quinta-feira, 3 de setembro de 2009
...
E sempre. Sempre o farei. Sempre, já disse (mesmo que não o quisesse não conseguiria...).
domingo, 17 de maio de 2009
domingo, 3 de maio de 2009
Coimbra
(...)
E levas em ti guardado
O choro de uma balada
Recordações do passado
O bater da velha cabra.
(...)
* De Coimbra trago as festas e as cicatrizes - o rastro do tempo na pele. Trago a memória da partilha. Trago os risos e as lágrimas. As gargalhadas e as canções. As dores do crescimento. O prazer das descobertas. Os mestres, o sabor do saber e as cabeçadas da vida. Trago os amigos (para a vida, Senhor, para a vida) e os afectos. Trago a capa negra e as noites ao luar. Os jantares e o som da "cabra". Trago os cheiros, o Mondego e as magnólias. Trago as madrugadas do Penedo, as caminhadas sem destino, os pássaros do Botânico. Trago os abraços e as partidas. Trago os F-R-A's e as capas ao ar. Trago as Queimas e as Latadas, os selos e as fitas. Trago as tardes no Tropical, os lanches com da Vénus, os janquinzinhos com arroz de tomate do Quim dos Ossos, o traçadinho do Pratas, o chocolate quente do Quebra, as torradas do "Gil Vicente", os finos do O.A.F, o bolo de chocolate do Rubyana, os cafés do S. José. Trago a Vitrice e o Aviz e o Mil Doce e o Santa Cruz. Trago os que amo que e os que deixei para trás. Trago as noitadas de cinema e os arrepios no teatro. Trago o amor. Trago o fado.
Coimbra comigo sempre. De_cor.
quarta-feira, 25 de março de 2009
Canção das horas nº 12
Uma canção de sempre. De sempre para sempre. Sempre cá... sempre dentro.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Um dia uma vida
e não escutes os pássaros nem mesmo o mar
não oiças nem sequer o vento se soprar
ouve o tempo passar escuta a sua voz
pois o tempo tem voz o tempo fala
Está atento abertos os ouvidos ouve
a vida é uma vasta música suave
É esta praia esta dúzia de casas
curiosas do mar que as lambe lá em baixo
a verdadeira capital da noite
Nos limites marítimos do burgo
de casas calmas sobre as pálpebras da morte
dormindo à luz da lua sobre as ondas
que trocam mais abaixo espuma com as rochas
nos extremos atlânticos de aquesta povoação precária
o homem abafado pelo alvo algodão do sono
transforma-se num peixe e devora esse peixe
sem pressentir sequer que a si mesmo se devora
Outras vezes o homem sempre vítima do sono
afaga na almofada um vulto imaginado
e dá-lhe mesmo um nome sem saber
que nomear as coisas é criá-las
Entretanto a sereia sulca o nevoeiro
nas masmorras erguidas na orla do sonho
depois de o náufrago nadar nu nos lençóis do leito
sob a noite cerrada sobre a cru cruel
concórdia do convénio conjugal
E há sonhos e segredos vislumbrados véus
nos que dormem nas casas onde o mar mergulha
vêm flocos de neve à tona da memória
e doses simples ou dobradas meias doses
de uma lua embalada em lenta trajectória
sulcam o céu de telha ou de betão das construções
Inexploradas conchas sobressaltam os caminhos
calcados por aqueles que o mar chama
e favas e feijões inaugurais rompem a terra
sensível à semente que a fecunda
cavada num convívio de indistintos mortos
que em sua noite metafórica articulam só
a imutável voz possível às inscrições pétreas
Mas já o coro das primeiras aves ergue um cântico
na vasta catedral do céu ainda indeciso
quando a alva alveja os sonhos dos vizinhos
embora ainda os embale o naufrágio do sono
A povoação ondula como um lago
levemente mexido pela névoa que inaugura
o espaço disponível para o dia
Ao sol horizontal saem de casa os habitantes
que após o sol não são os mesmos de antes
O tempo passa ouve o tempo passa
faz um breve ruído e passa irrefragável incontido
Já o primeiro sol surge e retira
a sonolenta capa que cobrira cada face
e as gaivotas filhas da manhã
trazem no bico a fímbria da recente luz
E começam as colunas de neblina a irromper
das chaminés de renda das recém-despertas casas
As árvores são verdes é sólido o mar
o tempo passa há raparigas novas
sinto-me em paz as coisas estão no seu lugar
Uma criança chora a terra rola há roupa suja
eu morro bem o sei mas o mundo melhora
Para quê destruir um por um os relógios
se não existe rosto onde não poise pés o tempo
que é feito de passar como de água o mar?
