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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Paiol do ouro*

Oxum, Deusa das Águas
Sereia, cantora, Rainha
Reges a minha garganta
De onde nasce esse som
Te oferto perfumes e flores
Por teres me dado esse dom


Maria Bethânia






* (suddenly in my head)

sexta-feira, 5 de junho de 2009

sexta-feira, 15 de maio de 2009

13 de Outubro de 1917

Para o Daniel. Por haver despertado a minha memória.



Herculana não se inquieta com a multidão. Gosta de festas, gosta de celebrações: afinal já viu algumas na sua vida. Anualmente gosta da algazarra da Festa do Senhor dos Passos onde muita gente acorre para assistir à tradicional Procissão (um arrepio percorre-a de cima a baixo: lembra-se do corpo do pai, morto num dia de procissão enquanto dormia a sesta. Benze-se.). E ainda há pouco mais de meia dúzia de anos lembra-se do ajuntamento que foi a visita d' El Rei D. Manuel II, coitadinho, a acompanhar a desgraça que foi aquele grande terramoto que até destruiu Salvaterra (arrepia-se novamente; lembra-se do medo que sentiu quando a terra tremeu, lembra-se do susto e das ruínas do velho Paço, incapazes de resistir a tão forte ataque) – Deus o acompanhe lá por longe, para onde ele foi ainda tão novo e tão ferido! E ela também não é uma saloiinha qualquer: já várias vezes saiu da sua Almeirim natal, já conhece algumas terras, praias e tudo, coisa que a maior parte dos seus conterrâneos não se pode gabar. Olha para Manoel e inquieta-se. Esta chuva que se abateu desde cedinho só pode fazer-lhe mal, já tão abalado está com aquelas chagas-do-demónio que tantas preocupações lhe têm dado. Não há meio daquilo passar e os médicos (parecendo não saber muito bem do que se trata) dizem que é preciso ter paciência; mas como pode ter paciência uma mulher nesta época desgraçada em que o marido é o sustento de uma casa?! Se ele lhe faltar, ai, valha-lhe Deus e não a castigue por, sequer, pensar nisso! Herculana aperta-se debaixo do guarda-chuva e lembra-se do seu Manoelzinho ("Manoel Alexandre", como o pai): desde cedo tem rezado pela sua saúde e felicidade, com os olhos rasos de água, aflita como Maria com o seu Filho – os tormentos de uma mãe nunca têm fim! Pensa no que estará o seu menino a fazer, mas depressa sossega sabendo-o o ai Jesus das tias, o único menino de uma família de mulheres (Deus guarde a alma do seu irmão Manoel, tão novo e já debaixo do chão e tanta água agora em cima dele, coitadinho!), das suas primas (tanta graça acha à relação que o seu Manoelzinho tem com as primitas, tão encantadores são todos e tão amigos – como irmãos, graças a Deus!).


Manoel não sabe as cogitações em que Herculana está. Também ele tem estado absorto, não sabe se é daquele tempo infernal se é da moléstia que o apoquenta. Inquieta-se ao pensar nisso, mas não gosta de partilhar com a mulher coisas que nem ele compreende muito bem. Tem medo de lhe faltar, a ela que tão dedicada lhe tem sido, e ao seu Manoelzinho, alegria daquela casa, onde todas as esperanças estão depositadas. O rapazito, apesar da tenra idade, é esperto e parece ir longe: queira Deus que assim seja! Parece-lhe que Herculana chora. Inquieta-se, mas não diz nada com medo de, com uma palavra, lhe despertar uma choradeira qualquer e as recriminações do costume que ele já conhece e não quer que sejam partilhadas com tantos estranhos. "Eia! Muita gente também cá caiu!", pensa, à medida que vai perscrutando o terreno em redor. Será que os relatos que ouviu sobre os petizes que falam com Nossa Senhora não são coisas de beatas e gente alucinada? Este pensamento inquieta-o ao pensar que tanto caminho fez para ali estar – mas a sua Herculana nunca lhe perdoaria não vir. Sabe que ela o faz sobretudo por ele. Tem sentido a preocupação no olhar e na voz dela sempre que ele está pior. E para desviar destes pensamentos começa a rezar!


