeiro quartel do século XIX (o Abade de Baçal chegou a ter o sonho utópico de uma América unida sob o estandarte da Cada de Bragança!). É um símbolo porque não é brasileira; é um símbolo porque foi construída frente a Buenos Aires para ser o sinal da soberania lusitana; é um símbolo porque, apesar das vicissitudes da história, conserva o carácter de uma antiga cidade portuguesa; é um símbolo porque é o mais visitado dos sítios turísticos do Uruguai; é um símbolo porque nos une a uma outra América, não brasileira, e nos confunde com os caminhos do tango. Esta foi, confesso, uma das coisas boas que este concurso me trouxe: deu-me a conhecer a Colónia do Sacramento!


* Fortaleza de Diu, Ilha de Diu, Índia – uma das maiores, mais belas e mais fortes fortalezas portuguesas no mundo. Belíssima com os seus muros vermelhos foi inexpugnável durante séculos o que atesta a qualidade da sua concepção, bem como a capacidade militar e tecnológica dos portugueses. Símbolo lusitano no Guzarate, é um símbolo do nosso modo de fazer: foi construída através da diplomacia e mantida face a todos os ataques pela força das armas e da valentia dos seus defensores. É um dos mais belos lugares que já vi (infelizmente ainda não presencialmente) no mundo.




* Ilha de Moçambique, em Moçambique – capital histórica dos territórios que viriam a formar Moçambique (e origem do seu nome), é uma das jóias mais raras e mais bem conseguidas da presença portuguesa no mundo. Em tempos vi um documentário sobre a antiga carreira dos hidroaviões do Império Britânico que, do Cairo à África do Sul uniam os territórios de Sua Majestade Britânica em África. A penúltima das suas paragens era precisamente na Ilha de Moçambique, considerada a jóia da viagem: uma cidade europeia, de arquitectura requintada, elegante, de palácios e igrejas de traça clássica, um magnífico hospital de traça colonial/imperial, praças e jardins com candeeiros de ferro forjado a contemplar o azul do Índico… Desde então nunca esquecerei a impressão que me causou ver essas imagens (já lá irão mais de 15 anos), e ainda hoje a considero das coisas que mais nos devem orgulhar enquanto portugueses. É (reconhecida e merecidamente) o maior e o melhor conjunto de monumentos e construções europeias (dizer portuguesas é uma redundância) em África anteriores ao século XIX e atesta 500 anos de relações entre o Índico e o Atlântico Norte, entre as religiões do norte (cristianismo e islamismo) e os cultos locais. É uma pérola, uma beleza e um monumento maior dos portugueses que muito mais se deveriam empenhar na sua reconstrução/preservação.


* Fortaleza de Mazagão, em Marrocos – ai a Mazagão do nosso imaginário infantil, uma das famosas praças africanas por onde tudo começou! A sua história está ligada ao Reino de Portugal no norte de África, mas também, à história do Brasil: fundada pelos portugueses na costa africana, foi para a colónia americana que os habitantes de Mazagão partiram em 1769, abandonando a cidade africana e fundando na Amazónia uma nova cidade denominada "Nova Mazagão". Exemplo da arquitectura militar lusitana no norte de África contruída em tempo recorde, foi das maiores cidades portuguesas por . Ostenta ainda hoje, não apenas as muralhas e baluartes, mas também duas das igrejas que construímos, o traçado urbano de origem portuguesa e uma belíssima e utilíssima cisterna-monumento, que só por si, valeria a classificação e o prémio!



* Convento de São Francisco e Ordem Terceira, em São Salvador da Baía, Brasil – se no Brasil muitas e inúmeras eram as possibilidades de monumentos para serem maravilhas portuguesas (começando na própria cidade de São Salvador, passando pelo Real Gabinete Português de Leitura (no Rio de Janeiro), e terminando no próprio país, o Brasil!), parece-me que este convento reúne muito do que de melhor se construiu (artisticamente falando) em terras sul-americanas. Para além de ficar situado naquela que foi a primeira capital portuguesa em terras de Vera Cruz (São Salvador da Baía de Todos-os-Santos), cidade berço e ícone da cultura brasileira (e de um certo luso-tropicalismo), este é um monumento onde se sintetiza o programa barroco português (muito especialmente na sua versão brasileira), como aliás bem refere Pedro Dias: "espaço e funcionalidade, esculturas abundantes e belas, e um vulcão de talhas refulgentes, azulejos de primeiríssima plana, mobiliário de ricas madeiras locais, sobrecarregando os estilos europeus em que se inspiraram os marceneiros, pinturas de bons mestres, tudo isto faz deste conjunto de edifícios um caso excepcional, mesmo numa cidade tão rica como Salvador da Baía"


