quinta-feira, 21 de maio de 2009

In Memoriam JBC

Em homenagem e in memoriam de João Bénard da Costa. Porque Portugal fica mais pobre. Porque o cinema em Portugal perde um dos seus grandes estudiosos e amadores. Porque a memória cinematográfica portuguesa muito lhe deve. Porque, para mim, a Cinemateca tinha um rosto. Porque cresci com ele. Porque (nos tempos em que ainda lia o Público) ensinou-me a gostar e a vibrar com o que via nas telas. Porque me ensinou a magia e o fascínio e o encanto - o cinema. Porque estou certo que o seu além será um cinema paradiso…



Palmas, pois! Obrigado e a_deus!






quarta-feira, 20 de maio de 2009

CSI Tuga

Leio, no DN, num artigo sobre o "CSI Tuga", um comentário do director do Laboratório Nacional da Polícia Científica, sobre as séries televisivas inspiradas no universo da investigação criminal (de que o CSI é, talvez, o exemplo mais famoso). Diz ele que "nós [eles lá no laboratório] não somos tão bonitos como eles, mas a principal diferença é a ideia de tempo", não só no que se refere ao tempo dos resultados das análises, mas também no que se refere aos dados a que os investigadores têm acesso: "ninguém acede a tanta informação com um simples toque de botão. Além disso, se qualquer polícia pudesse aceder a informação dessa forma, teríamos um big brother, uma sociedade sem o equilíbrio entre justiça e liberdade".



É curioso. Eu sempre que vejo essas séries televisivas (preferindo o CSI Las Vegas em relação às outras, as quais considero inferiores), à parte das considerações estéticas – que me eximo de comentar por não conhecer a realidade lusitana – penso sempre: bolas! Que bom seria se as nossas policias funcionassem assim! (descontando, claro está, a rapidez com que tudo acontece, coisa normal no universo televisivo). Mas lá está: eu acho mais importante apanhar os criminosos do que garantir supostos direitos da liberdade; é que a liberdade preserva-se e guarda-se impedindo que os dados pessoais caiam nas mãos erradas, sejam usados para fins ilegais, ou sirvam para perseguir os inocentes. Ou seja: a liberdade preserva-se pela via da estrita legalidade. E preserva-se apanhando, julgando e condenando os que infringem a lei. No extremo desta corrente deixaremos de prender os criminosos, porque é uma maçada e um atentado ao seu inalienável direito ao liberdade… Ah, pois é: já o fazemos!...

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Fistful of love *




I was lying in my bed last night
Staring at a ceiling full of stars
When it suddenly hit me
I just have to let you know how I feel


We live together in a photograph of time
I look into your eyes
And the seas open up to me
I tell you I love you
I tell you I love you I tell you I love you
And I always will
And I always will And I always will

And I know that you can't tell me
And I know that you can't tell me

So I'm left to pick up
The hints, the little symbols of your devotion
So I'm left to pick up
The hints, the little symbols of your devotion

I feel your fists
And I know it's out of love
And I feel the whip
And I know it's out of love
I feel your burning eyes burning holes
Straight through my heart

It's out of love
It's out of love


I accept and I collect upon my body
The memories of your devotion

I accept and I collect upon my body
The memories of your devotion

I feel your fists
And I know it's out of love
And I feel the whip
And I know it's out of love
I feel your burning eyes burning holes
Straight through my heart

It's out of love It's out of love It's out of love
(Straight through my heart)
It's out of love
It's out of love
It's out of love
(Straight through my heart)



Antony and The Johnsons



(... I was lying in my bed last night. Staring at a ceiling full of stars. When it suddenly hit me. I just have to let you know how I feel. We live together in a photograph of time. I look into your eyes. And the seas open up to me. I tell you I love you. And I always will. And I know that you can't tell me. And I know that you can't tell me. So I'm left to pick up. The hints, the little symbols of your devotion. So I'm left to pick up. The hints, the little symbols of your devotion. I feel your fists. And I know it's out of love. And I feel the whip. And I know it's out of love. I feel your burning eyes burning holes. Straight through my heart. It's out of love. It's out of love. I accept and I collect upon my body. The memories of your devotion. I accept and I collect upon my body. The memories of your devotion. I feel your fists. And I know it's out of love. And I feel the whip. And I know it's out of love. I feel your burning eyes burning holes. Straight through my heart. It's out of love. It's out of love...)



