sábado, 6 de dezembro de 2008

E pluribus unum

Porque hoje é sábado fomos presenteados com uma vera amostra do país real (ou irreal, como se preferir). Diz-nos o DN que, na equipa de juniores da Casa do Benfica das Caldas da Rainha, os actos homossexuais no balneário são punidos com multa de 40 cêntimos.

Todo o artigo apela ao senso surrealista de cada um. Ao que parece trata-se de um regulamento interno em que são estipuladas coimas para vários comportamentos desviantes (presumo) dos jovens atletas. Aqueles passam por várias situações, que vão desde o "uso de telemóvel no balneário" (0,15€) até ao "cartão vermelho (anti desportivo [sic])" punido com 5€. Pelo meio vamos encontrar outras coimas por coisas como "atraso ao treino" (0,20€ por minuto), "tocar o telemóvel no balneário" (0,20€), "urinar no chuveiro" (0,50€), "cartão amarelo" (0,50€), "gases perturbadores (peidos)" [sic] (0,20€), ou "chapadas no rabo do colega" (1€) – para quem quiser deliciar-se a ler todas as "infracções", veja aqui.

Em face disto nem percebo porque só o item "actos homossexuais" causa brado nas touradas. Tirando as coimas que visam promover um mínimo de higiene e civilidade, todo o documento é uma pérola de lirismo e de refinamento cultural. Algumas curiosidades:

1 – Considerando que faz sentido que as faltas injustificadas (ao treino ou aos jogos), os comportamentos anti-desportivos e os atrasos (uma vez que calculada a coima por minuto) sejam alvo das coimas mais elevadas – são estes os comportamentos promotores da pontualidade, do espírito de equipa e do tão apregoado espírito desportivo -, não se entende porque é que o "cartão amarelo" é punido com um valor tão baixo, já que pode ter origem num comportamento agressivo do jogador ou desrespeitador dos outros intervenientes no jogo (repare-se que o "desrespeito perante um colega" é punido apenas com 0,80€!).

2 – Pergunto-me o que terá ditado a existência do dito regulamento interno, considerando que a necessidade de legislação é normalmente ditada por um apelo do real; mais: se bem me lembro das "fontes do direito", diz a doutrina jurídica que a lei tem como fonte os "usos e costumes". Logo, daqui pode concluir-se que os tais "actos sexuais homossexuais" fazem já parte do modus vivendi da equipa.

3 – Olhando para os valores das coimas facilmente se percebe que aqueles que têm um valor mais elevado incidem sobre os comportamentos mais reprováveis, e o inverso para os de valor mais baixo. Mais: usualmente o valor inferior será sempre atribuído a um comportamento mais recorrente do que a um menos; ou seja: é normal (e desejável!) que ocorram mais vezes as infracções relativas aos telemóveis, do que as punições disciplinares. A esta luz, arrisco dizer que o "acto homossexual" será mais usual do que a "chapada no rabo", uma vez que o valor da coima do segundo é mais do dobro da do primeiro (relembro que as multas mais elevadas são sempre para actos mais condenáveis e, usualmente, até por isso mesmo, com menor ocorrência).

4 – Urge esclarecer a população em geral - e os jovens interessados em particular - do que é entendido por "acto homossexual", uma vez que já se percebe pelo regulamento que disso não se entende "chapadas no rabo do colega". Isso, todos sabemos, pelo menos todos os que já frequentaram algum balneário de rapazes adolescentes, é não só usual e recorrente (only God would know why, or not!), como é – naturalmente, claro está, está-se logo a ver – coisa de homem! Perdão: coisa de Omem!

5 – Conclui-se que é mais barato praticar um "acto sexual homossexual" do que "chegar atrasado". Logo, quando o Mister (ainda me hão-de explicar o porquê desta expressão) perguntar onde andaram, será melhor dizer que estiveram ali a penetrar o Fulano, ou a acariciar-lhe o viril membro sexual... Sabendo nós que tuga que é tuga arranja todos os estratagemas para não pagar as coimas que lhe são impostas, a par da célebre tradição nacional de nunca chegar a horas a lado nenhum (mea culpa, mea culpa!), já se pode imaginar a verdadeira revolução cor-de-rosa que irá naquela equipa!...

6 – Uma vez que o dito regulamento se cinge apenas à equipa de juniores, presumo que na sénior, a existir, o mesmo não se aplique. O que é, desde logo, uma pena e, à partida, uma descriminação intolerável.