Herculana continua a sua invocação de todos os santos que conhece! Aterroriza-a a ideia de ser mais uma viúva. Sabe o que são as viúvas desse tempo, sabe que a vida acaba ali e ela é demasiado viva, tem demasiado fogo para ficar morta por dentro. Pede à Senhora que Manoel deixe de beber. Ela sabe que, por muito que ele negue, as chagas ficam piores quando ele bebe mais e isso atormenta-a. Lembra-se da mãe e das noites em que o pai chegava a casa com o grão na asa. "Grão" é maneira de dizer que aquilo era homem que era um alqueire de uma vez! Lembra-se da pistola apontada à cabeça enquanto ele a obrigava - a ela e às irmãs - a ler a Bíblia. Lembra-se da mobília queimada e a outra perdida ou vendida aos companheiros da desgraça do jogo e do álcool. Lembra-se das fugas noturnas para casa dos padrinhos sempre que ele as queria matar a todas. Lembra-se de como ele, sóbrio, era "um homem perfeito". Lembra-se da recomendação da mãe – "filhas nunca casem com um homem com vícios!" – e tem medo que o seu Manoel vá por esse mau caminho. É interrompida nas suas inquietações pelo burburinho em redor…




(…)




A chuva parece ter finalmente cedido. Começam a surgir umas abertas e o sol quente de outono já mostra a sua graça aqui e ali, como se os raios fossem semeados à mão por um agricultor cósmico. Subitamente ouvem-se gritos, Herculana olha para o céu e parece-lhe que o sol está mais intenso. Arrepia-se e sente que tem de ajoelhar. Os joelhos em redor vão flectindo à medida que o sol baila no céu e parece despenhar-se sobre eles. Ouvem-se os gritos mas ela não tem tempo para isso pois olha para Manoel e não vê as malditas chagas que tanta apoquentação lhe têm dado. A alegria é tão grande que as lágrimas irrompem-lhes dos olhos e tudo o que consegue é pensar que o seu Manoelzinho terá pai para honrar! Em redor ouvem-se gritos de "- Milagre! É Milagre!" As lágrimas misturam-se com a alegria, a terra está seca como se não tivesse caído um pingo. Manoel, tolhido ainda pela surpresa, sabe que vai honrar aquele momento, aquela graça que Nossa Senhora lhe deu: não mais abusará da pinga! Sai daquela cova com nome de santa martirizada com uma vita nuova. E sabe que o deve à sua Herculana, afinal Nossa Senhora dá sempre ouvidos a uma mãe aflita!










*In memoriam da tia Herculana e do tio Manoel Alexandre (a grafia do seu nome ainda era esta), testemunhas anónimas dos acontecimentos da Cova de Iria de Maio de 1917. Ouvi a narração da cura milagrosa do tio da boca da minha tia Emília, pequena "primita do Manoelzinho", à data com 4 anos. Contava ela que essa era uma das primeiras lembranças que tinha da sua infância: o espanto causado pela cura testemunhada no regresso dos tios do lugar das aparições da Virgem. Anos depois a vida encarregou-se de a aproximar do lugar da aparição e aí (aqui) ouviu outras lembranças de outras testemunhas do sucedido (por aqui, e antes de 1917, era Nossa Senhora do Pranto de Dornes a rainha da devoção). Em todos a certeza inabalável: é milagre!



© O Manoelzinho com os pais (1925-1930)

terça-feira, 28 de abril de 2009

Wonderful life







... No need to run and hide
It's a wonderful, wonderful life
No need to laugh and cry
It's a wonderful, wonderful life ...


sexta-feira, 24 de abril de 2009

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Ámen

Neste primeiro dia do Ano da Graça do Senhor de 2009, já quase quase a acabar, apetece-me voar! Apetece-me piscar o olho ao amanhã e sorrir à vida, como há meia dúzia de anos (nada de piaduxas parvas!!!)! Apetece-me olhar o mundo com olhos de menino e deslumbrar-me com a beleza! Apetece-me inventar e sonhar e mergulhar! Apetece-me ter ossos de cristal e não me importar!... Apetece-me rir, e gargalhar, e roncar, e saltar, e pular, e estardalhar (haverá este verbo?)! Apetece-me entrar na dança e deixar-me ir... Apetece-me deixar-me levar! Apetece-me tudo... e pronto!

(e tudo pontuado a reticências e pontos de exclamação!... Ah pois é!!!...)

Como há meia dúzia de anos!...

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Agarra que é S. Nicolau!