* (Porque estava lá. Porque estamos cá.) Oh give it to me! Oh give it to me! You know i want it... You know i want it... Oh poison me! Oh poison me! You know i want it... You know i want it...






domingo, 17 de maio de 2009

50






Pai, nas Tuas mãos entrego meu espírito. (Lucas 23: 46)






sexta-feira, 15 de maio de 2009

13 de Outubro de 1917

Para o Daniel. Por haver despertado a minha memória.



Herculana não se inquieta com a multidão. Gosta de festas, gosta de celebrações: afinal já viu algumas na sua vida. Anualmente gosta da algazarra da Festa do Senhor dos Passos onde muita gente acorre para assistir à tradicional Procissão (um arrepio percorre-a de cima a baixo: lembra-se do corpo do pai, morto num dia de procissão enquanto dormia a sesta. Benze-se.). E ainda há pouco mais de meia dúzia de anos lembra-se do ajuntamento que foi a visita d' El Rei D. Manuel II, coitadinho, a acompanhar a desgraça que foi aquele grande terramoto que até destruiu Salvaterra (arrepia-se novamente; lembra-se do medo que sentiu quando a terra tremeu, lembra-se do susto e das ruínas do velho Paço, incapazes de resistir a tão forte ataque) – Deus o acompanhe lá por longe, para onde ele foi ainda tão novo e tão ferido! E ela também não é uma saloiinha qualquer: já várias vezes saiu da sua Almeirim natal, já conhece algumas terras, praias e tudo, coisa que a maior parte dos seus conterrâneos não se pode gabar. Olha para Manoel e inquieta-se. Esta chuva que se abateu desde cedinho só pode fazer-lhe mal, já tão abalado está com aquelas chagas-do-demónio que tantas preocupações lhe têm dado. Não há meio daquilo passar e os médicos (parecendo não saber muito bem do que se trata) dizem que é preciso ter paciência; mas como pode ter paciência uma mulher nesta época desgraçada em que o marido é o sustento de uma casa?! Se ele lhe faltar, ai, valha-lhe Deus e não a castigue por, sequer, pensar nisso! Herculana aperta-se debaixo do guarda-chuva e lembra-se do seu Manoelzinho ("Manoel Alexandre", como o pai): desde cedo tem rezado pela sua saúde e felicidade, com os olhos rasos de água, aflita como Maria com o seu Filho – os tormentos de uma mãe nunca têm fim! Pensa no que estará o seu menino a fazer, mas depressa sossega sabendo-o o ai Jesus das tias, o único menino de uma família de mulheres (Deus guarde a alma do seu irmão Manoel, tão novo e já debaixo do chão e tanta água agora em cima dele, coitadinho!), das suas primas (tanta graça acha à relação que o seu Manoelzinho tem com as primitas, tão encantadores são todos e tão amigos – como irmãos, graças a Deus!).


