domingo, 10 de maio de 2009

Elogio do Amor Puro

"O que eu quero fazer é o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Teixeira de Pascoaes meteu-se num navio para ir atrás de uma rapariga inglesa com quem nunca tinha falado. Estava apaixonado, foi parar a Liverpool. Quando finalmente conseguiu falar com ela, arrependeu-se. Quem é que hoje é capaz de se apaixonar assim?
Hoje em dia as pessoas apaixonam-se por uma questão prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão mesmo ali ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato. Por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram “em diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bioecológica da camaradagem. A paixão, que deveria ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas em vez de se apaixonarem de verdade, ficam praticamente apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há. Estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o medo, o desequilíbrio, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso “dá lá um jeitinho” sentimental.
Amor é amor. É essa beleza. É esse o perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor é para nos amar, para levar-nos de repente ao céu, a tempo de ainda apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma conveniência assassina.
O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita. Não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que se quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar. O amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe.
Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder, não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.
"


Miguel Esteves Cardoso, Último Volume.


(Cortei daqui)




No Comments



sábado, 9 de maio de 2009

Sobre Odete, sob a calçada

Recebi, há dias, uma carta electrónica em que me eram apresentados os dados apresentados na declaração de rendimentos (relativos a 2005) da ex-deputada do PCP, Odete Santos. Ciente de que nem tudo o que corre pela rede é verdade, procurei confirmar a veracidade de tais dados que, a serem verdadeiros, seriam um verdadeiro escândalo. Escândalo em face da ideologia que a dita Sra. perfilha e defende. Acredito na adequação da nossa conduta às ideias nas quais acreditamos, logo pouco respeito tenho por quem diz uma coisa e faz outra. Julgo até que o que fez nascer em mim uma repulsa tão grande do socialismo foi sempre ter conhecido "socialistas" que só o eram da boca para fora; ou, como gosto de os descrever, socialistas em casa dos outros. Diria até que, verdadeiros socialistas e verdadeiros comunistas, de palavras, actos e acções, são mais raros do que inocentes no Inferno!





Convivo bem com quem perfilhe essas ideologias totalitárias, respeito os que, puramente, as defendem (por mais inacreditáveis que me pareçam, como são os casos do nazismo ou do comunismo) e nelas acreditam. O ideal de democracia que perfilho admite sempre a discordância e a existência respeitosa de todos os que nela não acreditam – se ela é melhor do que essas ideologias é precisamente porque inclui mais do que exclui. O mundo é feito de infinita diversidade e essa é – e sempre foi para mim – a imensa e admirável obra de Deus!






Ora, procurando confirmar esses dados relativos à Sra. D. Odete Santos, descobri que as declarações de rendimentos dos titulares de cargos públicos (obrigatórias por lei), não só não estão acessíveis aos cidadãos comuns, como, muitas das vezes, nem sequer são entregues por quem tem esse dever! E isto merece atenção. A existência de tal declaração parece-me legítima e fundamental numa democracia, visto que é através dela que todos podemos ter a atitude vigilante que se impõe sobre os nossos representantes. E este escrutínio público em nada invade a esfera privada: quem se candidata ou aceita a nomeação para um cargo público, aceita de imediato as regras do jogo – e essas devem primar pela absoluta transparência. É essa uma das regras fundamentais da democracia. Quem não quiser, não aceita, ou não se candidata: é simples! O que temos, pois, no nosso país é perfeitamente inaceitável num regime que se pretende "democrático". Este véu de neblina, esta ocultação do que é público (ou deve sê-lo), só levanta a suspeita de que muito do que por lá se registará (quando se regista, porque ao que parece nem todos cumprem) levantará grandes dúvidas quanto à sua absoluta e estrita legalidade. E por isso fica à guarda dos amigos do tribunal político, digo, do Tribunal Constitucional. À guarda e trancado a sete chaves. Porque será?



Canção das horas nº 17


quinta-feira, 7 de maio de 2009

Lições de Pavlov

A Igreja Católica Romana tem um novo Santo: São Nuno de Santa Maria (Nuno Álvares Pereira, o Condestável, de sua graça civil).