Um dia disseram-me que o Pai Natal (o caixeiro-viajante que distribuía as prendinhas do Menino Jesus, ou, como por cá se dizia simplesmente, distribuía o menino jesus) trazia as prendinhas numa grande sacola às costas. Mais: disseram-me que o dito Sr., por uma qualquer parafilia estranha que não me foi explicada, tinha por hábito entrar na nossa casa pela chaminé (a da sala, não a da cozinha, talvez por aquela pouco se acender, não sei!) afim de deixar no sapatinho (um que lá deixávamos todas as vésperas de Natal) as lembrancinhas. Eu, sempre tomado por um espírito inquiridor, muni-me da locomoção e fui à rua olhar para a chaminé... Rapidamente constatei que era impossível um homem (gordo ou magro que fosse) conseguir entrar pelas pequenas ventanas que a coroam, e assim acabei interiormente com um mito que, na minha cabeça, terá durado 15 segundos.

Insatisfeito, concluí que eram necessárias novas investigações com vista a apurar a vera origem dos presentes que me apareciam no sapatinho. Melhor: era necessário perceber porque é que o Menino Jesus, cândido e amistoso como era no presépio por entre grandes pedras e musgo verde, insistia em encher-me o sapatinho de camisolas interiores Termoteb e meias, em vez de chocolates e aquele carrinho de bombeiros...

A busca pouco durou. Num ápice descobri que a gaveta do fundo da cómoda do quarto, aquela que eu não podia abrir porque podia "cair-me em cima", acomodava, escondidos debaixo de umas camisolas, uns embrulhos que já tinha visto no carro, mas que me tinham sido apresentados como presentes para os mais velhos (por outra estranha parafilia, parece que o Menino Jesus só enviava presentes para as crianças, deixando as outras por conta dos grandes).

Xeque-mate!

Agora, o que não percebo é que raio de estória vendem hoje às crianças para justificar que em cada janela, em cada varanda, em cada alpendre, um Pai Natal, munido de uma escada, pareça estar a invadir cada uma, e todas as casas do país! Eu gosto de lhe chamar a epidemia do Pai Natal assaltante, ou do Pai Natal larápio! Se a tradicional estória já era pouco rebuscada, se hoje ainda houver um miúdo que por entre esta parafernália de ícones da Coca-Cola acredite no Pai Natal (já nem falo do Menino Jesus, porque esse, por acaso o que dá origem à festa, foi banido do discurso da iconografia pseudo-politicamente correcta que nos sufoca o espírito a cada minuto), só posso achar que das duas uma: ou é muito crente, mas mesmo muito, ou então é muito estúpido, mas mesmo muito! Ou como hoje se deve diz, "é um pré-adolescente com necessidades educativas especiais"...

sábado, 27 de dezembro de 2008

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

sábado, 6 de dezembro de 2008

Esperas

"(…) A princesa, compadecida por tão puro amor, disse-lhe então que se ele ficasse cem dias e sem noites debaixo da sua janela, lhe votaria um amor igual. (…) Conto Antigo

© Cobra, iô-iô



Como na fábula te aguardei, te guardei, te esperei debaixo da janela. Debaixo da tua janela. Mudavam as horas, soavam os sinos, e eu lá ia na penumbra da noite, guardar a tua janela. Mais de cem noites o fiz, mais de cem. Sempre que te sentia a falta, sempre que te sentia mais a falta, eu lá estava, noite após noite, umas vezes enregelado pelo frio, outras pingado pela chuva, mas eu lá estava. Debaixo da tua janela o ar tinha outro cheiro e a lua brilhava muitomuitomuito mais. Debaixo da tua janela te esperei, em silêncio, abrigado na escuridão da noite. Lá contemplei as sobras de ti que me chegavam, um vulto, as réstias de luz da televisão acesa enquanto dormias. Algumas noites cheguei antes de ti, noutras, simplesmente, já estavas a dormir. E eu a vaguear. Debaixo da tua janela fiz todas as orações do mundo, todas as orações que a terra pode parir num parto longo e doloroso. Debaixo da tua janela rezei. Por ti, por nós, por ti e por mim. Tantas horas debaixo daquele parapeito, para estar mais perto, para estar juntinho a ti. Para te proteger o sono, para afugentar todos os teus fantasmas.


Ter-me-ás sentido algum dia? Algum dia terás sentido a minha presença? Acredito que sim. Sinceramente acredito que sim. Tu sempre me soubeste por perto, sempre soubeste adivinhar que eu ali estava, que eu ali estava, nunca longe, nunca definitivamente longe. É uma das nossas coisas, esta capacidade de nos sabermos, de nos reconhecermos, de nos sentirmos, para além de todos os tempos, para além de todas as distâncias, sempre perto, sempre lado a lado. Sem nunca nos separarmos. Sem nunca dizer-mos adeus. Sabemos sempre um onde o outro está. Como está.