7 – Pergunto-me (uma vez que o regulamento é omisso) de qual a coima (a haver) em caso de "acto sexual heterossexual e/ou bissexual", "orgia", "bondage", "zoofilia" (presumo que particularmente grave em casos que envolvam águias), e outras práticas sexuais mais heterodoxas… O mesmo se passa com um "acto sexual homossexual" com "palmadinhas no rabo": o que fazer? Aplica-se o regulamento cumulativamente, ou leva-se em consideração o espírito do legislador da mais recente versão do Código Penal, e, como lá a propósito do "acto pedófilo continuado", conta-se como uma única infracção? Por falar em pedofilia: um "acto homossexual pedófilo" enquadra-se na definição de "acto sexual homossexual" ou não? (Considere-se a propósito que as questões relativas ao consentimento para o acto sexual e à sua idade poderão concorrer para diferentes entendimentos jurisprudenciais a respeito. Aguarda-se o esclarecimento)

8 – Atentando ao número de jovens portugueses que já consumiram "substâncias ilícitas" e ao número médio de vezes, talvez uma norma sobre uso de drogas viesse a calhar… Não sei, é apenas uma sugestão.


9 – Considerando que 0,40€ é menos do que o preço de um café, só me ocorre saudar os responsáveis pela Casa do Benfica das Caldas da Rainha que, assim, admitem a existência de homossexuais a jogar futebol, e, o que causa ainda mais espanto, no Benfica! Só lhes fica bem, honrando assim a terra-adoptiva e a criatividade do grande Raphael Bordallo-Pinheiro! E só demonstra que o Portugal profundo é muito mais liberal do que as suas elites o julgam… Afinal só se pede que os jogadores homossexuais não andem no balneário em brincadeiras perigosas – é que, para além de se atrasarem, pode estragar a concentração...


Sic transit gloria mundi!

Esperas

"(…) A princesa, compadecida por tão puro amor, disse-lhe então que se ele ficasse cem dias e sem noites debaixo da sua janela, lhe votaria um amor igual. (…) Conto Antigo

© Cobra, iô-iô



Como na fábula te aguardei, te guardei, te esperei debaixo da janela. Debaixo da tua janela. Mudavam as horas, soavam os sinos, e eu lá ia na penumbra da noite, guardar a tua janela. Mais de cem noites o fiz, mais de cem. Sempre que te sentia a falta, sempre que te sentia mais a falta, eu lá estava, noite após noite, umas vezes enregelado pelo frio, outras pingado pela chuva, mas eu lá estava. Debaixo da tua janela o ar tinha outro cheiro e a lua brilhava muitomuitomuito mais. Debaixo da tua janela te esperei, em silêncio, abrigado na escuridão da noite. Lá contemplei as sobras de ti que me chegavam, um vulto, as réstias de luz da televisão acesa enquanto dormias. Algumas noites cheguei antes de ti, noutras, simplesmente, já estavas a dormir. E eu a vaguear. Debaixo da tua janela fiz todas as orações do mundo, todas as orações que a terra pode parir num parto longo e doloroso. Debaixo da tua janela rezei. Por ti, por nós, por ti e por mim. Tantas horas debaixo daquele parapeito, para estar mais perto, para estar juntinho a ti. Para te proteger o sono, para afugentar todos os teus fantasmas.


Ter-me-ás sentido algum dia? Algum dia terás sentido a minha presença? Acredito que sim. Sinceramente acredito que sim. Tu sempre me soubeste por perto, sempre soubeste adivinhar que eu ali estava, que eu ali estava, nunca longe, nunca definitivamente longe. É uma das nossas coisas, esta capacidade de nos sabermos, de nos reconhecermos, de nos sentirmos, para além de todos os tempos, para além de todas as distâncias, sempre perto, sempre lado a lado. Sem nunca nos separarmos. Sem nunca dizer-mos adeus. Sabemos sempre um onde o outro está. Como está.


É como aquele sonho que um dia tivemos, numa noite em que tivemos o mesmo sonho: eu sentado com a tua mão apoiada no meu ombro; tu de pé, atrás de mim, a derramares os teus beijos na minha cabeça enquanto me abraçavas. Lembras-te? Nunca te vi, mas sempre soube que eras tu. Senti-te. Senti-te o cheiro e a força. Senti-te o amor e a ternura. Senti-te como te sinto tantas e tantas vezes.


Tu sempre me soubeste lá em baixo. E eu sempre soube que tu o saberias.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

...