Se destes monumentos, quatro foram escolhidos como vencedores, outros houve que figuraram na lista final e que não considerei excepcionais, a saber: Basílica do Bom Jesus de Goa, em Goa, Índia (possivelmente por ser onde jazem os restos mortais de São Francisco Xavier); Convento de São Francisco de Assis da Penitência, em Ouro Preto, Brasil (um dos belos exemplos do barroco luso-tropical); Cidade Velha de Santiago, em Santiago, Cabo Verde, e este – talvez – o caso mais surpreendente (só compreensível em face do sistema de votação). A Cidade Velha de Santiago (antiga Ribeira Grande) é efectivamente um lugar histórico importante na medida em que foi a primeira cidade construída pelos portugueses fora da Europa. Mas o grau de devastação que a reduz a um sítio arqueológico mais duas ou três peças (igrejas, fortaleza e pelourinho) pouco importantes arquitectonicamente, não me parece que possa constituir causa suficiente para esta classificação. Parece-me sim que é uma ajuda para que a candidatura da Cidade Velha a Património Mundial certificado pela UNESCO tenha mais hipóteses de ser aceite (e justamente aceite, refira-se! Apenas a comparação com outros monumentos candidatos – do qual salta à vista a Ilha de Moçambique, ou mesmo as ruínas de Baçaim, na Índia, ambos os lugares com muito mais património e concepção mais rebuscada – a diminuem).


Enfim: sete anos depois da extinção da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, perdeu-se mais uma hipótese (mais a mais uma oportunidade pop, tão ao gosto dos tempos que correm) de repensar a história e o contributo lusitano para a História do mundo. Outros virão!







© Sé Cadetral de Goa, São Paulo de Macau, Colónia do Sacramento, Fortaleza de Diu, Ilha de Moçambique, Fortaleza de Mazagão, Convento de São Francisco e Ordem Terceira


sábado, 6 de junho de 2009

quarta-feira, 20 de maio de 2009

CSI Tuga

Leio, no DN, num artigo sobre o "CSI Tuga", um comentário do director do Laboratório Nacional da Polícia Científica, sobre as séries televisivas inspiradas no universo da investigação criminal (de que o CSI é, talvez, o exemplo mais famoso). Diz ele que "nós [eles lá no laboratório] não somos tão bonitos como eles, mas a principal diferença é a ideia de tempo", não só no que se refere ao tempo dos resultados das análises, mas também no que se refere aos dados a que os investigadores têm acesso: "ninguém acede a tanta informação com um simples toque de botão. Além disso, se qualquer polícia pudesse aceder a informação dessa forma, teríamos um big brother, uma sociedade sem o equilíbrio entre justiça e liberdade".



É curioso. Eu sempre que vejo essas séries televisivas (preferindo o CSI Las Vegas em relação às outras, as quais considero inferiores), à parte das considerações estéticas – que me eximo de comentar por não conhecer a realidade lusitana – penso sempre: bolas! Que bom seria se as nossas policias funcionassem assim! (descontando, claro está, a rapidez com que tudo acontece, coisa normal no universo televisivo). Mas lá está: eu acho mais importante apanhar os criminosos do que garantir supostos direitos da liberdade; é que a liberdade preserva-se e guarda-se impedindo que os dados pessoais caiam nas mãos erradas, sejam usados para fins ilegais, ou sirvam para perseguir os inocentes. Ou seja: a liberdade preserva-se pela via da estrita legalidade. E preserva-se apanhando, julgando e condenando os que infringem a lei. No extremo desta corrente deixaremos de prender os criminosos, porque é uma maçada e um atentado ao seu inalienável direito ao liberdade… Ah, pois é: já o fazemos!...