Sabe-me bem sentar sentir-me vivo
sem ter que sujeitar-me à morte mísera do sono
Leio o futuro nas folhas de chá
e vou verificar se o mar ainda lá está
no extremo ocidental do forte onde as gaivotas
procuram povoar ou abolir a solidão
O sol senhor despótico domina
o vasto principado que ilumina
O tempo continua a emitir a sua voz
Pudesse eu eleger por mim a companhia
decerto levaria apenas árvores ao lado
Um deus somente podia afogar
a cabeça no mar da minha vida
Começo a caminhar na madrugada
entre sardinhas e mulheres saltitantes
e ao chegar ao mar penso pregar
o meu sermão de algas e sargaços sobre a esperança humana
sob o canto dos pássaros e a língua dos vizinhos
Neste jardim só cresce a roupa seca pelo sol
as coisas são ou não não são verdade ou não
o povoado cheira a comida e maresia
e através da vida desafia o mundo o nada
Que hei-de fazer se sou a gata borralheira?
- canta a convulsa rapariga oculta nos arbustos
E em vão voga na expectativa de quem nunca vem
mordiscar-lhe a papoila mole dos lábios
com a sofreguidão da truta ao absorver o anzol
Um forasteiro só certa vez a beijou ao vê-la distraída
mas por mais que esperasse nunca mais voltou
a dar-lhe um beijo só em toda a vida
E o hálito leve de insolentes raparigas
embacia os espelhos da manhã
E quando até mim chegas deus chegou
mulher inesperada meio mulher e meio madrugada
recortada no céu de um homem que desesperou
tantas vezes voltou de mãos cheias de nada
Eu quero para mim parcelas de manhã
delas farei um tempo para mim
um tempo de porvir que se detenha
tempo que se renegue e seja tempo
e que ao negar-se afirme a sua condição
As coisas em redor prodigalizam cor
coisas que se concentram que têm sabor
E vejo como orvalho o teu olhar tombar
primeiro quase sólido e depois vapor
evaporar-se e dissipar-se como halo ou hálito
Teu corpo acolhedor calma baía
recorta-se na luz agora a esta hora
e alegra mesmo até a alegria
Pressinto que vieste e finalmente veio alguém
que verdadeiramente vem sem bem se saber quem
Pões os pés na manhã e tudo são caminhos
a orla do vestido roça no rocio depois do
baile breve na praia iluminada pela lua
muito mais tua do que do planeta
onde vivemos pois à tua volta
é que descreve a lua a sua órbita perfeita
A noiva tem no seu vestido branco óptima mortalha
e tem escovas de dentes iminente vida conjugal
dias de sol inúteis como logo este jornal
por trás do rosto imóvel que prospecta ao espelho
uma última vez antes de ir à casa sobrepor a igreja
O tempo não parou ó noiva é esse o mal
se hoje és imortal oxalá amanhã
leve a terra te seja
em sonhos sempre alguma borboleta sobre ti
desceu e escureceu a própria escuridão
sobre essa silhueta de senhora do olhar
sozinha em vida e pelo ar apenas rodeada
cercada só de terra e na morte isolada
Saíste com a aurora vertical recebeste o meio-dia
escondeste-te na luz perdeste-te na estrada
e não deixaste nada além da tua ausência
As vozes são às vezes vítimas do vento
à criança que foi substitui-se o adulto
cada rosto destrói as sucessivas formas desse rosto
um rosto é um momento
Um homem pisa pedra a pedra uma calçada
e ao pisar a primeira está a última pisada
A gente vai pela rua vai e vem
mas pela vida vai-se e nunca vem ninguém
O som do órgão ultrapassa os azulejos
a mole da igreja e inaugura a primavera
Não oiço a voz do mar oiço o tempo passar
É primavera mesmo sobre a minha idade
sobre os anos que põem pés pesados no meu peito
(eu agora nem mesmo me revejo já
nessas fotografias nessas outras tantas mortes)
A música solar murmura em meus ouvidos
o mar dorme um profundo sono azul
um grupo palrador de pombas arredonda o adro
e ao ver uma gaivota cospe um pescador
para na pesca o não abandonar a sorte
Grandes nuvens me nevam na cabeça
o dia alastra como um canto líquido
e com um mata-moscas procuro matar
o sol em cada raio que devassa os vidros da janela
A luz valsa e verseja em cada pedra
rebenta em ondas na margem do dia
parado como um mar a ventos não sujeito
A terra é musical no meu país
cantava tanto a brisa nas espigas
nas débeis raparigas nas umbrosas oliveiras
quando ao princípio éramos os campos e eu
E nem essa magnífica mulher
de um olhar que apenas por brilhar já transfigura o ar
que nas mãos manipula embrulhos e palavras
consegue afugentar a primavera
que entre dois ladrilhos do comprido corredor
culmina e se concentra numa flor naquela casa
(qual será o futuro dessa flor
que os campos renegou e mal nasceu domesticou
a explosão natural do reino vegetal?)
