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sábado, 27 de junho de 2009

Cinema paradiso

Houve um tempo em que o cinema era com actores e actrizes. Bruto, seco, rude, sem efeitos espectaculares fantásticos, sem magias de algibeira e varinhas de condão. Houve um tempo em que o cinema era (como o diria Manoel de Oliveira que ainda o faz) teatro filmado. Isto é, tão simplesmente, palavra animada, texto, densidade, textura, profundidade (da palavra e da imagem) sem excessos, sem pontas soltas, sem desperdícios - tudo concorrendo para a obra final (o texto, a decoração, a banda sonora, os planos, a iluminação, a fotografia, o guarda-roupa, os actores). Houve um tempo em que o cinema era avassaladoramente adulto. Houve um tempo em que o cinema amadureceu e se tornou vida. Houve um tempo em que este cinema abarrotava as inúmeras salas e era "comercial". Houve um tempo em que o que interessava era a narrativa contada e não o custo.


Era um tempo de requinte aristocrático. Um tempo do sonho. Um tempo a correr por entre os dedos... Em homenagem a esse tempo. Em homenagem a um dos grandes realizadores cinematográficos que a Europa (e o mundo) conheceu - Luchino Visconti. Em homenagem ao meu realizador italiano favorito. Em homenagem ao tempo do leopardo...





terça-feira, 31 de março de 2009

Fitas

Gosto de palavras. Gosto das palavras. De lhes sentir os gostos, os aromas, os sentidos. Gosto de as tornear e de as ouvir falar. De as sentir arder na língua, de as deixar ir com a brisa que vem das sereias. Gosto de lhes perscrutar os segredos correndo atrás delas no jogo da cabra-cega, de lhes remexer nos baús, de deixá-las nuas e impuras. Uma palavra nua, saída de si, é das coisas mais enigmáticas, mas arrebatadoras que conheço. O seu poder é absoluto. É o jogo da fala e do silêncio. É o jogo do sentido e do dito.

Hoje saio delas. Dispo-as de mim, como se de uma pele supérflua se tratasse, como se fosse possível estar, algum dia, verdadeiramente fora delas. Ausente. Sem palavras que sequer formem o pensamento. Eu comigo absolutamente só, sem sequer dizer "- só". Faço-o com o sorriso da alegria pelo galardão que, hoje, o D. atribuiu a esta Khôra. Em boa verdade vos digo que o galardão foi atribuído a todos aqueles que o D. segue e a todos os outros que se julguem merecedores da distinção agora atribuída. Mas isso não interessa um chavelho: um prémio é um prémio (e eu gosto de ser premiado, nem que seja a feijões! No tempo em que se jogava a feijões…), e eu estou feliz por ter sido – também – contemplado!


E porque o D. nos tem andado a desencaminhar para que nos apresentemos, em carne e osso, ecce homo!


E obrigado. (Simplesmente) Obrigado!




P.S. Para a comemoração esta Khôra abre as suas fitas para nelas acolher o galardão.

domingo, 1 de março de 2009

De cor *

© Imagem aqui


VI

Aumentámos a vida com palavras
água a correr num fundo tão vazio.
As vidas são histórias aumentadas.
Há que ser rio.

Passámos tanta vez naquela estrada
talvez a curva onde se ilude o mundo.
O amor é ser-se dono e não ter nada.
Mas pede tudo.




Natália Correia



* Obrigado por mo trazeres à língua!


terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Nuas e impuras

Escrevo uns versos e rasgo as palavras.
As palavras devem ser habitadas
E as minhas, de tão ocas, estão mudas

Escrevo uns versos e rasgo as palavras
E fico a vê-las, traquinas, escondidas
Nuas e impuras umas atrás das outras


domingo, 16 de novembro de 2008

Balada das palavras perdidas

Pergunto-me se esta canção, com a magnífica orquestração que tem, se cantada em inglês não estaria na nossa memória musical através do cinema americano? Pergunto-me se esta mulher, Madalena Iglésias, cantando em inglês, não teria sido uma estrela maior do "star system" (muito maior do que foi no mundo Ibero-Americano onde foi uma das maiores estrelas dos anos 60, entenda-se)? Pergunto-me qual a razão de hoje ainda conseguirmos exportar menos música do que quando nos definíamos como orgulhosamente sós?

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Habeas corpus


Hoje quero o teu corpo, mais nada.

Preciso que a tua língua lavre a minha pele.

Hoje preciso que me ames para além das palavras.

(As palavras não têm o teu cheiro. Não escorrem suor. E só às vezes aquecem por dentro.)

Vem. Caminha como se eu fosse uma duna.

Hoje eu sou o amor inteiro em chamas.

O centro do desassossego do fundo do mar.

Despedaça-me. Para que quero eu um só coração?

Não preciso de um par de mãos vazias

Nem de dois pés que não me defendem da vertigem do voo.

Hoje quero o teu corpo. Contra o meu corpo. Força bruta.

Preciso dessa constrição como desculpa para o movimento de crescer. Hoje.


Frederico M.




Piece of My Heart - Janis Joplin

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

In a manner of speaking

Aconteceu-me esta canção – é sempre assim com o que amamos. Tropecei nela e, desde então, não mais deixou de me andar “da cabeça para o coração e do coração para a cabeça” (como diria o insuportável, mas genial, Almada). Lembra-me do silêncio, da sua voz, da forma como ele pode falar e calar. Lembra-me das palavras: do que elas dizem (o dito) e do que elas deixam (por) dizer (o Dizer). Do tanto que elas calam - dizemos sempre mais do que dizemos. Dizemos sempre mais do que, aquilo, o que realmente dizemos. E calamos outro tanto, ou mais… Daí as reticências. Para dizer e para calar. “You told me everything / By saying nothing”. E no amor ainda mais. Tanto (tudo?) que se diz sem palavras. Ou com as palavras do coração. De cor, pois então! Dizer tudo, sem dizer nada. Eis o segredo. Eis também, e talvez, a mais pura manifestação de amor. Do amor.

In a manner of speaking
I just want to say
That I could never forget the way
You told me everything
By saying nothing



In a manner of speaking
I don't understand
How love in silence becomes reprimand
But the way that i feel about you
Is beyond words

Oh give me the words
Give me the words
But tell me nothing

Ohohohoh give me the words
Give me the words
That tell me everything

In a manner of speaking
Semantics won't do
In this life that we live we only make do
And the way that we feel
Might have to be sacrified

So in a manner of speaking
I just want to say
That just like you I should find a way
To tell you everything
By saying nothing
.

Oh give me the words
Give me the words
But tell me nothing

Ohohohoh give me the words
Give me the words
That tell me everything

Oh give me the words
Give me the words
But tell me nothing
Ohohohoh give me the words
Give me the words
That tell me everything



Tuxedo Moon / Nouvelle Vague


As palavras


As palavras são
a pele
o limite de mim

uma carícia
é um poema

aceno da língua
no espaço de um fonema

Luís P.