A anterior premissa não me parece levantar grandes questões. Numa sociedade onde vigore a liberdade religiosa ela é o que é: um fenómeno interior a uma confissão religiosa. É dentro dela que terá de ser analisado e debatido (se for), segundo as regras e as premissas vigentes nesse determinado culto (se as houver). Mas ao que parece não é assim: na (dita) sociedade livre em que vivemos a Canonização de um Santo da Igreja Católica Romana é um acto político – e político porque debatido, comentado, analisado, escalpelizado, autopsiado na praça pública. É algo singular que só vejo acontecer no que à Igreja Católica Romana diz respeito. Não acontece em relação a nenhuma das outras confissões, cristãs ou não cristãs.


E há um grupo social particularmente activo na discussão dos assuntos internos do catolicismo: respondem pelo nome de Associação Ateísta Portuguesa e, a esses senhores, chegou a minha hora de dizer:


- Basta!


Estou farto e cansado de totalitarismo, de pensamento único, de limitação à liberdade (e quando se trata da minha liberdade sou sempre muito cioso dela!). Não usarei o epíteto "fascistas" porque acho uma tonteira o uso comum que em Portugal se dá a um fenómeno político do socialismo italiano – mas dá vontade de usar, pelo menos naquela asserção "leve" em que ele é usado para designar toda e qualquer forma de pensamento único totalitário, desde que não seja marxista (porque para esse parece só ser possível usar epítetos "doces, sensíveis e messiânicos"). Do mesmo modo como eu acho idiota a simples existência de uma associação ateísta (porque é a constituição de um organismo que visa uma não definição, a definição de uma ausência absoluta, da mais absoluta das ausências, semelhante a uma associação que vise a promoção do Nada enquanto Nada), têm esses senhores todo o direito de pensarem o mesmo da minha religião (a Católica Romana) e de todas as religiões, seitas e filosofias de vida do mundo (do Judaísmo ao Budismo, do Taoísmo à Igreja Bola de Neve). Até têm todo e qualquer direito a acreditarem ou não no que bem lhes aprouver! É essa uma das definições práticas da democracia e da liberdade de pensamento.


Agora, o que não acho normal (nem aceitável porque é uma concepção totalitária, logo, anti-democrática) é que, por ocasião da canonização de um Santo católico, esses senhores se manifestem. A mim, pouco me importa se esses senhores se reúnem, se não, se comem carne ou peixe, se acreditam em Deus ou não. Agora o meu direito a acreditar em Deus, a acreditar em Santos, a acreditar no Pai Natal ou nas virtudes curativas da lua só a mim me dizem respeito. E esses senhores dessa associação nada têm a ver com isso! Acham ridículo o milagre que levou à beatificação de São Nuno? Muito bem, têm todo o direito. Mau era que assim não fosse! Acham os crentes tontos e palermas e atrasados mentais? Muito bem: eu penso exactamente o mesmo em relação à dita associação e daí não vem mal ao mundo! Não compreendam como se pode acreditar em Deus? Óptimo, eu também não compreendo o contrário! O problema eu identifico-o: esses senhores são tão ateístas quanto os elefantes voam! Sendo a definição ateísta uma definição negativa (é-se a_teu – "sem, fora de Deus" – por oposição a quem é "teófilo") a questão da Fé devia ser algo totalmente ausente das suas vidas. Aliás o próprio catolicismo tão odiado o diz: a Fé é um Dom que uns têm, outros não. É simples! É assim com muitos ateus que conheço. Nem sequer pensam em santos ou em religiões ou em qualquer desses "esoterismos". Estão pouco se lixando se existem missas, procissões, canonizações ou crucifixos (bem há alguns que conheço que, não acreditando, adoram arte sacra). O que não se compreende é a obsessão que qualquer acto religioso (mas os actos católicos parecem fazer salivar mais esses entes pavlovianos) lhes suscita. Eu permito-me propor-lhes uma ligeira correcção do nome: devem esses senhores organizar-se como associação anti-religiosa (ou anti-católica se preferirem) portuguesa, e aí sim, poderão e deverão insurgir-se contra tudo o que mexa religiosamente, queimar igrejas, matar frades e todas e quaisquer outras manifestações a que achem por bem dedicar-se. Agora, por amor de Deus, não conspurquem o ateísmo com as posições totalitárias que têm. Porque nunca o ateísmo passou por aí (eu até diria que foi sempre o contrário, mas isso sou eu que sou crente!).




