quinta-feira, 26 de março de 2009

Pouca-terra Pouca-terra

Ontem, a CP encerrou as linhas do Corgo e do Tâmega sem avisar ninguém. Contava com o silêncio de todos e fê-lo pela calada, desprezando toda a gente. Mas a culpa não é da CP; é, antes, de todos os pacóvios que transformaram o país num tapete de asfalto, bom para a camionagem, para as empresas de obras públicas e para o consumo de gasolina. Em vez de investir em comboios e serviços decentes para passageiros e mercadorias, os sucessivos governos destruiram um património secular e uma parte da nossa geografia cultural – tudo em nome das ‘grandes obras’ e do ‘grande dinheiro’. Hoje há pouco a fazer. Há alcatrão, cimento, camionagem e gasóleo. Tudo caro. Os comboios portugueses inventaram um país, povoaram-no, desenharam a nossa geografia. Era um país mais bonito do que este.

Francisco José Viegas





Desde que me lembro que gosto de comboios. Gosto de comboios, ou melhor ainda, prefiro-os, da mesma maneira que prefiro gatos a cães. I'm a train person, i believe! Gosto do espaço, da liberdade que me dão, do som, dos bares, da paisagem a desfilar cuidadosamente, da vertigem da velocidade. Gosto de carris. Tanto gosto das velhas estações com velhos relógios e bancos esquecidos do tempo que passou por eles, como gosto das novas, luminosas e frenéticas onde tudo é feito para ser à pressa. Porque me defino (parafraseando uma vez mais o Francisco José Viegas) como liberal à moda antiga, vejo o comboio como um símbolo de progresso. Tal como o foi quando, há já mais tempo do que lembramos, as velhas máquinas a vapor começaram a sulcar os campos, a assobiar o seu apito nas curvas, levando "a civilização moderna e cosmopolita" como ela era concebida às cinco partidas do mundo. (Sou também um modernista aprés le temps, cujo fascínio pelas máquinas do progresso é inesgotável!) Talvez por isso também goste dos Metropolitanos, não sei! Talvez seja por me evocarem (sendo-o, também, diferentemente) os comboios e a época em que eram uma novidade e o mundo girava mais saborosamente. Gosto de comboios, tal como gosto de despedidas e partidas. E de chegadas.



Cresci numa família que tudo fez para que os comboios sulcassem estas terras a caminho das Beiras, acreditando no progresso por eles trazido. Uma família que sempre gostou de comboios. Daqueles que levavam os cabazes à família lisboeta abastecendo-a de hortaliças, vinho, pão, azeite, carne, fruta e até empadas acabadas de fazer. E que na volta traziam as velhas embalagens de Lactosimbiosina, o Malte da Portugália, um casaco dos Armazéns e as "exóticas" bananas . Cresci a ouvir as histórias desses cabazes que durante décadas ligaram uma família unida no amor e nas cartas trocadas diariamente, antes do telefone e da era digital em que vivemos. Os comboios serão, também por isso, teares da ternura.



Assim sendo, sempre que se encerra um metro de linha, ou se transforma mais um quilómetro nas inefáveis, novas-ricas e irritantes "ecopistas", sinto-me mais pobre. Sinto-nos mais pobres. E mais atrasados. E mais distantes. Não partilhando da americana celebração orgástica pelo automóvel, sinto-me europeu quando prefiro o comboio. Por isso defendo uma rede ferroviária nacional de Bragança a Vila Real de Santo António, sem TGV's desnecessários (com as honrosas excepções das ligações a Madrid e Vigo), mas com comboios de qualidade: eficientes, limpos, pontuais, regulares, silenciosos e económicos. Acredito que isso faria mais por este pobre país estilhaçado, do que mil quilómetros de auto-estradas. Acredito que novas linhas deveriam ser traçadas e construídas, e que outras tantas deveriam ser reabilitadas, modernizadas e reanimadas. Uma verdadeira rede a ligar as capitais de distrito e as cidades principais, com ligações aos metropolitanos para a circulação intra-urbana. Uma rede que fomentasse a coesão nacional, o transporte de mercadorias (mais barato e ambientalmente profícuo) e o lazer. Uma rede que poupasse a importação de combustíveis fósseis e que procurasse a autonomia energética. Uma rede ferroviária moderna, cosmopolita, e por isso mesmo, tradicional, próxima, característica.



Enfim…Um sonho e um devaneio nos tempos que correm, presumo!



© Imagem nesta linha.

5 comentários:

Daniel Silva disse...

Foi por isso que já coloquei uma petição na barra laterial do meu canto para a linha do Tua.

Abraço

Adão disse...

Também gosto de viajar de combóio... e tenho pena que onde moro não existe... porque é um meio de transporte muito melhor do que o carro... principalmente para entrar em Lisboa (quem lá trabalha).

No Limite do Oceano disse...

Eu tenho muitas saudades de andar de comboio, faz-me recordar a minha infância, as férias, ir ao norte...bons tempos!

*Hugs n' smiles*
Carlos

Me Myself And I disse...

As viagens de combóio são nostálgicas, maravilhosas...Uma constante surpresa principalmente quando entramos num sem destino...Tenho receio de não chegar a conhecer a linha do Tua...:-(
Um beijo.

Daniel Silva disse...

Passa no meu blogue. E aceita o prémio ;)

Abraço =)