terça-feira, 30 de setembro de 2008

Os ciganos

No mundo da minha infância, nesse mundo estranho e distante em que vivi, o mundo dos joelhos esfolados e da fruta comida das árvores, uma coisa me causava maravilha: a chegada dos ciganos.

Todos os anos, mais do que uma vez por ano, mas uma delas parece-me que por esta altura em que a terra cheira a mosto, antes das primeiras chuvadas a sério, uma família de ciganos passava na minha aldeia e acampava nas ainda-não-ruínas da velha loja da quinta onde quase nasci. Era uma coisa estranha, num mundo que me parece cada vez mais distante e intrigante. Aquela família de nómadas aparecia quase sempre na mesma altura e pedia para ficar instalada – talvez se dissesse “acampada” – lá na quinta. E isso era-lhe permitido, desde que não causasse qualquer estrago lá ou na vizinhança (ou pelo menos qualquer estrago de maior, porque uma ou outra galinha acabava sempre por desaparecer, assim como as carpas que o meu Tio criara com tanto esmero no velho tanque da rega do milho acabaram todas fritas, numa bela manhã de sol). Com os anos a confiança foi crescendo e já se conheciam os filhos do velho patriarca, os netos, e os cães que traziam consigo e consigo desapareciam como se fossem eles a apagar o seu rastro no mundo. Era algo que me parecia quase mágico: num dia adormecia a sonhar com a próxima aventura “no meu castelo” e, pela manhã, mal saía à porta lá estavam eles, de casa às costas, como se sempre ali tivessem estado, e apenas uma ou duas vezes por ano a cortina desaparecesse e nos permitisse vislumbrar o outro lado do mundo.

Claro que o meu contacto com essas estranhas criaturas era reduzido ou quase inexistente. Em casa era proibido de me aproximar, não fosse o diabo tecê-las, ou uma qualquer doença trazida pela não vacinação me atacar. A sua não-rastreabilidade assustava as minhas cuidadosas progenitoras. Mas isso só aumentava a minha curiosidade. Lembro-me que inventava mil e um estratagemas para me aproximar, para arranjar um ponto de observação eficaz de onde, sem ser notado, pudesse absorver-lhes a alma, descobrir-lhes o segredo, seguir-lhes o rastro. E quando os seus olhares me descobriam, lá me escapava eu, vermelho, a rebentar de vergonha de ter sido descoberto.

Nesse mundo estranho e encantado em que vivi, os ciganos eram um desarranjo do normal, eram uma excepção, uma diferença infinita com a vida. E lá ficava eu a observá-los, achando que estava a empreender a mais arriscada das empresas. Tudo me atraía: as vestes negras, os longos cabelos das mulheres, as barbas e olhar desafiador dos homens, os banhos ao ar livre dos miúdos… Para mim era algo semelhante a um contacto com povos do outro lado da terra. Até a língua me parecia diferente! E ao anoitecer encantava-me a fogueira a crepitar na noite, os vultos, as músicas, os ruídos do burburinho ali ao pé. E um dia, tão magicamente como haviam chegado, partiam quase sem darmos por isso, deixando para trás um pequeno rasto de lixo que eu cuidadosamente investigava. Demoravam um ano (às vezes até menos) e depois lá regressavam a pedir um lugar.

Foi assim até que um dia, mais tarde, as regras foram quebradas, e os cães latiram toda a noite, tristes, angustiados por pressentirem a chegada do fim de um tempo. Um tempo que hoje me parece genésico (para mim, pessoalmente, era-o), que terminou com a partida definitiva dos ciganos, daquela família agora sem patriarca, sem o rosto da confiança, que durante tantos anos havia estabelecido os mais invulgares laços de respeito mútuo e amizade. Mas nem aí, nem no momento da traição e castigo se pode ter falado de falta de respeito: partiram numa tarde chuvosa, cientes de haverem quebrado o contrato que os uniu durante décadas à nossa casa. E lá foram. Sem rastro. Sem volta.

Hoje acho engraçado que, num mundo que muitos vêem e querem fazer ver como arcaico, limitador e opressor, houvesse este e muitos outros espaços de liberdade e respeito. De aceitação do outro, como agora está em moda dizer-se. Nesse mundo distante e cada vez mais mágico, os ciganos eram vistos como gente, gente diferente é certo e como não poderia deixar de ser, mas gente que, cumprindo com a sua palavra, levando uma vida honesta, podia acampar ao lado da nossa casa e viver lado a lado. Sem bairros sociais, sem descriminações positivas, sem paternalismos socialistas, sem ficções sociais. Gente com direitos e deveres; gente a quem era exigido que, podendo levar a sua vida como quisesse, não interrompesse o correr da vida dos outros. Gente que era respeitada, contando que também respeitasse. Como os tempos mudaram, Deus meu!

Hoje, ao ver um grupo cigano animadamente acampado numa esplanada no seu lado da cidade, arderam-me outra vez as feridas dos joelhos, e voltei a olhá-los com fascínio, como quando o tempo era de comer os dióspiros debaixo da árvore, limpar-me às folhas, e correr a construir um castelo nas toiças de giesta.


segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Balancete

Perdeste-me no dia em que me tiveste. Quando, pela manhã, o sol todo a ferir-me os olhos, saí de tua casa, deixei-te lá sem olhar para trás, sem pensar duas vezes. Perdeste-me no dia em que me tiveste. E eu, perdendo-te, ganhei-me.

Enquanto ia para casa, já sabia que não te voltaria a ver. Não o queria, e possivelmente, nunca sequer o quis. Foste um meio para eu ter algum prazer e mesmo esse não foi assim tanto. Desde o começo soube que éramos um erro. E os erros corrigem-se. Sou cruel? Talvez, minha querida, talvez. Sou-o sendo, e assumindo-o. É o que devemos fazer com os nossos pecados e no teu caso acho que foi só um pecadilho. Não te ofendas, por favor. Não o quero. Apenas acho que fomos um erro. E esses, já to disse, corrigem-se.

Perdeste-me no dia em que me tiveste. Por isso, quando me ligavas para nos vermos, te dava mil e uma desculpas para não o fazer. E isso, quando te atendia. Não era por mal, minha querida, mas sabes, nada tinha para te dizer. Nem sequer para te ver. Não me apetecia, não te queria. Pouco o quis, e quando aconteceu, soube imediatamente que era um erro. Por cobardia, hábito ou esquecimento fiquei. Nada mais.

Nunca devemos amar alguém a quem não podemos amar. Porque isso é injusto para ti e para mim. Prefiro que me aches cruel, um sacana infinito, do que injusto. A vida é mesmo assim e nada podemos fazer. Mas podemos nós mudarmo-nos. Foi o que fiz, naquele dia, pela manhã, o sol todo a ferir-me os olhos, e eu a sair de tua casa, a deixar-te lá sem olhar para trás, sem pensar duas vezes. E assim me ganhei.

Renunciando-te, encontrei-me! E não renunciei a muito, acredita! Achas-me cruel, pedes-me para que pare, que já percebeste o que queria dizer. Acredita que não queria, não quero e nunca quererei magoar-te. Apenas dizer-te que não quero. Que não te quero. E que não queiras o que eu nunca quis. Mereces mais – todos merecemos! - e decerto encontrarás quem te dê o que eu nunca te pude dar. E nem sequer queria.

Enganei-me. Perdoa-me se conseguires. Se não, olha, paciência. Nunca podemos ter todo o perdão do mundo e há sempre alguém que fica pelo caminho. Paciência. O que é meu estará guardado? Espero que sim. É bom sinal se assim for. Tu também só acreditaste em nós porque precisas de acreditar num nós com alguém para continuar. Eu também. Só não é contigo. Nem nunca foi. É tão simples, não é?

sábado, 27 de setembro de 2008

I want, I want

Open-mouthed, the baby god
Immense, bald, though baby-headed,
Cried out for the mother's dug.
The dry volcanoes cracked and split,

Sand abraded the milkless lip.
Cried then for the father's blood
Who set wasp, wolf and shark to work,
Engineered the gannet's beak.

Dry-eyed, the inveterate patriarch
Raised his men of skin and bone,
Barbs on the crown of gilded wire,
Thorns on the bloody rose-stem.

Sylvia Plath

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Em estado de diplópode espiralado

A minha periquita morreu esta manhã. Caiu do poleiro e a vida esvaiu-se do seu pequeno corpo amarelo em pouco tempo. Partiu de manhã, na manhã do aniversário (não haverá palavra mais adequada, mais certeira, menos festiva, menos alegre, para dizer os aniversários das mortes, das mortes da vida?) da morte da minha Tia - a sua "dona" favorita. Partiu de manhã, como todos os que amamos, gente ou bicho, parte sempre de manhã, de manhãzinha, sempre cedo demais, sempre antes da hora, sempre apressado. Partiu numa manhã de sol, uma manhã igual a outra de há dois anos. Nessa, o ar esvaziou-me o peito e, não fosse a janela estar perto, certamente também eu teria ido com a manhã. De manhã. Demasiado de manhã. Nesta, o choro irrompeu-me como quando era pequeno e esfolava os joelhos. E é pequeno que me sinto, pequeno de mais, demasiado matutino, demasiado ferido, demasiado exposto, demasiado pequeno. Sinto-me como um diplópode espiralado, enrolado à minha volta, defensivo e exposto, para parecer grande, para parecer temporão. Como um ouriço-cacheiro (hérisson, Igel, istriche) que, pressentindo o perigo, se enrola sobre si mesmo. Protege-se, submetendo-se ao perigo, expondo-se ao perigo, sem sequer o ver chegar. Sempre cedo, numa manhãzinha, sempre demasiado cedo.