Antes de mim ninguém
depois também ninguém
Serei eterno sobre as águas
repousando em teu ventre.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Resistências

A propósito do novo filme que por aí estreou sobre a Amália Rodrigues, hoje li no meu DN uma pequena entrevista com uma amiga dela, Estrela Carvas. A dado passo diz ela sobre as relações amorosas da Diva: " [Ricardo Espírito Santo] A Amália tinha uma simpatia e uma amizade enorme por ele. (…) Mas nada mais do que isso. (…) A grande paixão da vida dela foi o [Eduardo] Ricciardi. E, segundo o meu conceito, o grande amor da vida dela foi o César [Seabra]. Um grande amor é aquele que resiste ao tempo. (…)" [sublinhado meu].





No Comments.

Estória oriental

Uma orquídea nasceu onde havia uma velha fonte. Ao reparar que sobre si, uma bela magnólia se erguia, pensou: “que belas serão as suas flores, e quão agradável deve ser o seu cheiro nas noites temperadas de Primavera”. Passaram-se as estações e a árvore não floresceu.
Um dia um homem passou junto a elas e exclamou: “- Bela tília esta! Que agradável deve ser o seu chá!” A orquídea riu baixinho por o homem ser tão cego. Passaram-se as estações e a árvore não floresceu.
Um dia outro homem ali passou, e olhando-a exclamou: “- Que belo plátano este é! Que agradável será a sua sombra!” A orquídea riu baixinho da sandice deste homem. Passaram-se as estações. Um dia a árvore, por fim, floresceu.
Um homem ao passar exclamou: “-Que bela figueira esta é! E que lindos figos!” A orquídea riu baixinho e pensou: que loucura a dos homens que nunca vêem as flores onde elas estão.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Vinda II

De carne e de seda brotarão rosas em chamas
da tua pele de lava incandescente.
E as minhas mãos desenharão um sorriso
na tua boca toda de cerejas.


Juntos caminharemos sobre o mar e
com as minhas mãos te ungirei
- Bem da criação das aves que cantam,
sagrado o tempo habitado em ti.


Vem
eu te salvarei!



segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Arraial, Arraial...

Quando o mundo nos dinamita a esperança e esta nossa khôra pátria parece estar cada vez mais afundada e triste; quando o dia que hoje se comemora começa a parecer um simples acto de arrivismo social de uma sevilhana traumatizada de classe ("mesmo que a morte seja consequência da Coroa, antes morrer reinando do que acabar servindo!"); quando o dia que hoje se comemora começa a parecer um tremendo erro histórico...

... Eis que o Príncipe nos vem apanhar do chão e consolar (é também essa a sua função!), relembrando-nos quem somos. Quem fomos e quem somos. E seremos sempre. Por muito que o tentem apagar. Por muito que o queriam destruir. Há algo que permanecerá sempre. Os nossos valores, as nossas tradições, a nossa rectidão e a nossa coragem, esses permanecerão sempre. E a heroicidade dos que nos precederam e nos indicaram o caminho. Assim o queiramos lembrar. Assim os queiramos honrar! Assim o queiramos! Oxalá o queiramos...


Então, juntando a nossa voz à daqueles de há 368 anos, gritemos a plenos pulmões.


"Arraial, arraial, por El-Rei de Portugal!!!"


Viva Portugal, pois! E viva o Rei! (porque se não for ele, ai ai...)

Retrato do Cavaleiro quando Jovem

Não sei se já nos havíamos encontrado antes. Se tiver acontecido, não nos encontrámos mesmo. Mas lembro-me que num dia especial, o dia em que a instituição castrense me dispensou do serviço à Pátria, nos encontrámos, casualmente, à hora de almoço. Um dia luminoso de sol, com o Tejo e a luz de Lisboa toda a banhar-me o sorriso. Entrei na sala, virei à esquerda e lá estava ele. Julgo que já lá estivesse há muito tempo, mas isso também não interessa: a partir de então passou a estar lá para mim, para mim (sou egocêntrico, pois sou!)! Nunca mais me abandonou: desde então, uma imagem sua acompanha-me no meu espaço, no meu lugar – na minha khôra. Fascina-me a sua nobreza. Fascina-me a sua tristeza. Fascina-me a sua solidão. Se há imagem da solidão esta é uma delas. E é esta, também, por causa da sua história, das suas cicatrizes. Por causa do seu rastro ténue e esvaecido nos nevoeiros…