Boceja a tarde soalheira e sossegada nos
plátanos calmos como o espaço dos domingos
e o mar encosta preguiçoso a fronte
no regaço que a terra intimamente tem
na cúpula do corpo da nutrida primavera
nos confins da aldeia cheia de um odor de amor e mar
Vejo a fazenda a vida ameaçadas por
espumas e brisas de uma cor de esmeralda
e o louvor dos pássaros crepita
no fogo fluvial do mês de agosto
Ó natureza nua mãe do mundo
eu sacrifico apenas ao deus bach esse deus que
numa abóbada de música domina
A solidão rumina neste cabo
onde a névoa se adensa e principia a evocar
a geada caída no primeiro jardim
do homem donde ergueu o voo
a gaivota que agora um arenque devora
E entretanto a tarde não tem mãos a medir
e enquanto não cair os homens e os campos
sujeitam-lhe uns a vida outros a superfície
aceitam-na como uma solução
O sol que nasce põe-se nos teus olhos
e mal os fechas logo a noite desce sobre
um rosto que resume rápidas mulheres
Quando passas eu passo a conhecer de cor inúmeros países
há morangos vermelhos nos teus seios
e arremessam-te olhos curiosas árvores e ávidas janelas
que te deixam na rua puramente nua
enquanto o som do sino soa no teu peito
e o sol se dissolve em teu vestido
Pensam martirizar as tuas ancas
amaldiçoar maldizer o teu nome
e assassinar-te com olhares elaborados
no silencioso e chão laboratório
onde calculam complicadas cúmplices maquinações
tenebrosos embaixadores do país das trevas
O sol suave como um pensamento
despenha-se nas águas entre nuvens
e à minha volta fecha-se esse férreo
abraço conjugal que a sociedade
usa para devassar a intimidade
Mas se eu escancarar de par em par
as portentosas portas de acesso à minha vida
hão-de inundá-la ao mesmo tempo sol e mar
únicos portos para os meus navios
Afoga-se o crepúsculo na noite
como nele se afogara já o dia
e eu velo não venha a morte ver
se pálpebras pesadas me não velam
o olhar minha única defesa
Há magos que de flores fazem raparigas
que devagar se enfeitam para a festa
do fero e feroz fim da luz diária
Os mortos surgem nos seus fatos domingueiros
lágrimas luzem lá onde ontem uns olhos olharam
As ruas são de noite como que canais
por onde só circula a sonolenta escuridão
Saio de casa ou sóbrio como um domingo
ou exuberante e excessivo como um sábado
Vindo da agricultura e da cultura por
folhas de terra e páginas de livros
ordenho umas palavras leves e leitosas
e com elas procuro apreender deter o tempo
obrigá-lo a parar e impedi-lo de passar
Mas oiço-o falar é sua esta voz
Cobre-me o corpo a escuridão e cai sobre ele a chuva
e as nuvens indecisas contra as quais se apoiam
os arcos e abóbadas da noite
solidamente assente em dunas ou colunas
da mais universal obscuridade
comunicam-me a mágoa deste tempo português
e chego a pôr em causa a minha nacionalidade
Há uma luz lunar que ilumina o mar
o asparge pela areia pela maré cheia
o poema de espuma que lhe cabe recitar
e me fala das cinzas a que se reduz
o céu breve e restrito de uma noite
abençoada noite de mulheres
que quando dormem mais estão despertas
e são reais louças e temporãs
Faço uma coisa ou outra e depois disso
é ao túmulo só o sítio aonde tenho de ir
Preciso de dormir e só na pedra tumular
eu poderei poisar de verdade a cabeça
Ingresso para sempre no mais puro escuro
Fui um inveterado tripulante da memória
oiço os passos do tempo sei a minha idade
e deito-me com toda a dignidade
É inútil bater amigos inimigos a esta loisa
onde eu repouso como simples coisa
E o tempo poisa deixa finalmente de passar
Ruy Belo
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Ámen

sábado, 27 de dezembro de 2008
Barrela
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Nimarói

Building their bridges of sand:
Nothing more than children, with children on their hands.