E, sim, acaba sempre por chegar, e sempre antes da hora, e não podemos (nunca, nunca, nunca) impedi-lo. Sei-o e soube-o de madrugada, demasiado de madrugada. Por mais que tentemos (tentemos, tentemos, tentemos), por mais que procuremos escudar-nos, levantar os espinhos, enrolar-nos sobre nós e esperar que passe ao lado, chega sempre. Sempre. Demasiadamente sempre.

Hoje veio e estou triste. Por isso me enrolo. Para levar calor ao coração, porque a manhã foi fria. Para aquecer o coração, porque a tarde tarda. Para tatuar um abraço à minha volta.

Hoje veio e levou a Patchoca. E estou triste. Pronto.

2


tanto por dizer quando os dias parados
dos passos perderam o canto

tanto por dizer quando nada pode
ser enxerto já


El crecimiento de la hierba - Joaquin Taboada

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

acto I

Uma névoa encarnada projectava as horas na penumbra do quarto. Os minutos sucediam-se à cadência do coração, lento e apertado no peito, afogado nas lágrimas caladas de um frenesim de carne e sangue. Um soluço seco, um sufoco, viajava por dentro de si. No ar um cheiro a tabaco tomava espessura sobre o corpo nu e hirto, semi-descoberto numa cama cada vez mais pequena para dois. Ao seu lado T. dormia com a respiração funda e pesada de criança estafada depois de um dia de folia e guloseimas. A sua calma, a sua serenidade, a profundidade do seu sono – o sono dos justos depois da satisfação – pareciam-lhe quase uma ofensa, mais uma provação a suportar. Se ao menos conseguisse também assim dormir, tudo serenaria, tudo faria sentido, e amanhã, quando despertasse, talvez não tivesse passado de um sonho. Um sonho bonito e excitante, mas apenas um sonho. Sem mais consequências. Pensava como seria bom não haver consequências das coisas que se fazem; parecia-lhe libertador naquele momento viver a vida toda sem pensar em mais nada, sem pesar, nem ponderar, nem ter de atender a mais ninguém, senão à satisfação dos seus interesses e afectos e desejos. Ser absoluta e inteiramente livre, sem constrangimentos, sem medos, sem muros. Apenas ser. Intensa e violentamente, ser.

Distraiu-se por um momento, pois o cair dos minutos tinha parecido incomodar T. que agora, virando-se naquela cama pequena, pequena demais para dois, cada vez mais pequena para dois, se ajeitava encostando o seu corpo grande ao seu. O calor daquele corpo, aquele corpo ao qual ainda há pouco (ou seria já há muito? teriam passado já horas desde que os seus corpos se engalfinhavam e as suas mãos corriam o mundo um no outro? teria passado já tanto tempo a olhar para o tempo?) devorava a sua boca e as suas orelhas e o seu pescoço, sabia-lhe bem, transmitia-lhe alguma sensação de segurança. Era como se, se de repente o mundo ruísse e o chão tremesse, aquele corpo servisse de abrigo; e lembrava-se de simulacros e de conselhos das autoridades em caso de terramoto. Se algo acontecesse, nada lhe cairia em cima, e ali teria de ficar até os cães-pisteiros lhe descobrirem o rastro e dessem sinal de que ali estava, ainda a cheirar a T., com o gosto de T. na boca, e T. a fazer de trave protectora. T. decerto não se importaria dessa função salva-vidas e ainda haviam de rir os dois da cara dos bombeiros quando os vissem de lá sair.

Não conseguia perceber. Porque se sentia em segurança ao mesmo tempo que só tinha vontade de dali fugir. Pensou por momentos como seria bom levantar-se devagarinho, vestir-se e sair sem uma palavra, sem um beijo de despedida (afinal não tinha tudo começado assim, com a promessa de um beijo?), sem um aceno ou um olhar de relance. Mas logo se lembrava que era T. quem estava em sua casa, e não o contrário. Se assim saísse, mesmo que o pudesse fazer (depois diria ter algo a tratar de manhã cedinho e não ter tempo a perder, ou uma qualquer desculpa esfarrapada que não parecesse anunciar uma fuga constrangedora, ou não daria desculpa nenhuma. e pronto.), sentir-se-ia ainda pior, como se para além de tudo fosse cobarde. Não, isso não. Tinha de ali permanecer e dormir. Só queria dormir e acordar e decerto “amanhã tudo fará sentido!”, pensava. Dormir e acordar de novo. De novo.

Mais um minuto caía no relógio, aos poucos esmorecido pela claridade que começava a fazer-se notar. A seu lado, T. dormia cada vez mais serena e profundamente e agora o seu corpo parecia mais colado ao seu. Afastou uma perna, num gesto de pudicidade desconhecida, e ficou, quase em equilíbrio na beira da cama. Precisava de espaço, sentia as paredes apertarem-se e o ar fugir-lhe do peito. Talvez se se levantasse...Mas iria para onde? Ficaria a vaguear pela casa até ser dia? Iria pespegar-se em frente à televisão, como se tivesse insónias? Mas tinha frio. cada vez mais frio. Se ao menos tivesse “despachado” T. depois de tudo terminado! Mas os termos em que pensava sobre isso faziam-lhe ainda mais impressão. Porque sentia dificuldade em chamar “amor”, ou “sexo”, ou qualquer outra coisa ao que se tinha passado entre eles? Apenas conseguia pensar “naquilo”, “no que aconteceu”, “no que se passou”, e não conseguia dar um nome, um nome que pudesse descansar e arrumar o assunto. Um nome sempre serena, sempre arruma as coisas e evita que se pense muito nisso. E que descaramento T. ter ali ficado! Um mínimo de decência seria depois do “serviço feito” levantar-se e sair respeitosamente! E com esta última associação comercial sentiu um arrepio fundo e gelado subir-lhe e trepar à nuca, causando-lhe náuseas e aumentando-lhe a angústia. E a solidão.

Estranhamente, parecia-lhe ser disso que se tratava. (talvez a chegada da manhã ajudasse a aclarar as coisas no seu pensamento, talvez… quanto tempo faltaria para a manhã? talvez fosse melhor permanecer vigilante enquanto arrumava as gavetas e punha as entranhas a corar…). Agora conseguia perceber melhor (também, estava num estado cada vez mais desperto, e só pensava na hora em que T. acordaria, sairia – finalmente! – e deixaria o quarto só para si. “A César o que é de César”, dizia para consigo!) e o pensamento começava a fazer algum sentido: o que sentia, o que lhe causava aquela angústia profunda, era uma espécie de solidão. E quase que riu à gargalhada alto, quase que riu de si, por lhe ter passado pela mente aquela ideia estapafúrdia! “Solidão”, dizia para consigo, “solidão com “tudo o que se passou” e com T. aqui ao lado a ocupar-me a cama toda!”. “Tomara eu!”. Mas a ideia não lhe saía do pensamento e começava a fazer lastro. Pensava que enquanto tiveram “sexo” (a expressão parecia-lhe agora mais adequada, suficientemente neutra para não provocar dois pensamentos seguidos sobre o assunto), enquanto os seus corpos se engalfinhavam (sim, gostava desta expressão, “en-gal-fi-nhar”… fazia lembrar algo de carnal, de animal, algo que lhe agradava dado o contexto também carnal em que se encontrava, demasiado carnal numa cama cada vez mais pequena para dois), enquanto se engalfinhavam um no outro (decididamente a expressão era engraçada e imagética. Gostava e haveria de se lembrar dela para utilização futura), conseguia agora perceber, um estranho e perigoso abismo havia-se aberto no seu corpo: por um lado a sua carne, a sua pele, o seu desejo “engalfinhavam-se” com T., (sim, sem dúvida gostava da expressão. Tinha um toque de humor que lhe agradava; dizer que alguém se tinha engalfinhado com alguém, sexualmente falando, dava-lhe vontade de sorrir, ao mesmo tempo que lhe despertava os sentidos), apertavam T. contra si, desejavam T., beijavam T., queriam o corpo de T. cada vez mais no seu, na sua pele e no seu suor; por outro - lembrava-se agora, afastando, aos poucos, um véu fino, mas espesso ,que lhe envolvia a memória - uma parte de si, um fundo de si, talvez aquele a que comummente se chama de intimidade, um pedaço por encontrar, perdido em si, perdido no pulsar do coração, no fluir do sangue, apartava-se, fechava-se cada vez mais, e queria dali fugir. Como um menino assustado que tapa a cabeça e ali fica, imóvel, olhos bem fechados, à espera que o Papão não veja a tremedeira debaixo do lençol.

Mas porquê? Tudo fora consentido, tudo fora desejado. Tudo fora pressentido, e quando havia convidado T. para “só lá ir dormir” era óbvio que “só lá ir dormir” era a última coisa a “só” acontecer. E, de certa forma, tudo tinha sido bom. Tudo tinha sido muito bom. Tudo tinha sido satisfatório. Prazeroso, mesmo.

K. irrompeu de rompante e apareceu-lhe no pensamento. Durante todo este tempo havia permanecido por debaixo de todas as palavras, impresso em todos os pensamentos, um rosto a escapar-se como uma impressão num sudário, um nome tatuado debaixo da língua. Uma impressão sem impressão. K.! K.! K.! Era ainda e sempre K.! O que raio haveria em K., para, tanta água passada por debaixo de tanta ponte, ainda ali estar, ali, na dobra do fundo da sua intimidade, dentro de si, no meio de si e de T., a ter amor consigo, a amar_lhe?