sábado, 9 de maio de 2009

Sobre Odete, sob a calçada

Recebi, há dias, uma carta electrónica em que me eram apresentados os dados apresentados na declaração de rendimentos (relativos a 2005) da ex-deputada do PCP, Odete Santos. Ciente de que nem tudo o que corre pela rede é verdade, procurei confirmar a veracidade de tais dados que, a serem verdadeiros, seriam um verdadeiro escândalo. Escândalo em face da ideologia que a dita Sra. perfilha e defende. Acredito na adequação da nossa conduta às ideias nas quais acreditamos, logo pouco respeito tenho por quem diz uma coisa e faz outra. Julgo até que o que fez nascer em mim uma repulsa tão grande do socialismo foi sempre ter conhecido "socialistas" que só o eram da boca para fora; ou, como gosto de os descrever, socialistas em casa dos outros. Diria até que, verdadeiros socialistas e verdadeiros comunistas, de palavras, actos e acções, são mais raros do que inocentes no Inferno!





Convivo bem com quem perfilhe essas ideologias totalitárias, respeito os que, puramente, as defendem (por mais inacreditáveis que me pareçam, como são os casos do nazismo ou do comunismo) e nelas acreditam. O ideal de democracia que perfilho admite sempre a discordância e a existência respeitosa de todos os que nela não acreditam – se ela é melhor do que essas ideologias é precisamente porque inclui mais do que exclui. O mundo é feito de infinita diversidade e essa é – e sempre foi para mim – a imensa e admirável obra de Deus!






Ora, procurando confirmar esses dados relativos à Sra. D. Odete Santos, descobri que as declarações de rendimentos dos titulares de cargos públicos (obrigatórias por lei), não só não estão acessíveis aos cidadãos comuns, como, muitas das vezes, nem sequer são entregues por quem tem esse dever! E isto merece atenção. A existência de tal declaração parece-me legítima e fundamental numa democracia, visto que é através dela que todos podemos ter a atitude vigilante que se impõe sobre os nossos representantes. E este escrutínio público em nada invade a esfera privada: quem se candidata ou aceita a nomeação para um cargo público, aceita de imediato as regras do jogo – e essas devem primar pela absoluta transparência. É essa uma das regras fundamentais da democracia. Quem não quiser, não aceita, ou não se candidata: é simples! O que temos, pois, no nosso país é perfeitamente inaceitável num regime que se pretende "democrático". Este véu de neblina, esta ocultação do que é público (ou deve sê-lo), só levanta a suspeita de que muito do que por lá se registará (quando se regista, porque ao que parece nem todos cumprem) levantará grandes dúvidas quanto à sua absoluta e estrita legalidade. E por isso fica à guarda dos amigos do tribunal político, digo, do Tribunal Constitucional. À guarda e trancado a sete chaves. Porque será?



sexta-feira, 1 de maio de 2009

Kafka de comboio


Depois de um passeio pelo coração lisboeta, dirigi-me calmamente à Estação do Oriente (se há coisa que me dá cabo do senso é a mania do galicismo "Gare") a fim de apanhar um comboio que me trouxesse de volta às terras templárias. Como já ia em cima da hora daquele que tinha pensado apanhar, e havendo ligações de hora em hora, resolvi ir comprar o bilhete com antecedência para depois me deliciar com um gelado-frente-ao-Tejo no Vasco da Gama. Subi as escadas que separam o Metro das bilheteiras dos comboios e… o choque! A Estação do Oriente estava transformada numa espécie de zona de caos, entupida de gente, que, pensei eu, abandonava a cidade na sequência da declaração da quarentena motivada pela pandemia-seja-ela-qual-for-mas-vamos-todos-morrer-com-a-peste! Antes fosse… Resolvido a não perder tempo, procurei uma bilheteira com menos clientes. Como a imediatamente oposta estava em idêntico estado caótico, fui para a outra ponta da estação onde – via eu – estavam bilheteiras abertas quase sem ninguém. Esquecia-me eu que em Portugal nunca nada é assim tão simples… Lá chegado e após fazer o meu pedido fui caridosamente informado pelo funcionário da CP que ali só se vendiam bilhetes para comboios suburbanos, devendo-me eu dirigir às sobrelotadas bilheteiras do outro lado. (Respiro fundo). E lá vou eu. O caos continuava, por isso resolvi procurar a fila mais curta para as "úteis" máquinas de bilhetes, na esperança de ainda ter tempo para o meu geladito. (Respiro fundo). Ao fim de 10 minutos, quando faltava apenas uma pessoa antes de mim, o papel acabou e aquela máquina (entretanto a única máquina na Estação a emitir bilhetes, à excepção daquelas destinadas "apenas aos comboios suburbanos" – dupla inspiração funda) tornou-se inútil. (Respiro fundo). Já tomado de, posso dizê-lo, algum azedume, lá enfrentei a fila para uma bilheteira, a qual, começando já a atravessar uma das pontes que ligam ambos os lados da estação, ameaçava encontrar-se com a fila da bilheteira contrária… Atrás de mim um rapaz do norte quase acabava o namoro (?) enquanto berrava com a sua cada-vez-menos-mais-que-tudo que insistia em não perceber/escutar/compreender uma palavra das que ele vociferava em desespero, sem saber se tinha comboio para ir para o "Puerto" e depois para "Nine". De um lado para o outro havia famílias inteiras a correr confusas, a pedir papel para as máquinas, agarradas aos telemóveis com mais interrogações do que respostas, ou simplesmente gente que, já sem comboio (os anúncios de comboios esgotados sucediam-se) sentava-se a pensar no que ia fazer. (Respiro fundo). Vinte minutos depois, chegou a minha vez e pude – finalmente – comprar bilhete. Entretanto o "meu gelado" já tinha ardido, e portanto, só me restou comprar uma "sandocha" e um sumo e ir para a plataforma…