Deep into their silence, stronger than their words,
Runs a cold wild river to the sea of love.
I’m the cleaning Lady of the broken hearts.
I’m the Virgin Mary of the psychopaths.
I’m god’s only witness that they fall apart
When they touch the fire of the ancient stars
When the rain starts falling on their hearts,
All Hitler’s and Bonaparte’s
Hide inside my red dress like motherless pets.
They produce the tears, they invent the bombs,
They spread out the fears
And they come home all alone.
Belle Chase Hotel
Nimarói - Belle Chase Hotel
sábado, 6 de dezembro de 2008
Esperas

© Cobra, iô-iô
Como na fábula te aguardei, te guardei, te esperei debaixo da janela. Debaixo da tua janela. Mudavam as horas, soavam os sinos, e eu lá ia na penumbra da noite, guardar a tua janela. Mais de cem noites o fiz, mais de cem. Sempre que te sentia a falta, sempre que te sentia mais a falta, eu lá estava, noite após noite, umas vezes enregelado pelo frio, outras pingado pela chuva, mas eu lá estava. Debaixo da tua janela o ar tinha outro cheiro e a lua brilhava muitomuitomuito mais. Debaixo da tua janela te esperei, em silêncio, abrigado na escuridão da noite. Lá contemplei as sobras de ti que me chegavam, um vulto, as réstias de luz da televisão acesa enquanto dormias. Algumas noites cheguei antes de ti, noutras, simplesmente, já estavas a dormir. E eu a vaguear. Debaixo da tua janela fiz todas as orações do mundo, todas as orações que a terra pode parir num parto longo e doloroso. Debaixo da tua janela rezei. Por ti, por nós, por ti e por mim. Tantas horas debaixo daquele parapeito, para estar mais perto, para estar juntinho a ti. Para te proteger o sono, para afugentar todos os teus fantasmas.
Ter-me-ás sentido algum dia? Algum dia terás sentido a minha presença? Acredito que sim. Sinceramente acredito que sim. Tu sempre me soubeste por perto, sempre soubeste adivinhar que eu ali estava, que eu ali estava, nunca longe, nunca definitivamente longe. É uma das nossas coisas, esta capacidade de nos sabermos, de nos reconhecermos, de nos sentirmos, para além de todos os tempos, para além de todas as distâncias, sempre perto, sempre lado a lado. Sem nunca nos separarmos. Sem nunca dizer-mos adeus. Sabemos sempre um onde o outro está. Como está.
É como aquele sonho que um dia tivemos, numa noite em que tivemos o mesmo sonho: eu sentado com a tua mão apoiada no meu ombro; tu de pé, atrás de mim, a derramares os teus beijos na minha cabeça enquanto me abraçavas. Lembras-te? Nunca te vi, mas sempre soube que eras tu. Senti-te. Senti-te o cheiro e a força. Senti-te o amor e a ternura. Senti-te como te sinto tantas e tantas vezes.
Tu sempre me soubeste lá em baixo. E eu sempre soube que tu o saberias.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Paixão

- Quando acordei só havia ruído. Só barulho. Só confusão. Tinha um martelo pneumático em-permanência a esburacar-me o cérebro. Não conseguia sequer ouvir-me a mim mesmo, não conseguia sequer pensar uma coisa simples como “azul”. Também não conseguia ouvir o coração, mas sabia estar vivo, de alguma maneira, vivo. Insuportavelmente vivo. O mundo todo me parecia estar em slow motion, as vozes chegavam-me com um atraso incomensurável, e eu, ali estava, de alguma maneira, ali estava, a tentar responder, a tentar, ali. Três dias assim permaneci, três dias ausente, três dias chorei infindavelmente, por toda a vida, para toda a vida. Não te sei dizer quantos foram os ataques de pânico, quantos foram os gemidos, os rangidos de dentes, quantas foram as mortes. Apenas que foram muitos, muitos, muitas. Não te sei dizer o quanto me doía o corpo, o quanto me encarquilharam as mãos, o quanto escavei a noite. Nem sequer te sei dizer, nem sequer te sei contar o quanto a voz nos pode doer, o quanto ela pode sangrar, rouca, de tanto gemer. De tanto gemer. De tanto se afogar.