(Não conseguiu evitar que um sorriso se plasmasse no seu rosto: a expressão tinha-lhe saído do fundo, cuspida abruptamente, sem preparação nem reflexão, do tal canto escondido e secreto da intimidade. Para mais, “ter amor” parecia-lhe bonito, poético, lembrando-lhe uma frase que Soror Saudade tinha para quando tinha um poema novo: “aconteceu-me um poema…” “Ter amor”, “acontecer amor” parecia-lhe digno e íntimo, ou no limite, muito menos foleiro do que “fazer amor” que lhe soava sempre a uma espécie de glossário íntimo da classe média, de mau gosto e sempre horroroso, nem sequer kitsh e, no mínimo, perfeitamente desadequado. “Fazer amor” era aquela típica expressão de alguém que, ou não quer chamar os bois pelos nomes, ou quer dourar uma coisa que nada tem de dourado. É um rodriguinho pateta. Ninguém “faz” amor e só a ideia lhe parecia risível. Não é da sua natureza ser feito. Quanto muito “acontece-lhe”. Caso contrário fode. “Acontece-lhe amor”, “tem amor com”, “tem amor por”; ou então “fode”, “fode com”, “fode por”, lembrando-se então daquele célebre aforismo de Sartre que dizia que o sexo é, apenas e tão só, o “esfregar de um tubo noutro tubo”. O que ele nunca tenha percebido – ou talvez tenha – é que o amor é todo criação, é dádiva, é inventividade e improviso, surpresa, deslumbramento, e arrebatamento. Coisa que não é possível conter em algo manufacturável. Nem sequer manufacturar. O sexo faz-se - se bem que só a imagem do Sartre a fazer o que quer que fosse com a Beauvoir lhe parecesse apocaliptíca! – o amor “acontece-se-lhe”. Recebe-se e dá-se, sem nunca ser feito, sem nunca existir verdadeiramente, ônticamente. Orgasmos até um galo dá. Voos, nem os anjos conseguem.)

Tinha então fodido com T. e “tido amor” com K. Uma espécie de ménage. Um dois, literalmente, em um. Uma gargalhada surda subiu-lhe pela garganta acima, e foi instalar-se à beira das duas lágrimas que começavam a espraiar-se pelo rosto, uma escorregando lenta pelo nariz a cair a despenhar-se no lençol (amanhã haveria de mudar os lençóis e assim lavar a vida e a alma). Na sua cabeça começava a fazer sentido e a cada vez tomar maior lugar, aquele sentimento de solidão que cada vez mais lhe apertava o peito. Havia estado ali, ali em carne com T., mas no seu íntimo havia estado, havia desejado, momento após momento, que aquela boca, aquela saliva, aquela mão, aquele gemido, fossem de K. De K. em carne e em intimidade. Em amor e em sexo.

K. rasgava-lhe o pensamento cada vez mais, como uma onda que vinda do fundo do mar cobre a terra de mansinho, a pouco e pouco, até não haver mais terra à vista. K. tomava-lhe de assalto o pensamento, e a intimidade e - conseguia quase sentir o seu cheiro - o corpo. Onde estaria K. naquele momento? Estaria a dormir? Lembrava-se de quando observava o seu sono e de como isso lhe enternecia o coração. Olhar e admirar K. enquanto dormia fazia-lhe sentir e acreditar na ordem do mundo. Nessa altura, respirando a respiração de K., escutando o borbulhar dos seus sonhos, acariciando o seu corpo fetal, sentia que as coisas se encaixavam, se serenavam, como se de repente o medo e a fome desaparecessem da face da terra. Sim, e isso agora era-lhe por demais evidente, era com K. que tinha estado sempre, apesar de, carnalmente, se ter “engalfinhado” com T. Era K. que lhe deixava a cama vazia, demasiado vazia, apesar de a sua cama ser cada vez mais pequena para dois com T. Era a sua ausência que doía, que moía e lhe esganava o prazer.

E agora “engalfinhar” parecia-lhe menos engraçado, menos estimulante, e se bem que absolutamente oco, absolutamente plástico, parecia-lhe também, cada vez mais adequado. "Engalfinhar" era a tradução pura, redonda, elíptica de como tudo tinha sido. Solitariamente, sido. A dois.


João Forji


A Case of You - Joni Mitchell

terça-feira, 23 de setembro de 2008

noite transfigurada

O teu anjo passou pelo meu sonho
e inundou de lágrimas
a minha madrugada insone.
Partiste às mãos da manhã,
a mesma que
nem todo o amor
do mundo poderia tornar
suficientemente bela para ti
,
a mesma que os demónios cortejam
transfigurando a noite
no combate que me cresce
como em ti agora
a eternidade.

sarah adamopoulos
lisboa setembro 2008


Tropecei neste poema enquanto viajava em zapping por vários blogues. Prendeu-me a atenção. Deixei-o e parti. Andou-me cá dentro toda a noite e todo o dia. Chamava-me de mansinho, e pouco a pouco descobriu o caminho "da cabeça para o coração, do coração para a cabeça". Gosto dele. Voltei a ele. Porque, às vezes, as coisas mais bonitas são também as mais tristes. As mais misteriosas. As que se encondem na dobra da vida. E da morte. A beleza das coisas tristes de que tenho falado tanto ultimamente. Para me fazer sorrir. Para me fazer serenar. Como uma manhã "que nem todo o amor do mundo poderia tornar suficientemente bela para ti"...

sábado, 20 de setembro de 2008

Confissões

Há horas em que sinto que falhei. Pior: sinto que falhei contigo, a última pessoa com quem queria ou podia falhar neste mundo. Falhei e falho – a todas todas e tantas tantas horas. Porque não consigo ser o escudo que te proteja de todo o mal do mundo. Porque te feres e te cortas nos fios da vida, e eu nada consigo para arredondar todas as esquinas, algodoar todos os chãos, derreter todas as lâminas. Quando sinto que te feriste, que choras por dentro e por fora, emudeço de aborrecimento, sinto-me morrer aos poucos, caio aos pedaços enquanto as lágrimas do teu sorriso forram o lençol. Não consigo saber-te triste. Nunca consegui. Nunca conseguirei. Porque isso vai contra a verdade em que acredito, a verdade que professo, a verdade que me alimenta a respiração: tu, tu muito muito muito especialmente, tu nunca, mas mesmo nunca deverias experimentar o gosto azedo da tristeza!

Mandasse eu no mundo, tivesse eu o poder de Deus e tu nunca sofrias. Tu nunca te magoavas. Tu nunca caías no teu caminho. Só flores e risos. Só flores e risos. E beijos na testa e no queixo - como eu gosto e como tu gostas.


Dirás que deliro, que isso é e será sempre impossível, que é com esses solavancos que cresces e te conheces mais profundamente e melhor. Pois sim, acredito nisso tudo. Mas também no mundo sem dor e sem mortes e sem feridas a sangrar-sem-sangrar, sem dores a doer-sem-doer. Foste tu que me ensinaste isso e jamais o esquecerei. E jamais deixarei que o esqueças. Se mais nada puder ou souber fazer, estarei sempre aí para to dizer. Para te enxugar as lágrimas e te abraçar. Para te agarrar e lamber as feridas. Em silêncio, mas cheio de palavras que te encham o coração de sol e te devolvam o sorriso. Em silêncio, mas cheio de sorrisos para deixar na tua boca, e risos para encher os teus sonhos. Em silêncio velarei os teus sonhos e expulsarei os monstros do teu sono. Em silêncio varrerei a tua casa e deixá-la-ei a brilhar por dentro e por fora.

E há horas em que sinto que esperas por mim para te salvar. Que a todas todas todas as horas esperas que eu te salve. Que eu alumie o teu caminho e te pegue ao colo. Que te dê o paraíso na terra. Que cultive um jardim secreto e te leve para lá. Onde te dê a beber a água nascente com as minhas mãos. Onde te banhe os pés amassados e perfume os teus cabelos com jasmim. Onde o meu corpo seja uma concha para te deitares na relva húmida debaixo de uma coberta de estrelas. Onde sossegues.

E há horas e horas e horas que sei que o farei. Que o serei. Dar-te-ei a eternidade. Tu nunca morrerás! Nunca acabarás porque te amo. Porque te protejo e te trans-porto em mim, comigo, para cima e para baixo, de um lado para o outro do mundo, através de todos os tempos, em todas todas as horas. Guardo-te no fundo de mim porque lá construí um mundo de fadas e duendes e castelos mágicos e chupa-chupas coloridos e perfumados para habitares. Lá nenhum mal chega. Lá nenhum vilão te procurará. Lá estarás a salvo.

Vem. Deixa-me ser o teu messias.


Tu Es Ma Came - Carla Bruni

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Houvesse um sinal a conduzir-nos


Houvesse um sinal a conduzir-nos

E unicamente ao movimento de crescer nos guiasse. Termos das árvores

A incomparável paciência de procurar o alto

A verde bondade de permanecer

E orientar os pássaros


Daniel Faria

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Samson*



You are my sweetest downfall
I loved you first

Beneath the sheets of paper lies my truth
I have to go
Your hair was long when we first met

Samson went back to bed
Not much hair left on his head
Eat a slice of wonder bread and
Went right back to bed
And the history books forgot about us
And the bible didn't mention us
Not even once

You are my sweetest downfall
I loved you first
Beneath the stars came falling on our heads
But they're just old light
Your hair was long when we first met

Samson came to my bed
Told me that my hair was red
Told me i was beautiful and
Came into my bed
Oh i cut his hair myself one night
A pair of dull scissors in the yellow light
And he told me that i'd done alright
And kissed me till the morning light

Samson went back to bed
Not much hair left on his head
Eat a slice of wonder bread and
Went right back to bed
Oh we couldn't bring the columns down
Yeah we couldn't destroy a single one
And the history books forgot about us
And the bible didn't mention us
Not even once

You are my sweetest downfall
I loved you first

Regina Spektor

*Da perfeição

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Do sossego

«O que eu mais queria neste mundo era sossegar. É um verbo que é preciso redimir. Sossegar não é descansar, nem traz felicidade nem se assemelha senão superficialmente à paz ou à tranquilidade.