Manoel não sabe as cogitações em que Herculana está. Também ele tem estado absorto, não sabe se é daquele tempo infernal se é da moléstia que o apoquenta. Inquieta-se ao pensar nisso, mas não gosta de partilhar com a mulher coisas que nem ele compreende muito bem. Tem medo de lhe faltar, a ela que tão dedicada lhe tem sido, e ao seu Manoelzinho, alegria daquela casa, onde todas as esperanças estão depositadas. O rapazito, apesar da tenra idade, é esperto e parece ir longe: queira Deus que assim seja! Parece-lhe que Herculana chora. Inquieta-se, mas não diz nada com medo de, com uma palavra, lhe despertar uma choradeira qualquer e as recriminações do costume que ele já conhece e não quer que sejam partilhadas com tantos estranhos. "Eia! Muita gente também cá caiu!", pensa, à medida que vai perscrutando o terreno em redor. Será que os relatos que ouviu sobre os petizes que falam com Nossa Senhora não são coisas de beatas e gente alucinada? Este pensamento inquieta-o ao pensar que tanto caminho fez para ali estar – mas a sua Herculana nunca lhe perdoaria não vir. Sabe que ela o faz sobretudo por ele. Tem sentido a preocupação no olhar e na voz dela sempre que ele está pior. E para desviar destes pensamentos começa a rezar!


Herculana continua a sua invocação de todos os santos que conhece! Aterroriza-a a ideia de ser mais uma viúva. Sabe o que são as viúvas desse tempo, sabe que a vida acaba ali e ela é demasiado viva, tem demasiado fogo para ficar morta por dentro. Pede à Senhora que Manoel deixe de beber. Ela sabe que, por muito que ele negue, as chagas ficam piores quando ele bebe mais e isso atormenta-a. Lembra-se da mãe e das noites em que o pai chegava a casa com o grão na asa. "Grão" é maneira de dizer que aquilo era homem que era um alqueire de uma vez! Lembra-se da pistola apontada à cabeça enquanto ele a obrigava - a ela e às irmãs - a ler a Bíblia. Lembra-se da mobília queimada e a outra perdida ou vendida aos companheiros da desgraça do jogo e do álcool. Lembra-se das fugas noturnas para casa dos padrinhos sempre que ele as queria matar a todas. Lembra-se de como ele, sóbrio, era "um homem perfeito". Lembra-se da recomendação da mãe – "filhas nunca casem com um homem com vícios!" – e tem medo que o seu Manoel vá por esse mau caminho. É interrompida nas suas inquietações pelo burburinho em redor…




(…)




A chuva parece ter finalmente cedido. Começam a surgir umas abertas e o sol quente de outono já mostra a sua graça aqui e ali, como se os raios fossem semeados à mão por um agricultor cósmico. Subitamente ouvem-se gritos, Herculana olha para o céu e parece-lhe que o sol está mais intenso. Arrepia-se e sente que tem de ajoelhar. Os joelhos em redor vão flectindo à medida que o sol baila no céu e parece despenhar-se sobre eles. Ouvem-se os gritos mas ela não tem tempo para isso pois olha para Manoel e não vê as malditas chagas que tanta apoquentação lhe têm dado. A alegria é tão grande que as lágrimas irrompem-lhes dos olhos e tudo o que consegue é pensar que o seu Manoelzinho terá pai para honrar! Em redor ouvem-se gritos de "- Milagre! É Milagre!" As lágrimas misturam-se com a alegria, a terra está seca como se não tivesse caído um pingo. Manoel, tolhido ainda pela surpresa, sabe que vai honrar aquele momento, aquela graça que Nossa Senhora lhe deu: não mais abusará da pinga! Sai daquela cova com nome de santa martirizada com uma vita nuova. E sabe que o deve à sua Herculana, afinal Nossa Senhora dá sempre ouvidos a uma mãe aflita!










*In memoriam da tia Herculana e do tio Manoel Alexandre (a grafia do seu nome ainda era esta), testemunhas anónimas dos acontecimentos da Cova de Iria de Maio de 1917. Ouvi a narração da cura milagrosa do tio da boca da minha tia Emília, pequena "primita do Manoelzinho", à data com 4 anos. Contava ela que essa era uma das primeiras lembranças que tinha da sua infância: o espanto causado pela cura testemunhada no regresso dos tios do lugar das aparições da Virgem. Anos depois a vida encarregou-se de a aproximar do lugar da aparição e aí (aqui) ouviu outras lembranças de outras testemunhas do sucedido (por aqui, e antes de 1917, era Nossa Senhora do Pranto de Dornes a rainha da devoção). Em todos a certeza inabalável: é milagre!