Sei sim que ao fim desse tempo – três dias, três bíblicos dias – uma nova pele me cobria. Ao fim desse tempo de escuridão, voltei a habituar-me à luz, devagar primeiro, devagarinho depois. Vislumbrei uma claridade, levantei a cabeça, levantei-me, sentei-me e pensei. Como da primeira vez, como o primeiro pensamento, como um primeiro pensamento na vida, pensei. Analisei. Pesei. Ponderei. Resolvi. Tomei decisões. Tomei todas as decisões. Pela vida e para a vida. Uma eternidade de decisões, de resoluções graves, tratados assinados, armistícios plenos e incondicionais. Lambi as feridas. Sarei-me.
De todo esse tempo, de toda essa dor, a mais funda, a mais aguda que alguma vez pude sentir – surda de tão aguda, cortante de tão desesperante, sem-doer doendo, daquelas que nos fazem desmaiar porque o cérebro já não consegue aguentar mais e é demais – apenas guardo uma lembrança salvífica, apenas uma voz me chegava, apenas uma imagem me agarrou os olhos salgados e ardentes: Tu. Tu.Tu.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
acto I
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Distraiu-se por um momento, pois o cair dos minutos tinha parecido incomodar T. que agora, virando-se naquela cama pequena, pequena demais para dois, cada vez mais pequena para dois, se ajeitava encostando o seu corpo grande ao seu. O calor daquele corpo, aquele corpo ao qual ainda há pouco (ou seria já há muito? teriam passado já horas desde que os seus corpos se engalfinhavam e as suas mãos corriam o mundo um no outro? teria passado já tanto tempo a olhar para o tempo?) devorava a sua boca e as suas orelhas e o seu pescoço, sabia-lhe bem, transmitia-lhe alguma sensação de segurança. Era como se, se de repente o mundo ruísse e o chão tremesse, aquele corpo servisse de abrigo; e lembrava-se de simulacros e de conselhos das autoridades em caso de terramoto. Se algo acontecesse, nada lhe cairia em cima, e ali teria de ficar até os cães-pisteiros lhe descobrirem o rastro e dessem sinal de que ali estava, ainda a cheirar a T., com o gosto de T. na boca, e T. a fazer de trave protectora. T. decerto não se importaria dessa função salva-vidas e ainda haviam de rir os dois da cara dos bombeiros quando os vissem de lá sair.
Não conseguia perceber. Porque se sentia em segurança ao mesmo tempo que só tinha vontade de dali fugir. Pensou por momentos como seria bom levantar-se devagarinho, vestir-se e sair sem uma palavra, sem um beijo de despedida (afinal não tinha tudo começado assim, com a promessa de um beijo?), sem um aceno ou um olhar de relance. Mas logo se lembrava que era T. quem estava em sua casa, e não o contrário. Se assim saísse, mesmo que o pudesse fazer (depois diria ter algo a tratar de manhã cedinho e não ter tempo a perder, ou uma qualquer desculpa esfarrapada que não parecesse anunciar uma fuga constrangedora, ou não daria desculpa nenhuma. e pronto.), sentir-se-ia ainda pior, como se para além de tudo fosse cobarde. Não, isso não. Tinha de ali permanecer e dormir. Só queria dormir e acordar e decerto “amanhã tudo fará sentido!”, pensava. Dormir e acordar de novo. De novo.