Não quero acalmar-me, ou serenar, ou assentar. O sossego é um estado de bonança. No Dicionário de Moraes descubro uns versos de Jorge de Lima:
Amo a velha paisagem bíblica
Que inda há-de baixar sobre a terra cansada
Para o sossego dos olhos esmagados
É preciso ler a Bíblia para perceber que a “paisagem bíblica” não é uma paisagem de paz mas de fé perante a conturbação. Não é o campo dos rebanhos. É o mar revoltoso que se abre, onde uns morreram e outros se salvaram e a voz de Deus não deixou que se cantasse.
E também um verso do conde de Monsaraz: “Tu és risonha, sossegada e pura”. A inveja que eu tenho dessa rapariga!
E lembro-me do sentido activo, tão bonito pela maneira como usa o verbo pôr, que parece contrariar o uso comum, do verso de Camões:
“Estavas linda, Inês, posta em sossego”, em que Inês está claramente acordada, num sobressalto de segurança em si própria, que a torna linda e temporária (“estavas” em vez de “eras” ou “és”).


O sossego é um estado de excepção, em que a alma vem ao encontro do corpo. Pode sossegar-se em momentos de grande agitação, de um acesso de amor, em que esse amor parece lucidez. É este o sossego com que sonho – uma presença consciente de verdade no que se sente -, oposto à parança estúpida, queda e adormecida, falsa, aquém da alerta. Não gosto do sossego como alívio ou interrupção.Nem gosto da maneira como se usa o verbo “descansar”, que deveria significar repousar (recuperar as forças, etc) em vez de “sossegar”, como por exemplo: “Ainda bem que me avisaste, porque assim fico mais descansada”. É tão ridículo como uma criada dizer:”A senhora não pode vir ao telefone porque está a sossegar”. Numa das raras frases infelizes de Vieira, percebe-se o sentido negativo do sossego como ausência de preocupação, quando diz, com alguma redundância: “Todos se sossegaram num momento e se puseram na paz que vemos.” Nem num sentido (acalmar) nem noutro (apaziguar) existe sossego. É como chamar sossego ao silêncio.


Na época do stress e dos calmantes, das psicoterapias e das manias new age, sossegar foi destituido da sua beleza própria, da sua frescura, da sua actividade. Sossega mais o menino que ri do que o que dorme. Sossega mais o susto partilhado por dois namorados numa montanha russa, ou a bonança enquanto fazem amor, do que vê-los pascentar num banco de jardim, ou deitados numa cama, descansando depois de terem feito amor, inutilizados, estupidamente contentes, como mecânicos depois de o serviço estar feito.


Sossegar não é descansar – não é uma consequência do cansaço. Quando Rebelo da Silva, citado por Moraes, diz: “O coração não sossega, a vida cansa”, ambas as coisas são verdadeiras, mas a associação é enganadora, porque o coração não sossega por causa da vida cansar. Há cansaços bons. Não. O coração não sossega porque não tem com que sossegar.


Mais que a felicidade e a paz, o mundo precisa de sossegar. O sossegamento é a forma mais precisa de liberdade positiva – uma liberdade para sentir o que se sente e confiar no que se sente, e ter tempo, e vontade, e confiança no que se faz.Quando se olha para o rosto de uma pessoa amada, ou se recebe dela um gesto de amor, sossega-se. Quando se sabe de antemão o que vai acontecer, ou como alguém se vai comportar, sossega-se. Quando se faz uma promessa ou um plano que sabemos que se irá cumprir, sossega-se. Isto é sossegar.
Quando dois amantes decidem ter um filho, por muito medo que isso possa provocar, sossega-se.
Quando aparece um amigo sem avisar, interrompendo tudo o que se tencionava fazer, sossega-se. Quando se está a lutar contra a injustiça e a maldade, com todas as forças que se tem, sossega-se. Quando se lê um poema ou uma história bonita, sossega-se. Quando se acredita em Deus. Isso, sim, é sossegar.
Gosto de sossegar como verbo transitivo. Sossegar só por si não chega. É mais bonito sossegar alguém. Quando se pede “sossega o meu coração” e se consegue sossegar. Quando se sai, quando se faz um esforço para sossegar alguém. E não é adormecendo ou tranquilizando, em jeito de médico a dar um sedativo, que se sossega uma pessoa. É enchendo-lhe a alma de amor, confiança, alegria, esperança e tudo o mais que é o presente a tornar-se, de repente, futuro. É o futuro que sossega. “Amanhã vamos passear” sossega mais do que “não te preocupe” ou “deixalá, que eu trato disso”.
A aquietação, como o sono, é uma espécie de morte. Sossegar não é jazer. É viver. Uma pessoa sossegada é capaz de deitar abaixo uma floresta. O sossego não é um descanso – é uma força. Não é estar isolado e longe, deixado em paz – é estar determinado no meio do turbilhão da vida.
O sossego, é, em grande parte, uma expressão espiritual de segurança. Sossegar é saber com o que se conta, desde o azul do céu aos irmãos. O coração sossega em quem se conhece. Sossegar é conhecer uma totalidade, as coisas feias ou bonitas, mas previsíveis e familiares. É por isso que sossega olhar para um rosto amado, que se conhece, ouvir a voz dessa pessoa, mesmo quando está a dizer disparates. Não há falinhas mansas que tragam o sossego dos gritos de uma pessoa com quem se pode contar. É um alívio. Só a ordem pode sossegar, por muito alterosa que seja. A tempestade sossega o marinheiro que conhece bem o barco e o mar.
Não é o que diz a minha mãe que me sossega – é a minha mãe. Não são as palavras – é a voz. Não é ela estar aqui ao pé de mim – é saber que ela lá está.No nosso tempo as pessoas querem o sossego menos das sopas e do descanso. Serem “deixadas” de alguma forma ou de outra. “Eu quero é que me deixem em paz”. Querem fugir. Querem ir para o campo. Meditar. Descobrir o “eu” interior. Mas a solidão e o silêncio não sossegam. Para isso mais vale tomar um Lexotan.


Só os outros nos podem sossegar. Só no meio da vida, em plena acção, se pode, vale a pena, estar sossegado. O “eu” interior é uma algazarra de desasossego. Para mais, árida e desinteressante. O budismo de trazer por casa que invadiu a nossa cultura, uma espécie de narcisismo espiritual, traduz uma noção repugnante de superioridade. Os outros podem ser o inferno, mas cada indivíduo ainda o é mais.Não me saem da cabeça os instantes, poucos, em que me senti sossegar – e foi sempre graças a outra pessoa, vista ou lida, conhecida ou desconhecida, viva ou morta, menina ou crescida, sábia ou maluca, próxima ou longínqua, mas sempre presente, mais presente que eu próprio. Eu próprio, por defeito talvez, não consigo lá chegar. Nunca encontrei o sossego nos outros – foram sempre os outros que me sossegaram. E quase nunca deliberadamente.
Lembro-me, em particular, de um momento que consistiu apenas em olhar para alguém e sentir que tudo nela me era querido e conhecido e familiar.
Não há no mundo paisagem como o rosto da pessoa amada, sobretudo quando está agitado, a rir-se ou a zangar-se, desprevenido, apanhado nos olhos como se estivesse dentro deles já. Sentir essa mistura de perdição e de proximidade é verdadeiramente sossegar.
Não são as mentiras, por muito boas, que sossegam. Só a verdade. Às vezes sossega ouvir “odeio-te! ” em vez de “amo-te!”, se “odeio-te!” for dito com amor e com verdade, e “amo-te” com preguiça, por hábito, ou expressamente para nos sossegar.


No outro dia, quando perguntei a alguém que amo, se queria vir jantar, em vez de dizer “não posso”, por isto ou por aquilo, disse apenas “não”. E sossegou-me.
Quando se está sossegado aguenta-se tudo. A tristeza torna-se pequena. O mundo reduz-se à dimensão que tem.
O que mais queria na vida era sossegar. Não há diferença entre correr atrás das estrelas e ficar na cama a apascentar. O desasossego em que vivemos deve-se, pelo menos em parte, à nossa incompreensão do que é, na pura verdade, sossegar e à cobardia e ausência de vontade de tentar alcançá-la, entregando-nos nas mãos de quem nos pode ajudar.
Que ao menos seja esta a causa do nosso desasossego, porque tudo o mais que queremos ou pensamos querer (a felicidade, a realização, o prazer, a tranquilidade) ao pé do puro sossego não é possível – e, se calhar, nem sequer é verdade.»


MEC

sábado, 13 de setembro de 2008

Love Letter

Not easy to state the change you made.
If I'm alive now, then I was dead,
Though, like a stone, unbothered by it,
Staying put according to habit.
You didn't just toe me an inch, no--
Nor leave me to set my small bald eye
Skyward again, without hope, of course,
Of apprehending blueness, or stars.

That wasn't it. I slept, say: a snake
Masked among black rocks as a black rock
In the white hiatus of winter--
Like my neighbors, taking no pleasure
In the million perfectly-chiseled
Cheeks alighting each moment to melt
My cheek of basalt. They turned to tears,
Angels weeping over dull natures,
But didn't convince me. Those tears froze.
Each dead head had a visor of ice.

And I slept on like a bent finger.
The first thing I saw was sheer air
And the locked drops rising in a dew
Limpid as spirits. Many stones lay
Dense and expressionless round about.
I didn't know what to make of it.
I shone, mica-scaled, and unfolded
To pour myself out like a fluid
Among bird feet and the stems of plants.
I wasn't fooled. I knew you at once.