© O Manoelzinho com os pais (1925-1930)

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Rising up

Tropecei nela ainda há pouco. Há poucochinho. Ainda agora, como uma tempestade, caiu-me em cima, I got caught in a storm, e prendeu-me por completo. Arrebatou-me, elevou-me e atirou-me ao chão. Encheu-me a dobra do coração. Sem dar conta, rodopiei e rodopiei e rodopiei, I got turned, turned around. Como uma cómoda, uma porta, uma vaca no olho do furacão. Deixei-me ir… deixei-me levar, deixei-me navegar pelo vento, I was rising up, hitting the ground.




Quantas vezes não vimos as tempestades chegarem? Quantas vezes não fomos levados, arrebatados, e subimos e subimos e subimos e descemos e descemos e descemos, caindo e voando sem darmos conta. Enrolados em nós, acomodados em nós, demasiado estranhados e entranhados em nós, deixámo-nos ir deslumbrados com o correr, com o seguir, com o andar, things were flying around, and doors were slamming, and windows were breaking. Quantas vezes não te ouvi no meio da tempestade. Eu, eu e tu, no meio da tempestade, a rodopiar e a rodopiar, sem nos vermos, so I didn't call, and you didn't see me for a while, sem nos ouvirmos, and I couldn't hear what you were saying…




Desde então, aqui andamos os dois. Rising, rising, rising up…



terça-feira, 12 de maio de 2009

Terreiro abaixo

Infelizmente Portugal sofre de um lamentável síndrome de novo-riquismo. Por cá a história é mal tratada e vilipendiada, a língua é abastardada, o património é deixado ao Deus dará. Desconheço qual a raiz do problema (se ela for diagnosticável ou identificável), mas sei que isso me irrita absoluta e infinitamente. No campo do património essa tendência é mais notória, mais facilmente identificável, e, se quisermos, mais irritante ainda. Nunca um monumento está em paz em Portugal: ou é deixado à sua triste ruína, ou é "atacado" por enxames de arquitectos e outros que tais que, desrespeitando na maior parte das vezes o que lá está, querem sempre deixar uma marca, fazer um contraste, realçar um aspecto, ou seja: marcar território como os animais (e ainda há-de aparecer algum que marque efectivamente território como os animais e ainda lhe chame intervenção urbana e arte contemporânea! Garanto que ainda há-de aparecer!). Se isto foi apanágio na nossa história arquitectónica, tornou-se mais grave no século XX com as noções de "património" e de "conservação" do mesmo. Dos conceitos puristas da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais do Estado Novo, aos dislates do "poder autárquico" analfabeto da Terceira República, os casos são (infelizmente, também) quase infinitos. Aliás, estou convencido que, fôssemos um país rico, e já havíamos arrasado grande parte do nosso património para dar lugar a "conceitos contemporâneos"… O que me parece que esta gente não entende é que não vão inventar o mundo: para o bem e para o mal ele já cá está e aquilo que eles podem fazer é reinventá-lo – quando for caso disso, quando houver necessidade disso, quando isso for necessário. Mas não: as cabecinhas pequeninas não sabem o que é "restaurar", "renovar", "reabilitar" sem meterem o bedelho, que é como quem diz, sem darem a mijadela no canto!