O comboio chegou e nele, nós os refugiados em fuga, conseguimos entrar. Apenas entrar porque era tanta gente apinhada que eu, excentricamente claro está, apenas consegui sentar-me à partida de Santarém (isto, apesar de um distinto Deputado da Nação pelo PEV nunca ter cedido o seu lugar sentado a nenhuma das pessoas a que as regras mandam dar… educações!). Valeu-nos a sorte de termos um revisor que com calma, educação e simpatia conseguiu ir levando a água ao seu moinho, sem problemas de maior, apesar de por lá ter permanecido praticamente todo o tempo em que eu estive de pé. (Respiro fundo prolongadamente).




Alguém poder-me-á explicar por que raio a empresa que todos pagamos com os impostos não é capaz de cumprir com a missão para a qual foi criada? Alguém poder-me-á explicar porque é que, sendo véspera de feriado, de fim-de-semana prolongado, em tempos de crise (logo, não é preciso ser sobredotado, a afluência será sempre maior), a CP é incapaz de: a) colocar comboios a circular que respondam à procura? b) ter bilheteiras em número suficiente para esse aumento de procura? E já agora: em face do caos instalado na "estação central da capital", porque não há medidas de urgência, de adaptação que permitam uma resposta eficaz à procura dos clientes? Mas passa pela cabeça de alguém que, uma empresa cujo objectivo é "transporte de passageiros e mercadorias por via ferroviária" veja isso como uma actividade excedentária? Mas então serve para quê? Apenas para consumir fortunas anuais dos nosso impostos para financiar a incompetência e o laxismo? É pedir muito que me possa deslocar (mais ecologicamente, ainda para mais!) de comboio sem que para isso me sinta sempre no terceiro mundo? Será pedir demais não querer sentir-me enxovalhado junto dos inúmeros turistas que deambulavam (espantadíssimos, claro está!) pelo meio da confusão, porque o meu país simplesmente não consegue funcionar em termos "europeus"? E ainda querem um TGV? Mas para quê se nem para os comboios regionais servem?!



E já agora: alguém poder-me-á informar quando é que Kafka passou a ser obrigatório nos nossos serviços públicos? Desde já muito agradecido! (Respiro fundo)



P.S. Profeticamente o livro que me acompanhava nessa viagem era Carta ao pai de Franz Kafka…


© Imagem aqui.

sábado, 18 de abril de 2009

O luto continua

A Assembleia da República aprovou vários diplomas onde constam coisas tão insignificantes como a possibilidade de buscas domiciliárias sem mandato (vi aqui), a perseguição de contribuintes (sob a capa do combate à evasão fiscal e à corrupção transforma-se o nosso já kafkiano Estado no pior pesadelo de Kafka!), ou o sempre peregrino "imposto sobre fortunas" - a Esquerda com o seu habitual conjunto de traumas psicanalíticos ainda tem o pensamento condicionado pelo marxismo e a sua noção de riqueza estática, ou seja, a riqueza como um bolo bem ou mal distribuído (portanto, quem for rico é porque roubou/explorou/extorquiu quem é pobre ou menos abonado, constituindo a riqueza, em última análise, um crime de lesa sociedade). E isto, num mundo globalizado e com a economia fortemente virtualizada (a actual crise não é senão o sintoma mais evidente) é tão mais grave, quanto já sabemos o resultado prático da coisa: mais pobreza e mais miséria, afinal a grande obra de sempre dos sociais-marxismos-comunismos por todo o mundo!