Tree and stone glittered, without shadows.
My finger-length grew lucent as glass.
I started to bud like a March twig:
An arm and a leg, an arm, a leg.
From stone to cloud, so I ascended.
Now I resemble a sort of god
Floating through the air in my soul-shift
Pure as a pane of ice. It's a gift.

Sylvia Plath


I can feel - Sue Merchant

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Pa bailar

Esta é pa' bailar, mas pa' bailar bem! Sempre que a ouço tenho vontade de "salir a bailar un poco", que é como quem diz, tenho vontade de ir para as danças de salão... Há-de ser! Há-de ser!


Esto está bueno pa bailar

No sé dónde acomodarte
No sé de qué color pintarte
No sé muy bien que nombre darte
Si te veo por la calle

Pero sé que tú
Me miras a los ojos y es algo único
Sé que yo siempre quiero más


Lo que quiero hacer es salir a bailar un poco (pa bailar un poco)
(pa bailar)

No sé porque si fue solo un instante
Se niega el tiempo a borrarte
Fue una fina sombra que dejaste
Algo hermoso, inexplicable

Pero sé que tú
Me miras a los ojos y es algo único
Sé que yo siempre quiero más


Lo que quiero hacer es salir a bailar un poco (pa bailar un poco)
En realidad me gustas pa bailar un poco (pa bailar un poco)

Sé que tú
Me miras a los ojos y es algo único
Sé que yo siempre quiero más


Sé que tú
Me miras a los ojos y es algo único
Sé que yo siempre quiero más

Te quiero cerca pa tocarte y pa bailar
Te quiero cerca pa sentirte pa bailar

Sé que tú
Me miras a los ojos y es algo único
Sé que yo siempre quiero más


Sé que tú
Me miras a los ojos y es algo único
Sé que yo siempre quiero más


Sé que tú
Me miras a los ojos y es algo único
Sé que yo siempre quiero más



Bajofondo y Julieta Venegas
E para bailar más un poco:

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

In a manner of speaking

Aconteceu-me esta canção – é sempre assim com o que amamos. Tropecei nela e, desde então, não mais deixou de me andar “da cabeça para o coração e do coração para a cabeça” (como diria o insuportável, mas genial, Almada). Lembra-me do silêncio, da sua voz, da forma como ele pode falar e calar. Lembra-me das palavras: do que elas dizem (o dito) e do que elas deixam (por) dizer (o Dizer). Do tanto que elas calam - dizemos sempre mais do que dizemos. Dizemos sempre mais do que, aquilo, o que realmente dizemos. E calamos outro tanto, ou mais… Daí as reticências. Para dizer e para calar. “You told me everything / By saying nothing”. E no amor ainda mais. Tanto (tudo?) que se diz sem palavras. Ou com as palavras do coração. De cor, pois então! Dizer tudo, sem dizer nada. Eis o segredo. Eis também, e talvez, a mais pura manifestação de amor. Do amor.

In a manner of speaking
I just want to say
That I could never forget the way
You told me everything
By saying nothing



In a manner of speaking
I don't understand
How love in silence becomes reprimand
But the way that i feel about you
Is beyond words

Oh give me the words
Give me the words
But tell me nothing

Ohohohoh give me the words
Give me the words
That tell me everything

In a manner of speaking
Semantics won't do
In this life that we live we only make do
And the way that we feel
Might have to be sacrified

So in a manner of speaking
I just want to say
That just like you I should find a way
To tell you everything
By saying nothing
.

Oh give me the words
Give me the words
But tell me nothing

Ohohohoh give me the words
Give me the words
That tell me everything

Oh give me the words
Give me the words
But tell me nothing
Ohohohoh give me the words
Give me the words
That tell me everything



Tuxedo Moon / Nouvelle Vague


As palavras


As palavras são
a pele
o limite de mim

uma carícia
é um poema

aceno da língua
no espaço de um fonema

Luís P.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

A noiva

Chamavam-a “mulher de branco”, a propósito de uma personagem de telenovela e a propósito de uma certa necessidade humana-natural em cunhar os outros para que assim permaneçam menos estranhos aos outros.
Maria era o seu nome. Menina Maria,
A primeira vez que a vi, foi num fim de tarde de um pachorrento e doirado Outono.
Caminhava em passo apressado, com o seu vestido de uma cor antiga e branca, pelo meio da estrada.
Cheia de si mesma, ou vazia de outra coisa qualquer, dava passos largos e firmes, como se se desviasse de pequenos abismos.
Com os olhos fixos num misterioso ponto imóvel algures diante de si, percebia-se-lhe o desenho de um sorriso pacífico quase a tocar os seus olhos baços.
Á medida que caminhava, o vento desfazia-lhe o rolo de cabelo cinzento – que só desprendia quando se sentia sozinha, e que lhe chegava, em raiz, até às coxas porque deixou de o cortar desde um certo dia triste – acentuando-lhe a aparência insana da qual os outros troçavam e, no fundo, temiam.
Ás vezes, por breves instantes, os braços alaranjados do sol diluíam os sulcos que os anos lhe haviam gravado no rosto, e era uma menina-mulher bonita.
A história da mulher de branco era uma história triste, como são todas as histórias de um amor que acontece sem princípio nem fim.
Foi a senhora do 6º esquerdo que ma contou, em confidência e compaixão. «A Menina Maria. Foi deixada no altar há vinte e sete anos ou vinte e oito anos. Nunca ninguém soube o que aconteceu ao rapaz… Procuraram em todo o lado… e nada. E quando lhe disseram, na igreja, que não sabiam dele, parece que só sorriu e ali ficou até fazer noite. A pobre. Ficou assim, estragada, por amor.»
Continuou a falar-me das boas famílias a que os noivos pertenciam. Do belo par que faziam os dois. Das teorias que tinha sobre a tragédia. «Começou a ir todos os dias 18 de todos os meses à Igreja. Sempre entre as 3 e as 4 da tarde. Vestida assim. E vai pela estrada… e um dia, foi por alturas dos finados, chegou a ser atropelada por uma carrinha dos Correios! E do homem nunca ninguém soube nada. Nem polícia, nem ninguém.»
Comoveu-me a historia. Os amores tristes comovem-nos ou por inveja ou por piedade. Lembram-nos da sorte que temos em não sofrer assim, ao ponto de ficar estragado para sempre. E do azar que temos em não sofrer assim, ao ponto de ficar estragado para sempre. E é mais o sempre que nos chateia. Porque bem que podemos ficar estragados temporariamente, mas nunca para sempre. Porque é muito.*
Nessa noite pensei nos meus amores tristes. Li cartas antigas. Vi fotografias. Enchi-me de saudades de momentos e pessoas e quis chorar um bocadinho – só para confirmar que ainda sabia chorar. Não chorei.
Fiquei obcecado com a história da Menina-Maria-De-Branco. Ás vezes, quando conduzia pelas ruas da cidade, esperava encontrá-la na rotina dos seus dias, numa outra pele menos intrigante. Acabei por descobrir que habitava uma velha casa senhorial, de pedra, sem luz e sem vizinhos (a única coisa que o seu pai lhe deixou herdar, por piedade, sobretudo). Descobri que não tinha um trabalho. Que não se lhe conheciam outras histórias senão a derradeira e trágica. Descobri que não fazia compras. Descobri que era um caridoso merceeiro quem lhe deixava, junto ao portão de ferro, os sacos com as coisas que alguém pagava, para que ela pudesse viver. Descobri que tinha família mas mais ninguém debaixo daquele tecto que poderia ruir a qualquer momento. Descobri que um dia, alguém a colocou num Lar, mas a menina Maria chorou muito e não comeu durante cinco dias, e alguém a resgatou daquele lugar monstruoso.
No dia 18 do mês seguinte, com as ruas já repletas de enfeites, luzes e sentimentos de Natal, exactamente ás duas da tarde, sentei-me à janela. Será que viria? E se… se curou? E se se deixar adormecer no velho cadeirão de pano floreado e púrpura, onde aos serões a mãe lhe ditava noções de bom comportamento e asseio? E se a porta de madeira velha e enguiçada da casa, onde passa os dias em segredo, não se quiser abrir, hoje?
(Costumo sentar-me à janela para ver o mar. A ver o sol e as estrelas sobre ele. A sentir a sua raiva. A olhá-lo como a um quadro ou como a um amor, quando dorme. A contar-lhe coisas sobre mim e a esperar que me devolva tudo o que lhe digo na próxima praia-mar. )
Naquela tarde febril, troquei o mar por aquela mulher. E decidi não ficar só à espera de a ver. Decidi segui-la, sem a sua autorização. Precisava de saber. Precisava, porque sim. Porque precisava conhecer tudo sobre a fatalidade do amor triste. Todas as suas dimensões destruidoras e salvíficas. Segui-a.