É como aquele sonho que um dia tivemos, numa noite em que tivemos o mesmo sonho: eu sentado com a tua mão apoiada no meu ombro; tu de pé, atrás de mim, a derramares os teus beijos na minha cabeça enquanto me abraçavas. Lembras-te? Nunca te vi, mas sempre soube que eras tu. Senti-te. Senti-te o cheiro e a força. Senti-te o amor e a ternura. Senti-te como te sinto tantas e tantas vezes.


Tu sempre me soubeste lá em baixo. E eu sempre soube que tu o saberias.

sábado, 4 de outubro de 2008

Happiness *

It seems the things I've wanted in
My life I've never had.
So it's no surprise that living
Only leaves me sad.

Happiness, where are you?
I've searched so long for you.
Happiness, what are you?
I haven't got a clue.
Happiness, why do you have to stay
So far away... from me?

When I'm in despair and life has
Turned into a mess,
I know that I don't dare to end my
Search for happiness.


Happiness, where are you?
I've searched so long for you.
Happiness, what are you?
I haven't got a clue.
Happiness, why do you have to stay
So far away... from me?

Happiness, sometimes I think
I see you from afar.
When I run to catch you, though,
That's just not where you are.

Happiness, you know I'll get a hold of
You some way.
Until I do, you know I'll keep on
Searching every day.


Happiness, where are you?
I've searched so long for you.
Happiness, what are you?
I haven't got a clue.
Happiness, why do you have to stay
So far away... from me?

Gonna find it, gonna find it,
Gonna find my happiness.
Gonna find it, gonna find it,
Gonna find my happiness.


When I'm in despair and life has
Turned into a mess - gonna find it -
I know that I don't dare to end my
Search for happiness - gonna find my...

Happiness, where are you?
I'm gonna get to you.
Happiness, what are you?
I'll know before I'm through.
Happiness, you know you just can't stay
So far away... from me.

Gonna find my - Happiness where are you?
Gonna find it - I'm gonna get to you.
Gonna find my - Happiness what are you?
Gonna find it - I'll know before I'm through

Michael Stipe With Rain Phoenix (words by Eytan Mirsky)


Happiness - Michael Stipe and Rain Phoenix

* Aconteceu-me esta canção. Volta não vira cá vem ela à memória e hoje lá me decidi a partir (na quase hercúlea) busca pelos mundos virtuais. Procurava algum registo (que não encontrei) da fabulosa e i-n-e-s-q-u-e-c-í-v-e-l interpretação de Jane Adams (a magnífica "Joy Jordan", the saddest Joy in the all world!) no - não menos - genial Happiness de Todd Solondz. Um filme i-n-e-s-q-u-e-c-í-v-e-l. Com uma canção inesquecível pelo seu desamparo paradoxal, pela sua tristeza bonita. Ficou-me sempre gravada no coração desde que a ouvi, já lá irá uma década (bolas, que o tempo passa e passa e passa!), numa vida também já passada, de tão distante já a sentir. Au temps des cerises. Pois bem, um filme num ano de filmes magníficos, num ano de um filme também magnífico, American Beauty. Mas para mim, se essa escala existir, menos magnífico, menos perfeito. A este (imensamente premiado, é certo) falta-lhe o arrojo do Happiness, falta-lhe o toque de loucura, o nonsense, os diálogos inesquecíveis, o humor fino e brilhante, negro e tenebroso. Cavernoso e genial, portanto. Um mundo de gente a esmo, gente (toda relacionada, mas nem sempre consciente disso) a lutar por se manter à superfície, por não se afundar na imensidão da tristeza e solidão da sua vida. Das suas vidas. Um mundo de gente - todos à procura da felicidade, todos felizes, todos tristemente felizes - desamparada e sofregamente solitária. Um mundo real, cruel de tão real, sórdido, sujo e corrupto. Um mundo de punhos fechados a lutar por ir continuando. Por ir vivendo. Por pairar sobre os estragos. O mundo de american beauty sem beleza. Sem flores. Sem arrumos. Sem ordem. Aqui deixo os minutos iniciais para (re)lembrar ou para espicaçar a curiosidade...