O que mais inquieta é que isto começa a fazer lembrar a boutade atribuída ao (infelizmente) sempre omnipresente Otelo Saraiva de Carvalho (se não tiver sido ele o autor que me perdoe por lhe aumentar o já extenso rol de alarvidades ditas e praticadas!): conta-se que nos idos anos "quentes e revolucionários" (quando em França se falava de Portugal como "um manicómio em auto-gestão", o que é bastante… imagético!), estando Otelo (ou outra qualquer personagem da shakespeariana trama da revolução à portuguesa, repito) de visita à social-democrata Suécia terá exclamado com orgulho: - "Em Portugal já quase acabámos com os ricos!". Ao que o governante indígena lhe terá retorquido: -" Ah, sim? Nós por cá já quase acabámos com os pobres…"




Si non è vero, è bene trovato!




©Imagem aqui.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Boop-boop-a-doop!

Um certo país mediático exultou de alegria com a chegada da versão portuguesa da revista americana Playboy. Não sei porquê, mas desconfio que seja devido ao tão proclamado "atraso cultural português", que constantemente nos separa do progresso e da felicidade (ambos oscilando entre o neo-realismo socialista e o neo-libelismo capitalista) e porque agora os rios de mel terão motivos para correr por aqui. Ora, lamento, amigos, mas parece que vão ter de aguardar pela versão portuguesa de uma outra coisa qualquer estrangeirada: pelo que constato pela capa (não, ainda não comprei o número histórico para mais tarde, hummm, "recordar") e pelo catálogo que me enviaram por mail (se há coisa em que somos especialistas é no desenrasca-e-vamos-mas-é-digitalizar-isto-e-mandar-para-os-amigos), a pobreza franciscana foi tanta que a playmate escolhida para a estreia (logo, para figurar como ícone erótico-sexual do Portugal contemporâneo) foi a ex-Delirium e ex-Big Brother Mónica Sofia. Podia ser pior, dizem-me logo os muito optimistas. Claro que podia. Mas podia ser infinitamente melhor! O DN de hoje relembra a 1ª capa de sempre com, nada mais, nada menos, do que Marilyn Monroe. É caso para dizer que levamos mais de 50 anos de atraso para escolhê-las! E saímos sempre a perder… é obra!


Para que se obvie a diferença infinita, aqui fica um cheirinho daquele que é – também – um grande filme: "Some Like It Hot"… Mónica Sofia, rapariga, tens ainda que comer muito arroz e feijão para chegar aos sensuais calcanhares de Mrs. Marilyn!


quinta-feira, 26 de março de 2009

Pouca-terra Pouca-terra

Ontem, a CP encerrou as linhas do Corgo e do Tâmega sem avisar ninguém. Contava com o silêncio de todos e fê-lo pela calada, desprezando toda a gente. Mas a culpa não é da CP; é, antes, de todos os pacóvios que transformaram o país num tapete de asfalto, bom para a camionagem, para as empresas de obras públicas e para o consumo de gasolina. Em vez de investir em comboios e serviços decentes para passageiros e mercadorias, os sucessivos governos destruiram um património secular e uma parte da nossa geografia cultural – tudo em nome das ‘grandes obras’ e do ‘grande dinheiro’. Hoje há pouco a fazer. Há alcatrão, cimento, camionagem e gasóleo. Tudo caro. Os comboios portugueses inventaram um país, povoaram-no, desenharam a nossa geografia. Era um país mais bonito do que este.