«Eu sei. Eu sei. Eu sei. Eu sei. Eu sei. Eu sei…mas não te encontro. Não te encontro. Eu sei. Eu sei. Eu sei...»
Não parava de dizer aquelas palavras em cascata. Como se pronunciasse um dilúvio. Uma epifania.
Caminhava com as suas mãos cerradas, como se a qualquer momento fosse esmurrar alguém ou alguma coisa. Ou como se alguém invisível, apertasse com as suas mãos as mãos dela.
Atravessava o frio cinzento daquela tarde de Dezembro, com a mesma cadência com que a vi da primeira vez. Desviando-se com precisão dos abismos. Um veleiro a rasgar o mar. Lembrei-me que um dia também caminhei assim. E, sem me aperceber, transformei-me nela.
Chegámos à igreja escura e gigantesca. Entrámos os dois. Sentou-se no último branco, junto à enorme porta. E eu no banco do lado. Sentou-se silenciosa, majestosa, a olhar para o altar onde se encimava uma cruz de oiro iluminada por algumas velas.
As suas mãos cerradas abriram-se-lhe, em flor, sobre o seu colo, e revelaram, dois anéis amarelos. E sem tirar os olhos da cruz iluminada, começaram a nascer-lhe lágrimas brancas e espessas que lhe caíam sobre os anéis, sobre as palmas das mãos, sobre o vestido. Como se os regasse. Como se se regasse a si mesma. E as mesmas palavras… em murmúrio… sempre as mesmas palavras… «Eu sei. Eu sei. Eu sei. Eu sei. Eu sei. Eu sei…mas não te encontro. Não te encontro. Eu sei. Eu sei. Eu sei. Não te encontro. Não te encontro…»
Depois, uma luz estranha em forma de lábios desceu sobre ela. Beijou-lhe as palmas das mãos e desenhou-lhe no rosto o sorriso mais belo e bondoso que alguma vez vi.
Ela ergueu-se, enorme, como se dominasse o universo inteiro e conhecesse todos os seus recantos, e caminhou, sem tocar no chão, na minha direcção.
Baixei a cabeça, fiquei imóvel e envergonhado por ter sido descoberto. Senti o meu coração bater como se quisesse fugir dali.
Colocou-se atrás de mim e pousando a sua mão fechada sobre o meu ombro sussurrou-me ao ouvido. «Um Amor nunca é triste. O Amor não estraga, consome. Eu sei. Eu sei todas as coisas que ele me diz. Sinto todas as coisas. Mas não o encontro. Não o encontro. Aqui. E enquanto eu permanecer aqui, vou querer, sempre, procurá-lo. É a minha bênção e a minha maldição. Agora chora.»
E chorei porque me sentia atropelado e confuso e a arder por dentro.
Ela abandonou a igreja. Quis sair dali e correr atrás dela. Fazer-lhe perguntas. Todas as perguntas. Compreender aquela transfiguração. Compreender aquelas palavras. Saber o que ela sabia. Mas não consegui. Deixei-me ficar sentado naquele banco, a chorar.

Nunca mais vi aquela mulher.
Esperei por ela, na minha janela, no primeiro dia 18 do novo ano, mas ela não passou. Depois, em Fevereiro procurei o caridoso merceeiro e descobri que a Menina Maria tinha morrido.
Foi encontrada, sentada à porta de sua casa, de mãos abertas sobre o colo, com o seu vestido branco. «Parecia uma santinha, coitada. Telefonei logo à Polícia e ao senhor que me mandava o dinheiro para pagar as coisinhas que lhe levava ao portão todas as segundas e quintas e sábados. Ele também chorou muito.»
Disse-me que ela tinha ao pescoço dois anéis amarelos colocados num fio de lã vermelha. E que estava a sorrir. «Parecia ter menos vinte e sete ou vinte e oito anos.»
Disse-me também que, ao contrário do que sempre pensou, na sua velha casa tudo estava limpo e arrumado no seu lugar.
Disse-me, como se ao mesmo tempo cometesse um pecado, que a menina Maria parecia uma verdadeira noiva.


A noiva mais amante e amada do mundo.

Frederico M.


Both Sides Now - Joni Mitchell


* Do ficar estragado. Ou de como o amor nos move, nos muda, nos transporta por dentro, nos desaloja, nos abre e nos sangra. Em flores, em sóis, em chuva...

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Luzes

Vem ser a Minha luz! Vejo agora que tem sido uma história de luz. Há frestas e frinchas por todo o lado. Um caminho feito de luzes e sombras, estrelas, cometas e abismos celestiais. Por todo o lado pedaços de estrelas a fumegar como lava incandescente caída sobre a terra húmida. Por eso canto al día y a la luna, / al mar, al tiempo, a todos los planetas, / a tu voz diurna y a tu piel nocturna. És a minha luz, a mão que me guia, sinto-o, desde sempre. Antes de te encontrar não existia, era dente-de-leão à espera do sopro, o caos esperando a ordem. Enquanto não há amanhã, Ilumina-me, Ilumina-me. Em todas as noites do mundo, quando fecho os olhos tenho-te só a ti. Só a ti. És a candeia que me alumia os passos, a chama que dá luz e cor aos sonhos – visitas-me tantas tantas vezes! Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? És a força criadora de toda a beleza do mundo! Vê como as sereias se calam à tua passagem e se enrolam nas algas, vergadas e humilhadas: tu brilhas mais do que a luz! Tiene en ti cuna el sol y en ti sepulcro / y en ti santuário. Sempre que o sol me queima na pele sinto-te comigo. No teu calor me aninho quando a escuridão me cobre e o frio me entra nos ossos. Oh I'm scared of the middle place / Between light and nowhere / I don't want to be the one / Left in there, left in there. E quando os soluços me tiram a alma, não há maior consolo do que sentir-te perto. Mesmo quando longe, mesmo quando os silêncios me ferem como lâminas, estás sempre comigo, em mim. Again the sun was never called / And darkness spreads over the snow (...) I'm awake and feel the ache / But I wish I'd see a field below. Por vezes embrenho-me na escuridão, o teu lado negro e tenebroso. Nunca lá encontrei o medo, mas a beleza da noite. O conforto aveludado das tuas falhas faz-me sorrir indulgentemente. Sempre. E apenas ouves o vento / E apenas ouves o mar (...) Ao menos ouves o vento / Ao menos ouves o mar! Se te sinto triste – sinto-te tantas e tantas vezes, e tão bem… – é como se caísse no fundo de um poço escuro e frio. Não há maior dor: as entranhas sangram-me e gritam em fogo! Definir-se e arder, isso é amar. Mas o teu fogo renova-me sempre. Nunca houve mais belo fogo do que este em que renascemos a todas, todas as horas. Seremos esta noche todo el día (...) Ámame sin luz. Sabes, contigo sou melhor. Tu cultivas o melhor de mim. Sou a tua obra, sempre por fazer. Serei como os girassóis. E tu a minha eterna luz. Nunca os meus olhos se cansam de te olhar. És inimitável. Nunca te tenho de mais (hoje, sei-o). Não lhe chamava amor, mas percebia que se virara inteiramente para ele, como há flores que se viram para o sol e mais não fazem do que o acompanhar. Sigo-te sempre, como a lua segue o sol. Quero nascer do outro lado do mundo! Or maybe in the sunshine / I'll always be there. Crê que nunca te abandono. Estou em tudo o que te toca e acaricia. Sente-me no vento e na chuva. Creio que o Amor tem asas de ouro. És a fuga do tempo: junto a ti, a eternidade é um segundo. Já olhei para ti enquanto dormias. Compreendo que Deus não se canse de fazê-lo. Dizem-me que o tempo passa: passará? Nunca o chão foi tão pouco. Nunca foi tão longe. És Yakamoz, "o reflexo da lua sobre a água": gosto desta palavra: haverá alguma que te possa dizer, por inteiro? É absurdo que já anoiteça, quando eu ainda precisava da luz do dia


You Are My Sunshine - Tierney Sutton

domingo, 7 de setembro de 2008

III - Das asas, ou Fala de Damabiah a Iah_Hel

Pediste-me asas_ dei-te amor.

Querias que eu te desse asas - querias voar - querias soltar amarras rumando ao azul. Querias ser como os raios de sol que nos lambem a pele nas tardes frias de Outono. Querias imitar os pássaros, ser gaivota em mar de calmaria, arara colorida sobre a terra verde, corvo negro e reluzente sobre o fogo. Querias conhecer as nuvens, alimentar-te delas, como do algodão-doce-rosa das feiras onde adoras o trote dos cavalos-alados dos carroceis. Querias ser estrela, anjo ungido, mas não tinhas asas. Dizias tê-las perdido quando caíste do céu e queria-las de volta. Querias voar. Sentias-lhe a falta. Sonhavas com isso. Falavas do frio no estômago, do orvalho na pele, do vento no cabelo, da liberdade sonhada, do riso prolongado, do desejo da vertigem... Querias asas e pediste-mas

- eu, só amor te dei,

meu amor,

e tu, que querias asas, partiste a correr o mundo. Traçaste um caminho secreto nas estrelas, arrancaste as pedras do trilho para que não te seguisse, disfarçaste a tua ausência com véus e engodos e salas de espelhos – tantas vezes me (re)enviaste para falsas moradas, tantas vezes disseminaste falsas pistas... Querias asas e foste à procura de quem te as desse. Querias voar...

E partiste a correr o mundo, buscando em todos os cantos verde-musgo, levantando todas as pedras e catando de cócoras com as mãos mergulhadas na argila dourada. Perguntaste a todos os oráculos, tomaste todas as poções e mistelas e xaropes de cores estranhas e sabores extravagantes: querias asas e tudo farias para as encontrar! Para as resgatar. Mas nem um sinal. Para te indicar o caminho, nem uma pena, uma pista, um vestígio, nem um rasto do pó das estrelas – o rasto que as asas costumam deixar... Nada. Só o mundinho agarrado ao chão, só as árvores, e as gentes, e os carros, e as casas, e o pó, e os balões a morrerem no céu, e mais árvores, e mais gentes, e mais carros, e mais casas, e mais pó, e os pássaros – que inveja tens deles

minha ternura


- esvoaçando sobre as cabeças, parecendo troçar de ti, “o sem asas”. Cansado da busca, com os pés doridos, o coração crivado de alfinetes, a alma toda esfarrapada, sentaste-te numa pedra. Por cima do ombro vislumbraste todo um rastro de amores cobertos de pó, estátuas de sal a perder de vista, a terra toda queimada, negra, seca e estéril – nem uma asa. E choraste. Sem lágrimas choraste. Com a boca a saber a sal e a poeira, choraste. Convulsivamente. Onde estavam as tuas asas, gritaste ao céu moreno do fim da tarde, a revolta toda nas mãos crispadas, o suor a correr-te na face ( ou seriam lágrimas?), o corpo todo torcido como aquelas árvores que ficam rasteiras e doridas, tisnadas pelo sol, abraçadas pelo sal, a olhar os pássaros nas negras arribas batidas pelo mar.