P.S. Só mais uma chega a um "cavalo de batalha" desses senhores. Dizem eles que o "voto de congratulação" aprovado pela Assembleia da República pela canonização de D. Nuno Álvares Pereira é uma intromissão da religião na esfera do Estado. Nada mais falso. Estou certo que o mesmo voto existiria caso se tratasse de qualquer outra religião, ou condecoração entregue por qualquer Estado ou associação com relevo mundial. Porque, no limite do ateísmo, a Igreja Católica Romana é apenas e só um Estado estrangeiro (ou, para os mais incultos, uma associação com delegações pelo mundo). E assim sendo cabe aos representantes políticos portugueses rejubilarem quando as capacidades, as habilidades, o trabalho de um português são premiados. Foi-o para Egas Moniz, Saramago, D. Ximenes Belo e Ramos Horta, foi-o para todos os atletas premiados pelas várias modalidades desportivas mundiais, foi-o para Aristides Sousa Mendes reconhecido como "um justo" pelo Estado Israelita. Do ponto de vista ateu não devia haver diferença entre uma coisa e a outra. Haver é que faz diferença e mostra ao que vêm!...


P.S.2. Sendo a democracia o governo pela maioria; sendo inaceitável a repressão da maioria por uma minoria, conviria lembrar a fria e dura realidade dos números a esses senhores, cuja opinião válida, vale – em democracia – o que vale! Do mesmo modo como o partido mais votado executa a política que propôs aos eleitores, convém relembrar à AAP a sua quase infinita insignificância em relação à comunidade de crentes (de todas as religiões) presente em Portugal. Do mesmo modo que um católico no Irão vale o que vale (e mesmo assim há mais católicos, até no Irão, do que membros da dita associação, o que, diga-se, é notável!), esses senhores valem o que valem. A democracia tem destas coisas engraçadas, não tem?







© Imagem aqui.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Por São Nuno! *

A Igreja Católica Romana tem um novo Santo: São Nuno de Santa Maria (Nuno Álvares Pereira, o Condestável, de sua graça civil). Alegremo-nos! Aleluia! Aleluia!



Desde sempre esta figura esteve presente por . A figura do Condestável do Reino era uma figura amada pelos meus. Uma figura admirada. Tendo nascido aqui próximo, em Cernache do Bonjardim, sempre que lá nos deslocávamos encontrávamos a sua estátua e sempre me lembro de haver alguma referência à sua figura e à sua naturalidade beirã (mais a mais a estátua fica mesmo ao lado da casa de uma prima que visitávamos). Para mais, uma das freguesias que deu origem ao concelho de Ferreira do Zêzere – Águas Belas – foi um morgadio do irmão de D. Nuno e permaneceu na família Pereira até quase ao final do Antigo Regime (um descendente, Duarte Sodré Pereira, seria também Morgado de Águas Belas e estaria na origem de um dos lugares mais conhecidos da capital – o Cais do Sodré), e ainda hoje, diariamente passo junto ao antigo pelourinho que ostenta as armas dessa nobre família. À qual muito devemos, nós, portugueses!


A figura de D. Nuno é admirável. Homem de fé arrebatadora e profunda, combatente vitorioso (mas justo para com os seus inimigos, como ouvi algures, "combatendo sem ódio"), génio militar e político (não terá perdido uma única batalha), herói maior do panteão dos heróis portugueses, ascendeu pelo seu valor, pelo seu mérito, à mais alta posição na nobreza de então. Não é por acaso, certamente, que a sua filha está na origem da mais importante casa da nobreza portuguesa – a Casa de Bragança. Com ele, Portugal iniciou um dos seus períodos mais fantásticos, mais grandiosos, mais admiráveis. Há até quem o veja como sendo o pai do patriotismo, da própria noção de ser português. O que é certo é que, com ele, Portugal separou-se definitivamente de Castela. Sem retorno nem volta a dar-lhe. Nesse sentido é engraçado verificar que ele santificou Portugal (na origem e no sentido de "santo" está a "separação", o viver "separado", ou seja, o santo é o separado). Depois, quando tinha todas as honras e riquezas, fez partilhas com os filhos, desfez-se de tudo o que era seu, deixou a alta posição que ocupava e dedicou-se aos pobres, aos humilhados, aos indigentes. A eles doou os bens e o tempo. Foi um caso raro, ou seja, um caso santo. E fê-lo não tendo sequer professado religiosamente por não se considerar suficientemente digno para ser frade. Fê-lo fazendo os votos, mas não professando. Dando-se por inteiro – pondo-se por inteiro, como diria Ricardo Reis – aos outros, entregando-se, como o fez em tudo o que fez na vida. Ensinou-nos a todos que a vida é para ser vivida intensa e honradamente. Para ser vivida por inteiro, por completo, tomando partido sempre que isso seja necessário! Em tempos de politicamente correcto, indefinições, neutralidades e outras formas de abstenção, o exemplo de São Nuno de Santa Maria é cada vez mais vivo e mais actual – compromete-te sempre e fá-lo sem esquecer os teus irmãos que sofrem, poderia ser um lema a retirar dos seus ensinamentos! E já é tanto e às vezes tão difícil!...