Francisco José Viegas





Desde que me lembro que gosto de comboios. Gosto de comboios, ou melhor ainda, prefiro-os, da mesma maneira que prefiro gatos a cães. I'm a train person, i believe! Gosto do espaço, da liberdade que me dão, do som, dos bares, da paisagem a desfilar cuidadosamente, da vertigem da velocidade. Gosto de carris. Tanto gosto das velhas estações com velhos relógios e bancos esquecidos do tempo que passou por eles, como gosto das novas, luminosas e frenéticas onde tudo é feito para ser à pressa. Porque me defino (parafraseando uma vez mais o Francisco José Viegas) como liberal à moda antiga, vejo o comboio como um símbolo de progresso. Tal como o foi quando, há já mais tempo do que lembramos, as velhas máquinas a vapor começaram a sulcar os campos, a assobiar o seu apito nas curvas, levando "a civilização moderna e cosmopolita" como ela era concebida às cinco partidas do mundo. (Sou também um modernista aprés le temps, cujo fascínio pelas máquinas do progresso é inesgotável!) Talvez por isso também goste dos Metropolitanos, não sei! Talvez seja por me evocarem (sendo-o, também, diferentemente) os comboios e a época em que eram uma novidade e o mundo girava mais saborosamente. Gosto de comboios, tal como gosto de despedidas e partidas. E de chegadas.



Cresci numa família que tudo fez para que os comboios sulcassem estas terras a caminho das Beiras, acreditando no progresso por eles trazido. Uma família que sempre gostou de comboios. Daqueles que levavam os cabazes à família lisboeta abastecendo-a de hortaliças, vinho, pão, azeite, carne, fruta e até empadas acabadas de fazer. E que na volta traziam as velhas embalagens de Lactosimbiosina, o Malte da Portugália, um casaco dos Armazéns e as "exóticas" bananas . Cresci a ouvir as histórias desses cabazes que durante décadas ligaram uma família unida no amor e nas cartas trocadas diariamente, antes do telefone e da era digital em que vivemos. Os comboios serão, também por isso, teares da ternura.



Assim sendo, sempre que se encerra um metro de linha, ou se transforma mais um quilómetro nas inefáveis, novas-ricas e irritantes "ecopistas", sinto-me mais pobre. Sinto-nos mais pobres. E mais atrasados. E mais distantes. Não partilhando da americana celebração orgástica pelo automóvel, sinto-me europeu quando prefiro o comboio. Por isso defendo uma rede ferroviária nacional de Bragança a Vila Real de Santo António, sem TGV's desnecessários (com as honrosas excepções das ligações a Madrid e Vigo), mas com comboios de qualidade: eficientes, limpos, pontuais, regulares, silenciosos e económicos. Acredito que isso faria mais por este pobre país estilhaçado, do que mil quilómetros de auto-estradas. Acredito que novas linhas deveriam ser traçadas e construídas, e que outras tantas deveriam ser reabilitadas, modernizadas e reanimadas. Uma verdadeira rede a ligar as capitais de distrito e as cidades principais, com ligações aos metropolitanos para a circulação intra-urbana. Uma rede que fomentasse a coesão nacional, o transporte de mercadorias (mais barato e ambientalmente profícuo) e o lazer. Uma rede que poupasse a importação de combustíveis fósseis e que procurasse a autonomia energética. Uma rede ferroviária moderna, cosmopolita, e por isso mesmo, tradicional, próxima, característica.



Enfim…Um sonho e um devaneio nos tempos que correm, presumo!



© Imagem nesta linha.

sábado, 14 de março de 2009

Glourios five

António Carlos Monteiro. Hélder Amaral. Nuno Melo. Pedro Mota Soares. Telmo Correia.


Que apenas 5 almas (em 230, Deus meu, em 230!) percebam o ridículo e o perigo do Estado legislar a quantidade de sal no pão, isso sim, é lamentável!


A ditadura higienista pan-europeia continua imparável, e ao que parece, com o apoio da esmagadora maioria das (supostas) elites... É triste e lamentável. E quando até isto é regulado temo que poucas coisas fiquem a salvo da mão impiedosa do Legislador!


Senhoras e Senhores, a Liberdade segue dentro de momentos (se ainda houver quem dela se lembre...)!...



© Salvador Dalí. Two Pieces of Bread Expressing the Sentiment of Love. 1940

domingo, 8 de março de 2009

Ah, pois é…



Democracy is a device that insures we shall be governed no better than we deserve.


George Bernard Shaw




© Phill Scroggs