Pediste-me asas_ dei-te amor. E tu, que querias voar, partiste à procura de braços alados, asas de anjo, hélices e catapultas, tudo o que te lançasse no ar e te fizesse voar. Pois não sabias tu que eu te daria mil um milhão um bilião de pares de asas - douradas, verdes, azuis, laranja, prateadas, carmim, ou simplesmente brancas (as de um anjo devem ser sempre brancas, debruadas a ouro e baunilha) – se fosse esse o segredo para voares? Se a tua alegria, a tua felicidade disso dependesse, não exterminaria eu todas as aves para lhes arrancar as asas para que fossem todas tuas e só tu ocupasses os céus? Não te levaria eu às costas se só assim pudesses voar?


Ora, não me ensinaste tu,

minha alegria,


que para voar, basta amar, não são precisas asas? Que um anjo não deixa de o ser só porque lhas cortaram (ou roubaram)? Não me ensinaste tu que as asas são a mecânica do voar? Não sabes tu que as asas derretem junto do sol e por isso os pássaros voam baixinho, rasando os teus cabelos luzentes, bêbados, desejosos da luz que irradias e que aquece as suas pobres e fracas asas de penas e cera e cartão e aguarelas? Só vestidos da tua luz doirada são belos. Só perto de ti têm cor. Só à tua beira conseguem ouvir o seu canto - o lamento de terem asas e não saberem voar.


Mas não me ensinaste tu,


meu milagre,


que para voar basta acreditar, basta querer, basta não temer saber a_mar,


meu eterno eterno e_terno amor,


e nunca temer a distância, a altura, a queda, as feridas, as cicatrizes, as vertigens da terra , do chão, do mundinho : ele está sempre lá para nos agarrar quando for necessário. Basta não temer ir, sem rumo ou destino ou direcção, mas ir sem parar, sem pensar sequer, sem pernas trementes, sem olhares de relance, sem asas que pesem. Basta não temer a entrega, o mergulho de cabeça, o salto sem rede, sem cama elástica, sem colchão ou caixa de penas. Basta não temer a subida e acreditar no voo, acreditar nos braços do vento, acreditar nas mãos da maresia, acreditar no azul-azul mais azul-azul do que o azul. Acreditar no ar. Acreditar que amar é a palavra-passe de voar. Acreditar que 2 almas + amor = voar. Acreditar que só os que amamos na pele e no estômago, só aqueles que se inscrevem em nós como tatuagens, chegam aonde nunca ninguém chegou, descobrem novos mundos cá dentro, despem-nos da carne e tocam-nos a alma, o nosso segredo, e ensinam-nos a brincar e a rir e a sonhar. E a sorrir enquanto dormimos. E a voar...


Eis a senha segredada pelos búzios! A verdade escrita na face negra da lua. Basta crer! Por isso nos sonhos e de forma tão real,


minha benção,


tu voas com tanto ardor, com tanta alegria, mais veloz que o vento, mais brilhante que a luz. Por isso não te dei asas


meu amor de sempre


- nós nunca delas precisámos. Sempre fomos o mais belo voo!


P.S. Quando finalmente largares o chão voa até a boca te saber a_mar – lá me encontrarás com o mais belo par de asas que já algum dia pudeste sonhar.


João Forji

II - Esquinas

Há horas em que julgo nunca ter saído daquela esquina. Lá estou eu, a ver-te-partir, correndo sobre a passadeira húmida, fugindo da chuva que começava a cair. Pessoas apressadas, autocarros abarrotados, carros deslizantes, crianças berrantes, mais pessoas apressadas, e carros, e autocarros, e mais crianças, e reflexos no chão já bastante molhado, e eu ali, parado ali, a ver-te-partir, aconchegando com os olhos cada um dos teus passos rápidos e decididos. Ali imóvel e absorto à chuva, bebendo em grandes tragos cada um dos teus gestos, ali, a ver-te-partir naquele autocarro – terá sido na mesma esquina? – naquela tarde quente e luminosa, os dedos a saberem a sal, a boca seca, entreaberta, tu a acenares, a mão suspensa num raio de luz, os dedos imóveis, e os meus a saberem a sal, a ver-te-partir, sem remorsos, sem hesitações, sem lamentos, os meus olhos agrafados aos teus agrafados aos meus. Eu naquela esquina aparvalhado, extasiado, aturdido, de chapéu a pingar a ver-te correr e dobrar a esquina – outra, ou a mesma? – a chuva a cair sobre mim que te vejo partir, dentro de mim que te vejo partir (“- Não te molhes, meu amor!”), naquela esquina ou na outra – haverão duas ou mais? Meus olhos a ver-te-partir, sem pestanejar, os carros a apitarem naquela tarde ensolarada (“- Boa viagem, meu amor!”), os nossos olhos agarrados num abraço, sem pestanejar, naquela hora do fim da tarde, os gestos todos de mármore, o mundo suspenso, o tempo parado...


Há horas em que sou o cais a ver-te-partir para o outro lado do mar, ufano e majestoso como um transatlântico em viagem inaugural vestido de luz e festa, e eu quedo e mudo, batido pelas vagas soltas do teu sulco nas águas, resplandecente sobre a luz da tarde, a imensa bruma a cobrir a terra verde, um cheiro a algas e sal que enjoa, e tu a partires, âncora içada, velas alvas a bailar ao vento, o oceano todo de veludo e prata.


Há horas em que sou um lenço branco a flutuar na brisa, a maresia húmida colada à pele, a gaivota que te acena no requebro de uma onda, o vento que sopra as tuas velas, a mão que separa e acalma as águas à tua passagem, a chuva que te beija o rosto, o sol que te lambe.


A ver-te-partir parto sempre contigo, meu amor. E deixo-me ali naquela esquina, imóvel, os olhos marejados de sal, naquela esquina daquele cais ( muitas esquinas nos contam, meu amor ), naquela beira-mar deserta, a ver-nos-partir. Ao ver-te-partir parto sempre contigo, meu amor. E nunca mais volto. Nada há a que voltar.


(Tudo o que amo parte contigo, meu amor. Tudo o que amo parte contigo, meu amor. Tudo o que amo parte contigo, meu amor. Tudo o que amo parte contigo, meu amor. Tudo o que amo parte contigo, meu amor. Tudo o que amo parte contigo, meu amor. Tudo o que amo parte contigo, meu amor.)


Tudo o que amo parte contigo, meu amor, naquelas horas em que fico a ver-te-partir. Tudo. E se um dia quisesse(s) voltar àquelas esquinas – haverão duas ou mais? - às nossas esquinas, nada mais lá seria encontrado do que uma esquina igual a tantas outras, um cais todo vazio, as pedras todas negras da memória, um marejar longínquo de ossos, sem carne e sem músculos e sem pele e sem cheiro. Um cais todo oco, um céu sem asas, um mar sem ondas, um oceano sem azul. Porque o que nunca te disse


- e há horas em que te digo, baixinho, às vezes sem voz, em surdina, ao teu ouvido enquanto dormes, enquanto me vejo a ver-te-partir nos sonhos –


é que sempre que te vi partir, sempre que te vejo partir, parto eu também, zarpo eu de mim, o olhar preso ao teu como naquela esquina, um aceno imóvel, sem começo remorsos ou lágrimas. Amar_ro-me a ti. Amarro-me a ti. Amarro-me a ti e vou. Sem destino rota carta de mareação ou bússola. Vou agarrado a ti, vou, a ver-te-partir, vou, com os olhos lavados no azul, as mãos douradas apertadas com tanta força que fazem doer, as pernas entrelaçadas em nós de marinheiro, o coração todo cosido ao teu com linha grossa escarlate, a pele toda bordada a madrepérola e corais. Vou e sigo-te a ver-te-partir. Vou contigo. Tudo o que amo parte contigo, meu amor.


E assim te amo. Assim te embrulho em papeis coloridos e purpurinas e fogos e fitas e sedas e incensos e silêncios. Assim te guardo. Em mim. Assim te guardo enquanto dormes, vigilante enquanto sonhas, o corpo todo embrulhado no teu embrulhado no teu - a ver-te-dormir. Assim te amo. Assim te conto o meu amor – meu amor – sem palavras, diariamente, a toda a hora de todas as horas,


“- Boa viagem, meu amor!


os silêncios todos cheios de ti. Assim te amo. Assim te transporto em mim. Assim estou sempre contigo. Sempre. E é tanto tempo que até eriça os cabelos e arrepia a pele e gela as mãos e seca a boca e aperta o ventre e dispara o coração. Sempre. Sem começo nem fim (haverão duas ou mais esquinas, um mito iniciático que possamos cultivar?), sem tempo com as costas todas carregadas de horas. Das horas, as nossas, meu amor! Assim te amo e te conto e te guardo. Meu amor... (sem ponto de exclamação ou maiúsculas ou adjectivos)


João Forji

I - Migo e Tigo*

(...) adoro-te por tudo o que dizes, por tudo o que fazes, por tudo o que és. Sim, principalmente por tudo o que és. E o que queres ser. Tens uma exigência de justiça e felicidade que nunca encontrei em mais ninguém. Amar-te é também amar-te mais em cada dia que passa. Incondicionalmente. (...) Se pudesse, quando puder (e toda a fé e a esperança nascem deste “quando”) voarei para junto de ti. (...) Aparecerei de surpresa, pezinhos de lã e asas de vento, irrompendo com o novo e o riso e as gargalhadas e as piscadelas de olho nos teus dias, nos teus espaços, nas tuas horas. Conduzir-te-ei: não temas, fecha os olhos e deixa-te levar ( como numa valsa, meu amor) sem saber o destino- as horas acontecem sempre de surpresa – (...). Quero conhecer todos os teus amigos e encontrar a estrela que te atraiu a eles e admirá-los por te amarem (como os compreendo!) e por tu os amares . Quero conhecer toda a tua família (...). Conhecê-los e amá-los porque importantes para ti, porque fazem parte de ti, e porque juntos ajudaram a que crescesses para ser o que és: o meu querido carinhoso e-terno Amor !(...) quero conhecer os lugares onde cresceste e cresces, onde foste e és feliz (...) guardar memória de ti em cada um deles, com aqueles que amas, como pequenas e perfeitas polaroides da vida doméstica, porque sei que também é disso que é feita a alegria. E a felicidade. Tudo o que te quero dar!