Mais um minuto caía no relógio, aos poucos esmorecido pela claridade que começava a fazer-se notar. A seu lado, T. dormia cada vez mais serena e profundamente e agora o seu corpo parecia mais colado ao seu. Afastou uma perna, num gesto de pudicidade desconhecida, e ficou, quase em equilíbrio na beira da cama. Precisava de espaço, sentia as paredes apertarem-se e o ar fugir-lhe do peito. Talvez se se levantasse...Mas iria para onde? Ficaria a vaguear pela casa até ser dia? Iria pespegar-se em frente à televisão, como se tivesse insónias? Mas tinha frio. cada vez mais frio. Se ao menos tivesse “despachado” T. depois de tudo terminado! Mas os termos em que pensava sobre isso faziam-lhe ainda mais impressão. Porque sentia dificuldade em chamar “amor”, ou “sexo”, ou qualquer outra coisa ao que se tinha passado entre eles? Apenas conseguia pensar “naquilo”, “no que aconteceu”, “no que se passou”, e não conseguia dar um nome, um nome que pudesse descansar e arrumar o assunto. Um nome sempre serena, sempre arruma as coisas e evita que se pense muito nisso. E que descaramento T. ter ali ficado! Um mínimo de decência seria depois do “serviço feito” levantar-se e sair respeitosamente! E com esta última associação comercial sentiu um arrepio fundo e gelado subir-lhe e trepar à nuca, causando-lhe náuseas e aumentando-lhe a angústia. E a solidão.
Estranhamente, parecia-lhe ser disso que se tratava. (talvez a chegada da manhã ajudasse a aclarar as coisas no seu pensamento, talvez… quanto tempo faltaria para a manhã? talvez fosse melhor permanecer vigilante enquanto arrumava as gavetas e punha as entranhas a corar…). Agora conseguia perceber melhor (também, estava num estado cada vez mais desperto, e só pensava na hora em que T. acordaria, sairia – finalmente! – e deixaria o quarto só para si. “A César o que é de César”, dizia para consigo!) e o pensamento começava a fazer algum sentido: o que sentia, o que lhe causava aquela angústia profunda, era uma espécie de solidão. E quase que riu à gargalhada alto, quase que riu de si, por lhe ter passado pela mente aquela ideia estapafúrdia! “Solidão”, dizia para consigo, “solidão com “tudo o que se passou” e com T. aqui ao lado a ocupar-me a cama toda!”. “Tomara eu!”. Mas a ideia não lhe saía do pensamento e começava a fazer lastro. Pensava que enquanto tiveram “sexo” (a expressão parecia-lhe agora mais adequada, suficientemente neutra para não provocar dois pensamentos seguidos sobre o assunto), enquanto os seus corpos se engalfinhavam (sim, gostava desta expressão, “en-gal-fi-nhar”… fazia lembrar algo de carnal, de animal, algo que lhe agradava dado o contexto também carnal em que se encontrava, demasiado carnal numa cama cada vez mais pequena para dois), enquanto se engalfinhavam um no outro (decididamente a expressão era engraçada e imagética. Gostava e haveria de se lembrar dela para utilização futura), conseguia agora perceber, um estranho e perigoso abismo havia-se aberto no seu corpo: por um lado a sua carne, a sua pele, o seu desejo “engalfinhavam-se” com T., (sim, sem dúvida gostava da expressão. Tinha um toque de humor que lhe agradava; dizer que alguém se tinha engalfinhado com alguém, sexualmente falando, dava-lhe vontade de sorrir, ao mesmo tempo que lhe despertava os sentidos), apertavam T. contra si, desejavam T., beijavam T., queriam o corpo de T. cada vez mais no seu, na sua pele e no seu suor; por outro - lembrava-se agora, afastando, aos poucos, um véu fino, mas espesso ,que lhe envolvia a memória - uma parte de si, um fundo de si, talvez aquele a que comummente se chama de intimidade, um pedaço por encontrar, perdido em si, perdido no pulsar do coração, no fluir do sangue, apartava-se, fechava-se cada vez mais, e queria dali fugir. Como um menino assustado que tapa a cabeça e ali fica, imóvel, olhos bem fechados, à espera que o Papão não veja a tremedeira debaixo do lençol.
Mas porquê? Tudo fora consentido, tudo fora desejado. Tudo fora pressentido, e quando havia convidado T. para “só lá ir dormir” era óbvio que “só lá ir dormir” era a última coisa a “só” acontecer. E, de certa forma, tudo tinha sido bom. Tudo tinha sido muito bom. Tudo tinha sido satisfatório. Prazeroso, mesmo.
K. irrompeu de rompante e apareceu-lhe no pensamento. Durante todo este tempo havia permanecido por debaixo de todas as palavras, impresso em todos os pensamentos, um rosto a escapar-se como uma impressão num sudário, um nome tatuado debaixo da língua. Uma impressão sem impressão. K.! K.! K.! Era ainda e sempre K.! O que raio haveria em K., para, tanta água passada por debaixo de tanta ponte, ainda ali estar, ali, na dobra do fundo da sua intimidade, dentro de si, no meio de si e de T., a ter amor consigo, a amar_lhe?