Graças a isto temos praças e ruas com meia dúzia de nomes (variam consoante as épocas, os regimes ou os gostos dos fregueses…), temos praças e ruas que de tão incaracterísticas já ninguém sabe quando apareceram, como apareceram e qual o seu uso. Ao longo dos tempos vamos acumulando estilos e gostos e, no fim, o que resta, é uma confusão que ninguém percebe muito bem, mas a que se chama sempre "moderno" ou "contemporâneo"…




Deu-lhes agora para atacar o Terreiro do Paço / Praça do Comércio (lá está!). Não contentes com, ainda há uma dúzia de anos, a remodelação que lá foi feita haver devolvido a placa central aos peões (com a feliz retirada do parque de estacionamento novo-rico que por lá havia), eis que é preciso (de novo) devolver a praça aos peões! E, aproveitando umas obras necessárias que já deviam ter sido feitas por altura de outras igualmente necessárias (um dia saberemos quanto nos custam estas brincadeiras), lá apareceu o inefável e corriqueiro projecto para "revitalizar a praça". A proposta (daquelas propostas que, à portuguesa, são quase imposições e pontos de honra dos democratas cá do burgo) é, no mínimo, um crime de lesa património. No máximo, uma anedota. Eis que as alminhas que a conceberam, no fundo das suas cabecinhas iluminadas pela modernidade vanguardista, lá resolveram desencantar o piso que deu nome ao lugar (terreiro), propondo pois que a placa central seja coberta com "um conglomerado de saibro ou gravilha com resina". Hã? Não contentes, e já deslumbrados com os seus conhecimentos de história, propõem que, nos passeios junto às arcadas (agora já não se dizem "Ministérios" porque as cabecinhas até isso querem expurgar do lugar) sejam desenhadas linhas citadoras das linhas das cartas de marear quinhentistas. Hã? Para além disso, e porque somos todos atrasados mentais, propõem que seja construída uma espécie de passarela (o que eles precisavam era da passarola de Frei Bartolomeu para desandarem daqui para fora!) a ligar o Arco da Rua Augusta à Estátua Equestre de D. José I e desta ao Cais das Colunas (neste novo projecto transformado num apêndice circular), a fim de marcar um percurso até ao rio. Hã? Ao que parece também querem subir ligeiramente a cota da placa central para que a vista do rio se afirme (porque o Tejo é um "ribeirito" que quase ninguém nota por aquelas bandas, claro está!). Hã? E nas "arcadas", libertas do peso levemente maçador dos Ministérios, querem esplanadas e hotéis e outros que tais.




Podeis apreciar aqui a dimensão da tragédia:




Terreiro do Paço: História, Presente e Futuro




Frente Tejo assume opção pela redução «drástica» de trânsito




Novas imagens do futuro Terreiro do Paço já foram apresentadas




Opinião: Terreiro do Paço - Que futuro?




Losangos para o Terreiro do Paço pouco consensuais mas calçada não é obrigatória


Do Terreiro do Paço (porque we'll always have paris, mas quem nos tira a luz de Lisboa e o Tejo tira-nos tudo, não é Pedro?)




Hã???




Sinceramente não sei se chore, se ria, com tanto disparate junto. O Terreiro do Paço (eu prefiro o nome antigo porque é mais emblemático do que sempre por ali se passou, desde D. Manuel I) é a grande praça lisboeta. Minto: é a grande praça de Portugal! Goste-se ou não, foi para isso que foi concebido, primeiro no tempo da Carreira das Índias, depois, no tempo da Carreira do Brasil e da reconstrução "pombalina" (o nome Praça do Comércio é, em si, todo um programa político do desenvolvimento mercantilista do Reino e do entendimento que então se fazia do que eram os negócios do Reino). É então, desde sempre, desde o seu nascimento como grande praça de poder (na transição do século XV para o século XVI), a grande sala de visitas de Portugal. Lá se fez a história dos últimos 500 anos lusitanos. A partir de lá se ergueu um Império e (curiosamente!) lá também esse Império se desfez! ("É só fumaça") Na reconstrução da Baixa posterior ao Terramoto de 1755 é curioso verificar que, não só a memória do antigo Terreiro do Paço foi mantida, como foi engrandecida com as linhas que – então – gizaram uma cidade moderna e cosmopolita. Desde então, aquela é a grande praça da encenação do Poder em Portugal (e, concomitantemente, em tudo o que foi o Mundo Português). Aquele é o grande palco da Política e do Poder lusófonos! E não perceber isto é não perceber nada do que foi Portugal, pelo menos, na última metade de milénio!