Quero construir novas memórias, novas lembranças de ti, contigo, e ir guardando-as nos bolsos como se guardam as pedrinhas coloridas e raras que encontramos à beira-mar. O meu tesouro não terá fim! Viajar contigo. Contar estrelas contigo. Chorar contigo. Cantar contigo. Dormir ao luar contigo. Ler contigo – e para ti, porque não?! Tomar banhos de mar de madrugada e deixar o dia nascer na tua pele...

Quero uma vida serena, mas intrigante, espectacular nos gestos e nos sentidos. E que seja recheada de surpresas, novidades, pipocas, guloseimas e gargalhadas. Quero contar-te estórias e ouvi-las contadas por ti. Esvaziar garrafas de vinho e barris de cerveja, comer tremoços amendoins e pevides em restaurantes de nouvelle cuisine, provar novos molhos nos bifes e temperos exóticos no peixe com ar entendido e gourmet. Ir às tascas de smoking e dançar à chuva, nus e regados com molho de chocolate. E passar um dia inteiro agarrado ao fogão a preparar-nos um petisco: e levar um minuto a comê-lo! (...) Perder o tempo e ganhar a vida. E quero ver televisão aninhado em ti, e nos nossos filmes ter o teu braço e o teu joelho e o teu cheiro e o teu calor e as tuas lágrimas como companhia (choras tanto e tão bem com os nossos filmes, meu amor!). E assistir a comédias românticas empanturrados em chocolates. E escrever ao teu lado. E escrever-te bilhetes apaixonados e lamechas e escondê-los nos teus bolsos, e ver-te escrever e desenhar e pintar de mil cores os smiles que gostas de fazer em post-it’s. E à noitinha, na cama, pousar o livro e ficar a olhar-te... E de manhãzinha cantar contigo no duche e partilhar as torradas quentes e o café fresco. E fazer um cruzeiro contigo e não ver mais nada senão o nosso camarote... E beijar-te todas as manhãs, bem cedinho, e passar o dia todo ansioso pelo reencontro ao fim da tarde, com o teu cheiro entranhado em mim. E usar a tecnologia para estarmos juntos, if you know what i mean! E levar-te a mergulhar e oferecer-te uma vida da cor dos corais. E aprender a velejar para te levar a tomar um gin tónico no Peter’s, comme il faut! E levar-te a Nova Iorque, abominar o café no Starbucks, mergulhar no MoMA e passear nos coches de Central Park (é kitsch, eu sei meu amor, mas enternece-me a tua imagem, cachecol laranja ao vento enquanto os cavalos arfam e a cidade, inteira, brilha e pulsa só para nós). E comer fruta à cão, pão com queijo a meias e corn-flakes à mão. E depois de voar nos escorregas e baloiços, inundar as esplanadas de sábado à tarde com bolas de sabão. E saber uma única palavra em linguagem gestual: “Amo-te!”. E conversar, e escutar, e gargalhar, e rir rir rir rir rir sem fim! E depois ficarmos em silêncio, calados, só os dois, um-com-o-outro. E a música do mundo ser a tua respiração.

E no dia a seguir é preciso começar tudo de novo...
João Forji

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

If you knew




If you knew how I missed you
You would not stay away today
Don't you know how I need you?
Stay here my dear, with me

I need you here, my darling
Together for a day, a day
Together never parting
Just you, just me, my love

I can't go on without you
Your love is all I'm living for

I love all things about you
Your heart, your soul, my love


I need you here beside me
Forever and a day, a day
I know whatever betides me
I love you, I love you, I do

Nina Simone

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Khôra

Ce qui a lieu, c 'est le lieu
Mallarmé



…mas o que dizer deste artefacto (?), deste acontecimento, como um nome, como um sonho, khôra? É a propósito de uma passagem do Timeu de Platão que Jacques Derrida propõe uma leitura singular dessa "«qualquer coisa», que não é uma coisa": a "ininterpretável khôra". Na sua obra homónima, Khôra, Derrida diz que o próprio nome de khôra, ele mesmo significando «lugar», «praça», «colocação», «região», «terra», «mãe», «ama-de-leite», «porta-impressão» («porte-empreinte») está prometido ao eterno, ao indelével, mesmo se o que ele nomeia, khôra, não se reduz, sobretudo não se reduz ao seu nome. Percebe-se aqui a extrema dificuldade em traduzir, e isto é dizer, definir o termo khôra, ou seja, o "espaço neutro de um lugar sem lugar, um lugar onde tudo se marca, mas que será «em si mesmo» não marcado". Aliás, todo o texto derridiano é atravessado por esta obsessão, este esforço de aproximação ao sentido do termo empregue por Platão . Dando lugar à oposição logos-mythos, o pensamento da khôra não pode acomodar-se, excedendo a polaridade, parecendo jamais deixar ser tocada, compreendida ou interpretada por um qualquer tipo de tradução tópica ou interpretativa. Anacrónica, ela «é» a anacronia no próprio ser, "ela anacroniza o ser", só podendo abrir-se ou prometer-se na medida em que se subtrai a toda a determinação, a todas as marcas ou impressões às quais a dizemos exposta. Fugitiva, esguia, resistência e resistente, ela revela-se inacessível, impassível, «amorfa», sempre virgem - "de uma virgindade sempre rebelde ao antropomorfismo" - escapando-se à ontologia, à essência, pois não poderá haver qualquer determinação própria, sensível ou inteligível, material ou formal, e portanto nenhuma identidade a si.


Diferença arqui-originária, ela é receptáculo (dekhomenon) e lugar (khôra), mas não um suporte, uma espécie de folha líquida de inscrição: "soma ou processo do que vem inscrever-se, nela, a seu respeito, mesmo a seu respeito, mas ela não é o sujeito ou o suporte presente de todas essas interpretações.” Deste modo, khôra acontece como abismo, abismo abissal ("chasme abyssal"), "sorvedoiro", abertura caótica, afectando todo e qualquer discurso sobre o lugar, lançando-o no abismo, dando-o a pensar sem limites. E ao fazê-lo repõe a questão do lugar, do ter lugar, do ter lugar político, social, cultural, ou seja, coloca o discurso do genos, do lugar próprio a partir do qual a verdade do logos seria garantida. Temos aqui khôra como lugar político, do político," o lugar destinado às crianças” - a cada uma será atribuído um lugar - o lugar geral, o lugar investi, por oposição ao lugar abstracto. Khôra como receptáculo total: dá lugar à medida do cosmos.


Na sua indeterminação arqui-primordial, khôra surge, por detrás do véu, sempre esguia, como um espaço de recebimento, aceitação, acolhimento, recolhimento: um lugar da hospitalidade. Khôra não deve receber, ela deve não receber o que ela recebe. Esta é a sua determinação mais recorrente no texto de Platão: receptáculo, lugar de acolhimento ou de hospedagem. Ela dá-se como sendo o lugar por excelência, o lugar insubstituível, impossível de achar, de encontrar. Espaço arqui-originário, uma origem mais originária que a própria origem, khôra é o lugar de inscrição de tudo o que se marca no mundo, uma necessidade não geradora nem engendrada, que excede e precede, numa ordem a-lógica, a-crónica, anacrónica.


Ou (num ainda mais profundo “filosofês”) como diz Fernanda Bernardo em "A Promessa do Texto, A (Arqui-)Escrita de Derrida", Khôra será o "nome de um espaçamento que, não se deixando dominar por nenhuma instância teológica, antológica ou antropológica é o mais antigo do que todas as oposições, que a partir da oposição matricial «sensível/inteligível», lavram a história da ocidentalidade filosófica, sem se anunciar também como o além do ser da via negativa.“ Ela diz na memória o inapropriável, a saber, o imemorial de um segredo sem segredo, sem tempo, sem génese, um começo mais antigo que o começo...


Ela é um X que tem por propriedade não ter nada de próprio e ficar informe. Uma singular impropriedade, um X amorfo, eis o que deve ser registado e salvaguardado sobre khôra!


- É, portanto, fazendo finca-pé neste lugar, neste chão-sem-chão – virtual pois! - um limite-limiar líquido, neste tempo para além do tempo, que me endereço, que me escrevo, que me faço presente. É a partir daqui que a medida do meu cosmos será pensada e dita e tocada e bordejada. Espaço aberto por excelência, este será o espaço dos meus olhares, das minhas braçadas: de Platão a Derrida, do universo infinito em expansão, à cor dos lençois dos atletas olímpicos (?) que “de manhã, só na caminha”…


- Aqui nascerão e morrerão os silêncios. Do amor. Da respiração. Das mãos. Aqui fiarei e desfiarei os dias, os arrepios, os rangeres de dentes… Com as trivialidades e com as capitalidades.


- Aqui cultivarei as rosas e deixarei uma ou outra lagarta para que surjam borboletas