* Citação do antigo grito de guerra português – Por São Jorge! – agora homenageando a figura de São Nuno de Santa Maria, conhecido entre os homens por D. Nuno Álvares Pereira, Condestável do Reino de Portugal, Defensor do Mestre de Aviz.

domingo, 3 de maio de 2009

Coimbra





(...)
E levas em ti guardado
O choro de uma balada
Recordações do passado
O bater da velha cabra.
(...)




* De Coimbra trago as festas e as cicatrizes - o rastro do tempo na pele. Trago a memória da partilha. Trago os risos e as lágrimas. As gargalhadas e as canções. As dores do crescimento. O prazer das descobertas. Os mestres, o sabor do saber e as cabeçadas da vida. Trago os amigos (para a vida, Senhor, para a vida) e os afectos. Trago a capa negra e as noites ao luar. Os jantares e o som da "cabra". Trago os cheiros, o Mondego e as magnólias. Trago as madrugadas do Penedo, as caminhadas sem destino, os pássaros do Botânico. Trago os abraços e as partidas. Trago os F-R-A's e as capas ao ar. Trago as Queimas e as Latadas, os selos e as fitas. Trago as tardes no Tropical, os lanches com da Vénus, os janquinzinhos com arroz de tomate do Quim dos Ossos, o traçadinho do Pratas, o chocolate quente do Quebra, as torradas do "Gil Vicente", os finos do O.A.F, o bolo de chocolate do Rubyana, os cafés do S. José. Trago a Vitrice e o Aviz e o Mil Doce e o Santa Cruz. Trago os que amo que e os que deixei para trás. Trago as noitadas de cinema e os arrepios no teatro. Trago o amor. Trago o fado.

Coimbra comigo sempre. De_cor.

sábado, 2 de maio de 2009

Verdade e opinião pública






Para além do filme a que este tema pertence - Chicago - ser um fabuloso musical, este tema é também uma valiosa lição sobre o que é a verdade. Ou melhor: a verdade como opinião pública, a verdade como coisa pública*. É que a brincar a brincar...








*(Toda a verdade será, por definição e tradição, pública, caso contrário cairá no regime do segredo que é, tradicionalmente, o da ocultação, o da escuridão, o da noite, o da mentira. Não que todo o segredo seja mentira, e toda a publicidade seja verdade. Não. Simplesmente segundo a tradição filosófica ocidental a verdade foi sempre pensada em termos de claridade, iluminação, revelação, publicidade, luz - daí as expressões como "trazer à verdade/ trazer à luz", "descobrir a verdade", "revelar a verdade". Toda uma fotologia a acompanha desde o começo. E por oposição (também essa uma característica do pensamento ocidental, as oposições) a mentira, o segredo, a ocultação revelam-se e velam-se sempre na escuridão, nos véus, na noite, na ausência de luz. Toda uma fotologia negativa acompanha o pensamento do sigilo, do privado, do íntimo.)