Ora, é precisamente isso que este projecto põe em causa. A dignidade do grande palco do Poder lusitano (e um dos raros exemplos no mundo com a dimensão, o equilíbrio, a magnitude e a beleza do nosso Terreiro do Paço).




Concebido para ser uma grande e gigantesca "praça real" (por oposição às mais pequenas e mais populares Praça do Rossio/D. Pedro IV e Praça da Figueira/D. João I), dominado pela figura do monarca absoluto (naquele absolutismo à portuguesa tão diferente do restante europeu), D. José I, a cavalo, em traje de gala, pisando as "víboras" que atacam o seu prestígio (pelos vistos não calcou tantas quantas seriam necessárias!), o Terreiro do Paço foi concebido a pensar na materialização do Poder na arquitectura. E foi concebido para encenar a ligação de Lisboa ao Tejo e de Portugal aos Oceanos (tal como, noutra escala e noutro "mundo", a Praça de S. Marcos de Veneza foi concebida para projectar o poderio da grande cidade-estado sobre o Adriático). Não se compreende, portanto, porque é que, ao invés de encontrar uma simbiose entre a "calçada portuguesa" (que Portugal legou ao mundo, do Rio de Janeiro a Macau) e o lioz característico da região (e dos pisos) de Lisboa (julgo até que era o que lá estava), a opção arquitectónica – discutível como todas, ao invés do que parece perpassar do discurso vitimizante dos arquitectos – tenha apostado no incaracterístico e de mau gosto "composto de saibro ou gravilha". É que se é para citar o tempo do terreiro também podem começar a organizar uns autos de fé (contemporâneos do piso!) e umas touradas, ou a espalhar sacos de pimenta e bostas de cavalo para dar maior realismo à coisa… Quanto às "linhas cartográficas" nos passeios laterais também não julgo que se enquadrem minimamente no perfil iluministo-racionalisto-burguês que presidiu ao desenho da praça e da restante Baixa lisboeta. Que isso seja feito no Parque das Nações estou totalmente de acordo e até acho valorizador – no Terreiro do Paço acho uma idiotice pindérica. Tão-somente. Já no caso da "passarela" ou da alteração da forma do Cais da Colunas acho que são propostas tão inimagináveis que nem merecem referência mais aprofundada; e por um simples motivo programático: se há coisa que a "arquitectura pombalina" ensina é a não haver desperdício, não haver barroquismos e a tudo ser útil e racional – essas alterações não são!




Já na questão do alargamento dos passeios laterais acho que deve haver alguma ponderação. Sendo eu absolutamente favorável a uma redução do tráfego automóvel no Terreiro, não sou de todo favorável àquilo que é proposto (se acho bem que a Rua do Arsenal fique reservada aos trasportes públicos, a ideia de haver apenas duas faixas de atravessamento marginal parece-me outro disparate lírico que, ademais, provocará um estrangulamento nessa importante via de comunicação da cidade - o mínimo aceitável são duas faixas para cada sentido). Isto porque, ou as imagens virtuais falham muito, ou os passeios vão ficar absolutamente desalinhados com as ruas da Baixa (do Ouro e da Prata) e isso parece-me mais um aborto geométrico numa zona onde a geometria é tudo! Para além disso ouço há muito esta ideia do Terreiro do Paço como uma "praça popular", fruída por imensa gente por lá abancada em esplanadas e afins… Se não julgo que aquela seja a praça mais indicada para isso (o seu tamanho é impeditivo desse ambiente de proximidade familiar), julgo também que, a não ser que a abandalhem com pára-ventos altamente duvidosos, dificilmente o seus passeios serão agradáveis para a fruição diletante urbana. E até penso que não é desejável: para isso existe o Rossio, existe a Praça da Figueira (se bem que os tristes ventos da modernidade saloia também aí tenham relegado a Estátua Equestre do Mestre de Aviz para um canto subalterno), e poderia existir a Praça do Município (fosse ela viva), ou o Campo das Cebolas.