(Não conseguiu evitar que um sorriso se plasmasse no seu rosto: a expressão tinha-lhe saído do fundo, cuspida abruptamente, sem preparação nem reflexão, do tal canto escondido e secreto da intimidade. Para mais, “ter amor” parecia-lhe bonito, poético, lembrando-lhe uma frase que Soror Saudade tinha para quando tinha um poema novo: “aconteceu-me um poema…” “Ter amor”, “acontecer amor” parecia-lhe digno e íntimo, ou no limite, muito menos foleiro do que “fazer amor” que lhe soava sempre a uma espécie de glossário íntimo da classe média, de mau gosto e sempre horroroso, nem sequer kitsh e, no mínimo, perfeitamente desadequado. “Fazer amor” era aquela típica expressão de alguém que, ou não quer chamar os bois pelos nomes, ou quer dourar uma coisa que nada tem de dourado. É um rodriguinho pateta. Ninguém “faz” amor e só a ideia lhe parecia risível. Não é da sua natureza ser feito. Quanto muito “acontece-lhe”. Caso contrário fode. “Acontece-lhe amor”, “tem amor com”, “tem amor por”; ou então “fode”, “fode com”, “fode por”, lembrando-se então daquele célebre aforismo de Sartre que dizia que o sexo é, apenas e tão só, o “esfregar de um tubo noutro tubo”. O que ele nunca tenha percebido – ou talvez tenha – é que o amor é todo criação, é dádiva, é inventividade e improviso, surpresa, deslumbramento, e arrebatamento. Coisa que não é possível conter em algo manufacturável. Nem sequer manufacturar. O sexo faz-se - se bem que só a imagem do Sartre a fazer o que quer que fosse com a Beauvoir lhe parecesse apocaliptíca! – o amor “acontece-se-lhe”. Recebe-se e dá-se, sem nunca ser feito, sem nunca existir verdadeiramente, ônticamente. Orgasmos até um galo dá. Voos, nem os anjos conseguem.)
Tinha então fodido com T. e “tido amor” com K. Uma espécie de ménage. Um dois, literalmente, em um. Uma gargalhada surda subiu-lhe pela garganta acima, e foi instalar-se à beira das duas lágrimas que começavam a espraiar-se pelo rosto, uma escorregando lenta pelo nariz a cair a despenhar-se no lençol (amanhã haveria de mudar os lençóis e assim lavar a vida e a alma). Na sua cabeça começava a fazer sentido e a cada vez tomar maior lugar, aquele sentimento de solidão que cada vez mais lhe apertava o peito. Havia estado ali, ali em carne com T., mas no seu íntimo havia estado, havia desejado, momento após momento, que aquela boca, aquela saliva, aquela mão, aquele gemido, fossem de K. De K. em carne e em intimidade. Em amor e em sexo.
K. rasgava-lhe o pensamento cada vez mais, como uma onda que vinda do fundo do mar cobre a terra de mansinho, a pouco e pouco, até não haver mais terra à vista. K. tomava-lhe de assalto o pensamento, e a intimidade e - conseguia quase sentir o seu cheiro - o corpo. Onde estaria K. naquele momento? Estaria a dormir? Lembrava-se de quando observava o seu sono e de como isso lhe enternecia o coração. Olhar e admirar K. enquanto dormia fazia-lhe sentir e acreditar na ordem do mundo. Nessa altura, respirando a respiração de K., escutando o borbulhar dos seus sonhos, acariciando o seu corpo fetal, sentia que as coisas se encaixavam, se serenavam, como se de repente o medo e a fome desaparecessem da face da terra. Sim, e isso agora era-lhe por demais evidente, era com K. que tinha estado sempre, apesar de, carnalmente, se ter “engalfinhado” com T. Era K. que lhe deixava a cama vazia, demasiado vazia, apesar de a sua cama ser cada vez mais pequena para dois com T. Era a sua ausência que doía, que moía e lhe esganava o prazer.
E agora “engalfinhar” parecia-lhe menos engraçado, menos estimulante, e se bem que absolutamente oco, absolutamente plástico, parecia-lhe também, cada vez mais adequado. "Engalfinhar" era a tradução pura, redonda, elíptica de como tudo tinha sido. Solitariamente, sido. A dois.