Responde pelo nome Retrato de Jovem Cavaleiro e é a minha obra do Museu Nacional de Arte Antiga. O pouco que se sabe sobre esta obra é que o seu autor é desconhecido, que será do século XVI (1540-1560), e que o jovem cavaleiro também é desconhecido. Mais, apenas reza que: “O quadro retrata um jovem cavaleiro representado em busto a três quartos. Enverga uma armadura de aparato, tauxiada de ouro, de cuja gorgeira metálica forrada a veludo vermelho sai uma gola de renda branca encanunada que lhe emoldura o rosto de feições finas e delicadas. Sobre a armadura sobressai, a tiracolo, uma faixa ou banda de seda vermelho alaranjada, sinal do poder por ele detido. Segundo Adriano de Gusmão, este quadro é um fragmento de uma tela maior, pelo que é provável que o cavaleiro ostentasse, para além da faixa/insígnia de comando militar, o bastão de comando usado pelos cabos de guerra”; que tem de altura 47 cm, e de largura 34 cm; e que a sua incorporação no MNAT foi feita através de compra à colecção Guerra Junqueiro (verba do legado Valmor). Nada mais. Nenhuma outra pista. Absolutamente, nada mais.

Sozinho no seu retrato (como convém) este Jovem Cavaleiro é refém da sua própria vontade. Quis imortalizar-se, quis perdurar para além da morte, para sempre. Para isso procurou um artífice do tempo, um artista, para o imortalizar, imortalizando-se. Ambos perderam a batalha contra o tempo. Ambos estão irremediavelmente perdidos, apenas restando deles, dos dois, este rosto triste e solitário, um menino armado cavaleiro, um menino ainda, que, dita-o a cronologia, terá acompanhado – talvez, podemos e devemos sonhá-lo – já homem feito, o ainda menino-Rei Sebastião nas quentes e sangrentas areias de Alcácer-Quibir. Um prometido à morte. Terá lá morrido, terá vivido, terá sobrevivido? Nada nos diz o Tempo. Apenas sabemos que ele, este rosto, este rosto triste e solitário, existiu sobre as pedras deste espaço a que se chamou Portugal. Por ele terá combatido, e talvez por ele tenha também morrido. Anonimamente morto, nas areias do Império e na memória dos seus. Para sempre. Mais morto do que se apenas desaparecido da face da terra. Não! O meu Jovem Cavaleiro permanece a fitar o seu próprio destino, a desafiar a imortalidade, na sua juventude fulgurante, para sempre. Preso para sempre no seu próprio desejo auto-ego-poiético-biográfico. Preso para sempre, sem descanso, sem repouso, numa imagem que, quis um dia, perdurasse.

Não será este também o nosso eterno e inconfessado desejo? A vontade de per_durar, a vontade de não desaparecer, de nos sabermos duráveis, eternos no nosso delírio autopoiético? Mas, a questão deve pôr-se: valerá a pena permanecer sem nome - afinal o que haverá de mais próprio do que um nome, o nosso nome? -, anonimamente, um rosto apenas, um rosto virado para o futuro, sem rastro, sem marca, sem voz? Um rosto sem passado, sem carne. Como se todo o tempo da duração fosse aquele, como se todo o tempo da vida fosse, apenas, à peine, aquele. Não será esta a triste ironia deste rosto? Um rosto que vingou durante quase cinco séculos, altivo, majestoso na sua juventude desafiante, orgulhoso na sua solidão de menino, mas um rosto sem nome, e dupla ironia, um rosto pintado por um artista anónimo, desconhecido. Sem assinatura, pois, um e outro sem assinatura.

É por isso que, desde aquele dia, sentado naquele magnífico jardim sobre o Tejo, com o cheiro da canela e do cravinho-da-índia ainda entranhado na brisa, este rosto não mais me saiu do pensamento. Não mais o abandonei. Sinto-o como uma missão. Sou um amigo distante que o não esquece, um combatente da sua solidão, da sua irremediável e triste solidão. Mesmo sem-nome, mesmo que totalmente anónimo, há alguém que o não esquece, que se lembra dele, do seu retrato, do seu rosto, daquele perdido por entre os outros rostos nas paredes impessoais de um museu. Aquele que um dia, um dia talvez até sentado neste mesmo lugar, ele quis que perdurasse como memória dele e daquele sol que banhava o Tejo, enquanto as velas das naus traziam entranhado o cheiro da canela e do cravinho-da-índia, e as gaivotas grasnavam a anunciar os combates nas areias distantes de além-mar.


É talvez, e também, ou sobretudo, uma luta contra a minha própria mortalidade. O desejo de que um dia, cinco séculos à frente, talvez olhando o Tejo num belo dia de sol, alguém possa lembrar-se de mim, e - espero-o do alto da minha soberba - saiba pronunciar o meu nome. Se eu perdurar, também ele terá perdurado. Tudo estará cumprido!