sábado, 20 de setembro de 2008

Confissões

Há horas em que sinto que falhei. Pior: sinto que falhei contigo, a última pessoa com quem queria ou podia falhar neste mundo. Falhei e falho – a todas todas e tantas tantas horas. Porque não consigo ser o escudo que te proteja de todo o mal do mundo. Porque te feres e te cortas nos fios da vida, e eu nada consigo para arredondar todas as esquinas, algodoar todos os chãos, derreter todas as lâminas. Quando sinto que te feriste, que choras por dentro e por fora, emudeço de aborrecimento, sinto-me morrer aos poucos, caio aos pedaços enquanto as lágrimas do teu sorriso forram o lençol. Não consigo saber-te triste. Nunca consegui. Nunca conseguirei. Porque isso vai contra a verdade em que acredito, a verdade que professo, a verdade que me alimenta a respiração: tu, tu muito muito muito especialmente, tu nunca, mas mesmo nunca deverias experimentar o gosto azedo da tristeza!

Mandasse eu no mundo, tivesse eu o poder de Deus e tu nunca sofrias. Tu nunca te magoavas. Tu nunca caías no teu caminho. Só flores e risos. Só flores e risos. E beijos na testa e no queixo - como eu gosto e como tu gostas.


Dirás que deliro, que isso é e será sempre impossível, que é com esses solavancos que cresces e te conheces mais profundamente e melhor. Pois sim, acredito nisso tudo. Mas também no mundo sem dor e sem mortes e sem feridas a sangrar-sem-sangrar, sem dores a doer-sem-doer. Foste tu que me ensinaste isso e jamais o esquecerei. E jamais deixarei que o esqueças. Se mais nada puder ou souber fazer, estarei sempre aí para to dizer. Para te enxugar as lágrimas e te abraçar. Para te agarrar e lamber as feridas. Em silêncio, mas cheio de palavras que te encham o coração de sol e te devolvam o sorriso. Em silêncio, mas cheio de sorrisos para deixar na tua boca, e risos para encher os teus sonhos. Em silêncio velarei os teus sonhos e expulsarei os monstros do teu sono. Em silêncio varrerei a tua casa e deixá-la-ei a brilhar por dentro e por fora.

E há horas em que sinto que esperas por mim para te salvar. Que a todas todas todas as horas esperas que eu te salve. Que eu alumie o teu caminho e te pegue ao colo. Que te dê o paraíso na terra. Que cultive um jardim secreto e te leve para lá. Onde te dê a beber a água nascente com as minhas mãos. Onde te banhe os pés amassados e perfume os teus cabelos com jasmim. Onde o meu corpo seja uma concha para te deitares na relva húmida debaixo de uma coberta de estrelas. Onde sossegues.

E há horas e horas e horas que sei que o farei. Que o serei. Dar-te-ei a eternidade. Tu nunca morrerás! Nunca acabarás porque te amo. Porque te protejo e te trans-porto em mim, comigo, para cima e para baixo, de um lado para o outro do mundo, através de todos os tempos, em todas todas as horas. Guardo-te no fundo de mim porque lá construí um mundo de fadas e duendes e castelos mágicos e chupa-chupas coloridos e perfumados para habitares. Lá nenhum mal chega. Lá nenhum vilão te procurará. Lá estarás a salvo.

Vem. Deixa-me ser o teu messias.


Tu Es Ma Came - Carla Bruni

3 comentários:

Paula disse...

Amei este "confissões". Senti-o como se fosse meu, se tivesse o talento para tal. Já punhas o autor... de qualquer modo, obrigada pela partilha. Beijos P.P.

AnAndrade disse...

Adorei!!!!
E seja bem vindo à blogosfera, monsieur...
Beijoooooooooooooooo!

Luís P. disse...

Paulinha,
O autor de tudo o que não estiver assinado, serei sempre eu. A "confissão" é minha:)

Beijos, Luís