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Kafka de comboio


Depois de um passeio pelo coração lisboeta, dirigi-me calmamente à Estação do Oriente (se há coisa que me dá cabo do senso é a mania do galicismo "Gare") a fim de apanhar um comboio que me trouxesse de volta às terras templárias. Como já ia em cima da hora daquele que tinha pensado apanhar, e havendo ligações de hora em hora, resolvi ir comprar o bilhete com antecedência para depois me deliciar com um gelado-frente-ao-Tejo no Vasco da Gama. Subi as escadas que separam o Metro das bilheteiras dos comboios e… o choque! A Estação do Oriente estava transformada numa espécie de zona de caos, entupida de gente, que, pensei eu, abandonava a cidade na sequência da declaração da quarentena motivada pela pandemia-seja-ela-qual-for-mas-vamos-todos-morrer-com-a-peste! Antes fosse… Resolvido a não perder tempo, procurei uma bilheteira com menos clientes. Como a imediatamente oposta estava em idêntico estado caótico, fui para a outra ponta da estação onde – via eu – estavam bilheteiras abertas quase sem ninguém. Esquecia-me eu que em Portugal nunca nada é assim tão simples… Lá chegado e após fazer o meu pedido fui caridosamente informado pelo funcionário da CP que ali só se vendiam bilhetes para comboios suburbanos, devendo-me eu dirigir às sobrelotadas bilheteiras do outro lado. (Respiro fundo). E lá vou eu. O caos continuava, por isso resolvi procurar a fila mais curta para as "úteis" máquinas de bilhetes, na esperança de ainda ter tempo para o meu geladito. (Respiro fundo). Ao fim de 10 minutos, quando faltava apenas uma pessoa antes de mim, o papel acabou e aquela máquina (entretanto a única máquina na Estação a emitir bilhetes, à excepção daquelas destinadas "apenas aos comboios suburbanos" – dupla inspiração funda) tornou-se inútil. (Respiro fundo). Já tomado de, posso dizê-lo, algum azedume, lá enfrentei a fila para uma bilheteira, a qual, começando já a atravessar uma das pontes que ligam ambos os lados da estação, ameaçava encontrar-se com a fila da bilheteira contrária… Atrás de mim um rapaz do norte quase acabava o namoro (?) enquanto berrava com a sua cada-vez-menos-mais-que-tudo que insistia em não perceber/escutar/compreender uma palavra das que ele vociferava em desespero, sem saber se tinha comboio para ir para o "Puerto" e depois para "Nine". De um lado para o outro havia famílias inteiras a correr confusas, a pedir papel para as máquinas, agarradas aos telemóveis com mais interrogações do que respostas, ou simplesmente gente que, já sem comboio (os anúncios de comboios esgotados sucediam-se) sentava-se a pensar no que ia fazer. (Respiro fundo). Vinte minutos depois, chegou a minha vez e pude – finalmente – comprar bilhete. Entretanto o "meu gelado" já tinha ardido, e portanto, só me restou comprar uma "sandocha" e um sumo e ir para a plataforma…



O comboio chegou e nele, nós os refugiados em fuga, conseguimos entrar. Apenas entrar porque era tanta gente apinhada que eu, excentricamente claro está, apenas consegui sentar-me à partida de Santarém (isto, apesar de um distinto Deputado da Nação pelo PEV nunca ter cedido o seu lugar sentado a nenhuma das pessoas a que as regras mandam dar… educações!). Valeu-nos a sorte de termos um revisor que com calma, educação e simpatia conseguiu ir levando a água ao seu moinho, sem problemas de maior, apesar de por lá ter permanecido praticamente todo o tempo em que eu estive de pé. (Respiro fundo prolongadamente).




Alguém poder-me-á explicar por que raio a empresa que todos pagamos com os impostos não é capaz de cumprir com a missão para a qual foi criada? Alguém poder-me-á explicar porque é que, sendo véspera de feriado, de fim-de-semana prolongado, em tempos de crise (logo, não é preciso ser sobredotado, a afluência será sempre maior), a CP é incapaz de: a) colocar comboios a circular que respondam à procura? b) ter bilheteiras em número suficiente para esse aumento de procura? E já agora: em face do caos instalado na "estação central da capital", porque não há medidas de urgência, de adaptação que permitam uma resposta eficaz à procura dos clientes? Mas passa pela cabeça de alguém que, uma empresa cujo objectivo é "transporte de passageiros e mercadorias por via ferroviária" veja isso como uma actividade excedentária? Mas então serve para quê? Apenas para consumir fortunas anuais dos nosso impostos para financiar a incompetência e o laxismo? É pedir muito que me possa deslocar (mais ecologicamente, ainda para mais!) de comboio sem que para isso me sinta sempre no terceiro mundo? Será pedir demais não querer sentir-me enxovalhado junto dos inúmeros turistas que deambulavam (espantadíssimos, claro está!) pelo meio da confusão, porque o meu país simplesmente não consegue funcionar em termos "europeus"? E ainda querem um TGV? Mas para quê se nem para os comboios regionais servem?!



E já agora: alguém poder-me-á informar quando é que Kafka passou a ser obrigatório nos nossos serviços públicos? Desde já muito agradecido! (Respiro fundo)



P.S. Profeticamente o livro que me acompanhava nessa viagem era Carta ao pai de Franz Kafka…


© Imagem aqui.