Sou, por isso, favorável à manutenção do Terreiro do Paço como grande praça histórica e cénica de Lisboa e de Portugal. Com fachadas amarelas e lioz e calçada portuguesa no chão. Com alguns bancos discretos e sóbrios. Sem árvores (se bem que goste das imagens que mostram uma praça orlada com árvores, julgo que o seu projecto arquitectónico recusa a sua existência: para isso existem o Rossio e a Figueira, insisto!), mas podendo muito bem receber uns vasos discretos com arbustos bem cortados. Com esplanadas nas arcadas, se isso não implicar grandes adereços (se há coisa que acho que deve ser apreciado é o despojamento, e ainda assim extraordinária beleza, daquela praça!). Com os ministérios no sítio que foi criado para eles (se compreendo que alguns terão de sair porque as instituições mudam, julgo que pelo menos dois, por aquilo que representam, lá devem permanecer: O Ministério das Finanças e o Ministério da Justiça), e a sede do Supremo Tribunal, ou seja, a sede absoluta (e já não absolutista) do Poder em Portugal. Pelo menos isto. E se querem mais gente a "fruir" a praça, experimentem reabilitar a Baixa, atrair gente para lá viver e talvez tenham surpresas. E sem insufláveis publicitários, "jardins portáteis" e outras parvoeiras: o Terreiro do Paço não tem de ser animado como uma feira permanente - um dos seus encantos, volto a repeti-lo, é o despojamento, é o espaço, é a luz, é a abertura de horizontes...




E a propósito: que é feito de um projecto que todos pagámos (e pagamos sempre todos, dislates ou não), apresentado pouco antes da partida do Sr. Barroso para Bruxelas onde, a par da reabilitação da Baixa, previa a reabilitação do eixo Santa Apolónia – Cais do Sodré com a ideia (magnífica, parece-me!) de, na Ribeira das Naus, criar uma zona de exposição (citação do antigo Arsenal da Marinha) com réplicas dos navios dos Descobrimentos visitáveis pelos turistas – e, o que é melhor – no preciso local de onde eles partiam e onde chegavam das carreiras imperiais? Local para onde iria a (triste) Fragata D. Fernando e Glória, recuperada para a Expo 98 e novamente votada ao apodrecimento inglório da Nação que lhe coube procurar enriquecer?




E já que falamos nisso, que tal montarem umas carreiras de barcaças turísticas que partindo (do Cais do Sodré, de Santa Apolónia, de Belém, do Parque das Nações ou de outro lugar qualquer) aportem os turistas ao Cais da Colunas, dando-lhes a "visão dos reis" de verem crescer diante dos seus olhos a beleza do Terreiro do Paço sem "travestismos", mas apenas ele, simbólico e belo, austero e imperial, doce e sereno, no permanente enamoramento de Lisboa com o Tejo? Isso, sim, era moderno! E catita!









© Estátua Equestre de D. José I.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Uma Grande Senhora

Há gente que não devia morrer. Devia haver uma quota (há-as para tudo e para todos) de gente a quem fosse permitido (e fosse mesmo exigido!) permanecer; com vida; com coragem; com saúde; com determinação. Gente que é grande demais para voltar, simplesmente, ao pó. Gente que é a argamassa da eternidade e da memória.




Maria Estefânia Anacoreta.



Sem mais, o seu nome. O nome para a eternidade. O nome dado à memória. De todos os que teve a graça de tocar e de todos os que, lembrando-a, a querem honrar e homenagear. A querem guardar. Aqui vos deixo um exemplo de vida. Tão só: um exemplo (sem adjectivos). Uma Senhora. Uma Grande Senhora! A voz da saudade.